Entre os líderes, PT é o que mais menciona educação; Alckmin é o que menos aborda o assunto
Revista QB analisou qual é o envolvimento de cada candidato à presidência com os temas da Educação

Inspirada na reportagem de Simón Granja Matias, para o El Tiempo, da Colômbia, sobre as eleições em seu país, a Revista QB também decidiu analisar qual é o envolvimento de cada candidato à presidência do Brasil com os temas de educação por meio do seu plano de governo.
Você sabe o que é esse documento? Segundo a cientista política Monize Arquer, o plano de governo é onde os candidatos apresentam em detalhes todas as suas propostas para os próximos quatro anos, sendo que esse plano pode ser usado para que os eleitores cobrem promessas do eleito.
“Apesar de em sua maioria tratarem de temas semelhantes, o conteúdo do programa de governo e a forma como cada um deles é apresentado diz muito sobre o perfil do partido e suas prioridades” esclarece Monize.
Por isso, a partir do plano de governo dos presidenciáveis, é possível saber quais são as afinidades de cada candidato, assim como descobrir qual é a importância que cada um dá para determinado assunto, como, por exemplo, a educação.
Para fazer o levantamento desses dados, a Revista QB analisou e contabilizou a quantidade de palavras relacionadas à educação que apareceram em cada plano de governo. Os termos escolhidos foram: educação, Fies, Sisu, Prouni, Enem, BNCC, Educação Básica/Ensino Básico, Educação Infantil/Ensino Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio, Ensino Superior, Alfabetização, Analfabetismo e PEC 95. Confira o resultado:
Quais são os candidatos que mais mencionam o termo: educação e educação no geral?
Analisando os últimos dados divulgados pelo Ibope, a corrida presidencial é liderada pelos seguintes concorrentes: Jair Bolsonaro, Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin e Partido dos Trabalhadores (PT), que recentemente confirmou Fernando Haddad como candidato oficial, visto que a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva foi proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) conforme a Lei da Ficha Limpa.
Observação: A pesquisa foi elaborada antes da oficialização de Fernando Haddad como presidenciável. Por isso, apresentamos as propostas de sua candidatura em nome do Partido dos Trabalhadores (PT).
Nesse contexto, o plano de governo do PT é o que mais cita o termo educação, além de ser aquele que mais cita termos relacionados a este assunto. Para Mayara Rashid, graduanda de Ciências Políticas e integrante do Observatório das Eleições 2018, um projeto da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), essa versão do documento tenta conquistar o eleitorado via voto retrospectivo.
Ou seja, o partido utiliza seu histórico de mais de 12 anos de governo para mostrar tudo que foi feito nesse período, para ativar a memória do eleitor sobre esses mandatos e os benefícios provindos na educação de 2002 a 2014.
Ainda considerando os cinco favoritos, Geraldo Alckmin (PSDB) é o que menos fala sobre educação e qualquer termo relacionado. Entretanto, isso não acontece apenas em educação, visto que o seu plano de governo é enxuto.
“O programa de Alckmin é extremamente pequeno e não apresenta grandes propostas, apostando em frases de efeito. Isso pode demonstrar que o candidato, além de escolher não se comprometer com propostas palpáveis, prefere chamar a atenção de um recorte específico do eleitorado”, sugere Mayara.
A cientista política Monize Arquer ainda aponta que essa atitude pode ter relação com o tamanho de sua coligação, que envolve diversos partidos e, consequentemente, interesses.
Na livre concorrência, aquele que mais cita educação e termos referentes a essa temática é Guilherme Boulos (PSOL) e a que menos aborda esse tema é Vera Lúcia (PSTU).
Quais são os candidatos que mencionam o termo: BNCC?
Segundo o site oficial do Ministério da Educação (MEC), a BNCC é a Base Nacional Comum Curricular, um documento que foi homologado em 2017 e que define os parâmetros que guiam o que todos os alunos devem aprender em todas as etapas do Ensino Básico.
Sua aprovação foi feita em meio a algumas polêmicas como, por exemplo, a ausência da questão de gênero e o debate sobre o ensino de religiões.
Quais são os candidatos que mencionam o termo: Ensino Básico/Educação Básica?
A Educação Básica compreende as três etapas de ensino obrigatórias: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio.
Quais são os candidatos que mencionam o termo: Ensino Infantil/Educação Infantil?
“Apesar de Marina Silva ser a candidata que, comparativamente, mais menciona a questão da educação infantil, isso ainda aparece de forma pontual. Na verdade, ela dá atenção semelhante aos demais níveis“, explica Arquer.
Quais são os candidatos que mencionam o termo: Ensino Fundamental?
Ciro Gomes (PDT) é o que mais fala sobre Ensino Fundamental no plano de governo, porém, assim como a estratégia do PT, o candidato cearense se utiliza do recurso da memória para lembrar os bons resultados nesse nível de ensino enquanto governador do Ceará.
Segundo o último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), a cidade de Sobral, no Ceará, alcançou a primeira posição nos anos iniciais e finais do Ensino Médio. Além disso, entre as 100 melhores cidades, 19 estão localizadas nesse estado.
“Vale ressaltar também que o plano apresentado por Ciro Gomes é um dos únicos que apresenta metodologia clara em relação aos problemas e possíveis soluções, mostrando de forma direta como deve ser a atuação do governo diante dos desafios encontrados”, relembra a pesquisadora do Observatório das Eleições 2018.
Quais são os candidatos que mencionam o termo: Ensino Médio?
Essa é a última fase da Educação Básica brasileira e tem a duração de, no mínimo, três anos.
Quais são os candidatos que mencionam o termo: Ensino Superior?
Em entrevista ao canal Globo News no dia 28 de agosto, Jair Bolsonaro (PSL) disse que “há uma certa tara por parte da garotada em ter um diploma”, dando a entender que o conhecimento técnico adquirido no Ensino Médio, atualmente, é mais importante. E essa citação condiz com o seu plano de governo: não há nenhum tipo de termo relacionado ao Ensino Superior, incluindo os programas do governo, no documento apresentado por ele no TSE.
“O plano de governo do Bolsonaro apresenta preocupação principalmente com as formações básica e técnica. Sua proposta parece mais voltada a uma educação mínima para o mercado do que a uma formação profunda e de qualidade. Ou seja, seu discurso realmente reflete seu programa, com pouca relevância à formação superior e maior preocupação com geração de renda e valorização do mercado empreendedor”, explica Monize.
Mayara critica esse tipo de pensamento, já que a educação é importante não só na qualificação da mão de obra, mas também por criar cidadãos críticos à realidade em que vivem. “
Quais são os candidatos que mencionam os termos: Fies, Sisu e Prouni?
Fies, Sisu e Prouni são os programas oferecidos pelo governo para ingresso no Ensino Superior.
O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) dá a oportunidade de financiar os custos de um curso de graduação, para que, depois de formado, o estudante arque com o valor investido pelo governo.
O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) é o programa que faz o processo seletivo para instituições públicas de ensino por meio do resultado do Enem.
Já o Programa Universidade Para Todos (Prouni) facilita a entrada de jovens na faculdade por meio de bolsas de estudo, sendo que elas podem ser totais ou parciais.
Quais são os candidatos que mencionam o termo: Enem?
Segundo o Guia Completo do Quero Bolsa, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é “hoje o principal método de ingresso nas instituições públicas de nível superior”. Essa prova ocorre anualmente e testa o conhecimento de jovens e adultos sobre assuntos abordados no Ensino Básico.
Quais são os candidatos que mencionam os termos: alfabetização e analfabetismo?
Segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), a taxa de analfabetismo no Brasil caiu 7% em 2017, em relação ao ano anterior. Entretanto, apesar de o valor ter recuado, mais de 11,46 milhões de pessoas de 15 anos ou mais anos ainda não sabem ler ou escrever.
Mais alarmante que esse dado é o analfabetismo funcional, que acomete três a cada dez pessoas, de acordo com o Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf) 2018. O analfabeto funcional é aquele que, apesar de saber ler e escrever, possui muita dificuldade de compreender, interpretar e se expressar por meio de letras e números.
E, mesmo com os dados alarmantes, os termos alfabetização e analfabetismo, juntos, somam quatro citações em apenas dois planos de governo.
“É possível que entendam que essa questão esteja incluída no tema sobre educação, partindo do pressuposto que a ampliação e a melhoria na educação resolveriam este problema também. Claro que não é tão simples e é preciso definir medidas e traçar mecanismos que de fato sejam capazes de solucionar tal problema (e outros)”, analisa a cientista política.
Quais são os candidatos que mencionam o termo: PEC 95?
Promulgada em 2016, a Emenda Constitucional 95/2016 (PEC 95) limita por 20 anos os gastos públicos. Ou seja, congela os gastos do Governo Federal, seguindo a inflação, por todo esse período. Assim, os valores investidos com saúde, educação e cultura, por exemplo, serão os mesmos até 2036.
Apesar de controlar os gastos públicos, são poucos os benefícios que podem derivar dessa PEC.
“O que aconteceu na noite de domingo (02) com o Museu Nacional é um reflexo disso. O descaso com educação, ciência e tecnologia de um modo geral e a redução nas transferências para melhorias nesses setores afetam diariamente o cotidiano de toda população, assim como seu futuro. É muito difícil defender a necessidade de redução de gastos em setores tão fundamentais de um país (como educação e saúde), e se torna ainda mais difícil ao notarmos que há propostas de gastos absurdos em outras áreas como, por exemplo, na tentativa de aumento de salários dos ministros”, critica Monize.
Aqueles que citaram a PEC em seus planos de governo pretendem revogá-la caso cheguem à presidência do País.
O quão importante é educação em planos de governo?
Para as cientistas políticas, educação é um tema muito importante e deve ser tratado nos planos de governo. Entretanto, algo que ambas afirmam é a necessidade de os presidenciáveis mostrarem mecanismos e táticas para chegar às suas metas, algo que falta em quase todos os planos.
“Todo candidato adota o discurso de que pretende melhorar a educação, construir mais escolas, creches, etc. Porém, ao analisar os planos de governo é possível chegar à conclusão que falta profundidade e embasamento. Questões básicas, do tipo “como, onde e por que” não são exploradas”, reforça Mayara Rashid.
Para Monize, quão mais aprofundado forem esses documentos, maiores as chances de o eleitorado não ser enganado por propostas dúbias. “Quanto mais informação temos, mais conseguimos tomar um decisão acertada e ter segurança em nossas escolhas e ambições para o futuro”, finaliza.
Qual é a importância da educação em comparação com outros termos no plano de governo de cada candidato?
Além dos dados de comparação com os outros candidatos, a Revista QB também descobriu qual é a importância da educação no plano de governo de cada candidato.
Para isso, comparamos a quantidade de vezes que o termo “educação” foi citado em comparação com “saúde”, “emprego”, “cultura” (sendo que foram também consideradas suas variações) e “segurança” (e suas variações). Veja o resultado individual de cada presidenciável:
– Partido dos Trabalhadores (PT)
PT |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 20,55% | 60 |
| Emprego | 13,36% | 39 |
| Cultura/variações | 33,22% | 97 |
| Segurança | 10,62% | 31 |
| Educação | 22,26% | 65 |
| TOTAL | 100,00% | 292 |
– Ciro Gomes (PDT)
Ciro Gomes |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 23,32% | 45 |
| Emprego | 29,02% | 56 |
| Cultura/variações | 19,69% | 38 |
| Segurança | 11,40% | 22 |
| Educação | 16,58% | 32 |
| TOTAL | 100,00% | 193 |
– Cabo Daciolo (Patriota)
C. Daciolo |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 35,29% | 24 |
| Emprego | 2,94% | 2 |
| Cultura/variações | 0,00% | 0 |
| Segurança | 25,00% | 17 |
| Educação | 36,76% | 25 |
| TOTAL | 100,00% | 68 |
– Jair Bolsonaro (PSL)
J. Bolsonaro |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 25,71% | 18 |
| Emprego | 21,43% | 15 |
| Cultura/variações | 10,00% | 7 |
| Segurança | 14,29% | 10 |
| Educação | 28,57% | 20 |
| TOTAL | 100,00% | 70 |
– Guilherme Boulos (PSOL)
G. Boulos |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 20,24% | 119 |
| Emprego | 9,86% | 58 |
| Cultura/variações | 30,27% | 178 |
| Segurança | 17,18% | 101 |
| Educação | 22,45% | 132 |
| TOTAL | 100,00% | 588 |
– Geraldo Alckmin (PSDB)
G. Alckmin |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 21,05% | 4 |
| Emprego | 5,26% | 1 |
| Cultura/variações | 26,32% | 5 |
| Segurança | 15,79% | 3 |
| Educação | 31,58% | 6 |
| TOTAL | 100,00% | 19 |
– João Amoêdo (Novo)
J. Amoêdo |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 21,95% | 9 |
| Emprego | 14,63% | 6 |
| Cultura/variações | 2,44% | 1 |
| Segurança | 21,95% | 9 |
| Educação | 39,02% | 16 |
| TOTAL | 100,00% | 41 |
– Marina Silva (Rede)
M. Silva |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 22,75% | 38 |
| Emprego | 12,57% | 21 |
| Cultura/variações | 31,74% | 53 |
| Segurança | 13,77% | 23 |
| Educação | 19,16% | 32 |
| TOTAL | 100,00% | 167 |
– Henrique Meirelles (MDB)
H. Meirelles |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 29,55% | 13 |
| Emprego | 25,00% | 11 |
| Cultura/variações | 4,55% | 2 |
| Segurança | 22,73% | 10 |
| Educação | 18,18% | 8 |
| TOTAL | 100,00% | 44 |
– Vera Lúcia (PSTU)
V. Lucia |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 24,00% | 6 |
| Emprego | 48,00% | 12 |
| Cultura/variações | 0,00% | 0 |
| Segurança | 0,00% | 0 |
| Educação | 28,00% | 7 |
| TOTAL | 100,00% | 25 |
– Alvaro Dias (Podemos)
A. Dias |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 21,88% | 7 |
| Emprego | 21,88% | 7 |
| Cultura/variações | 15,63% | 5 |
| Segurança | 15,63% | 5 |
| Educação | 25,00% | 8 |
| TOTAL | 100,00% | 32 |
– José Maria Eyamel (PSDC)
J. M. Eymael |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 24,24% | 8 |
| Emprego | 6,06% | 2 |
| Cultura/variações | 21,21% | 7 |
| Segurança | 24,24% | 8 |
| Educação | 24,24% | 8 |
| TOTAL | 100,00% | 33 |
– João Goulart Filho (PPL)
J. G. Filho |
% |
Número de vezes que o termo é citado |
| Saúde | 30,99% | 22 |
| Emprego | 2,82% | 2 |
| Cultura/variações | 29,58% | 21 |
| Segurança | 14,08% | 10 |
| Educação | 22,54% | 16 |
| TOTAL | 100,00% |
71 |
Conteúdo da Revista Quero Bolsa
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