Explosão de alegria ou de tristeza a cada quatro anos
E não falo de futebol, mas sim de eleições

Dizem que o brasileiro é nacionalista a cada quatro anos. Usa a camisa verde e amarela, se emociona com o hino nacional, se reúne com amigos ou desconhecidos para vibrar e assistir aos jogos da seleção brasileira de futebol e comemora cada lance como se fosse a conquista da liberdade.
É igualzinho às eleições.
A cada quatro anos procuramos conhecer os jogadores (ou políticos) do nosso time e dos adversários, torcemos, xingamos, nos unimos (ou nos afastamos) e, ao final da competição, ou explodimos de alegria ou sofremos uma ressaca.
Mas isso passa e tudo volta ao normal.
Tanto no futebol quanto nas eleições, a maioria dos brasileiros passa os quatro anos seguintes sem acompanhar a evolução dessas pessoas, suas entregas, suas posturas dentro e fora “dos gramados”.
No caso do futebol os jogadores ainda são mais acompanhados, em especial quando se trata de alguma fofoca, um relacionamento amoroso, um outro filho a caminho ou algo mais picante.
Porém, há uma diferença importante entre a Copa do Mundo e as eleições: o impacto real que elas exercem em nossas vidas. Com exceção de quem vive profissionalmente do futebol, o resultado da seleção brasileira não vai gerar mais oportunidade de emprego, melhorar ou piorar a capacidade de compra das pessoas, estimular a pesquisa e a inovação, trazer segurança ou melhorar a qualidade da saúde, educação ou infraestrutura.
Já o resultado das eleições…é exatamente sobre isso.
Tem outra similaridade entre futebol e política no Brasil que, infelizmente, me impressiona. Os jogadores trocam de clube com a mesma facilidade que os políticos trocam de partido – leva quem pagar mais ou oferecer mais vantagens.
Mas, jogador é uma profissão como outra qualquer. É natural ele trocar de time. Quem paga seu salário é o time, que recebe dinheiro de patrocinadores e de ingressos de quem se dispôs a pagar.
Já o político, ele representa os interesses dos eleitores e é responsável por utilizar o dinheiro dos cidadãos que também pagam a sua remuneração por meio de impostos obrigatórios. Não pode agir como se fosse simplesmente uma profissão como outra qualquer.
Quem escolhe os jogadores e os políticos?
Outra diferença, é que, apesar de todos os brasileiros opinarem sobre a escalação, cabe exclusivamente à comissão técnica (e talvez à cartolagem da CBF) definir a convocação e quem entra em campo. Na política, nossa voz é, de fato, real, pois são escolhidos por meio do voto direto.
Voto consciente não é formado exclusivamente durante os meses que antecedem as eleições, mas é construído e reconstruído durante todo o tempo. Acompanhar o trabalho dos políticos e partidos, suas ideias, posicionamentos, envolvimentos suspeitos, uso do dinheiro público é a base de uma escolha objetiva e legítima. Quatro anos depois, estaremos mais seguros em escolher quem merece nos representar.
No futebol temos o direito de cornetear do conforto de nossa poltrona, já na política, a abstenção significa deixar outro decidir por nós o nosso destino. Escolher conscientemente e ir votar traz mais retorno às nossas vidas do que comprar a camisa da seleção e depois chorar a eliminação.

Política sem vergonha
Graduado em jornalismo, quase 30 anos de experiência em comunicação corporativa, relações institucionais e defesa de causas, possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV e especialização em ESG – Gestão Responsável pela FIA / USP. Autor de dois livros e co-autor de outros quatro, é especialista em tra…
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