Fã de Michelangelo, criador da taça da Copa do Mundo não gostava de futebol
A origem da GDE Bertoni remonta ao ano de 1907. Foi na Corso Garibaldi, rua então conhecida por ser reduto de artesãos em Milão, na Lombardia. Ali, Emilio Bertoni começou fazendo pratos decorativos e outros trabalhos com metal. “Era um ateliê pequeno, totalmente artesanal”, contou a atual proprietária, Valentina Losa, bisneta do…

A origem da GDE Bertoni remonta ao ano de 1907. Foi na Corso Garibaldi, rua então conhecida por ser reduto de artesãos em Milão, na Lombardia. Ali, Emilio Bertoni começou fazendo pratos decorativos e outros trabalhos com metal. “Era um ateliê pequeno, totalmente artesanal”, contou a atual proprietária, Valentina Losa, bisneta do fundador.
A sede da empresa mudou de Milão para Novate Milanese nos anos 1940. No endereço atual, em Paderno Dugnano, funciona desde 1995.
O crescimento da Bertoni viria com o mundo esportivo. Em 1960, a empresa, então já comandada por Eugenio Losa, genro do fundador, fechou um contrato para fornecer as medalhas dos Jogos Olímpicos de Roma. Dez anos mais tarde, com a Copa do Mundo de 1970, a derrota da Itália para a seleção brasileira, quem diria, representaria uma vitória da empresa italiana.
Isso porque, de acordo com as regras da Fifa, o troféu Jules Rimet ficaria em definitivo com o país que primeiro vencesse três vezes o Mundial, feito este conquistado por Pelé, Tostão, Rivellino e companhia. Assim, a organização futebolística se viu obrigada a escolher outra taça. “Houve um concurso, do qual participaram 53 empresas. Meu pai, Giorgio Losa, levou pessoalmente até a sede da Fifa, na Suíça, o protótipo do troféu, em gesso”, narrou Valentina Losa.
O desenho, criado pelo ourives Silvio Gazzaniga, que era funcionário da empresa, desbancou os concorrentes. A partir de então, a GDE Bertoni se tornou referência no mundo esportivo.
Em entrevista publicada pelo jornal espanhol El País pouco antes de sua morte, Silvio Gazzaniga explicou que seu desenho buscou “representar plasticamente o esforço dos atletas, com harmonia, sobriedade e paz”. “Me inspirei em duas imagens: a esportiva e a do mundo”, contou ele, na época. “Michelangelo dizia que fazer o seu Davi foi fácil porque ele já o tinha visto no mármore e só precisou aparar as sobras. Eu, que certamente não sou tão talentoso como ele, segui o processo criativo”.
Curioso é que Silvio Gazzaniga, mesmo tendo sido o artista por trás da maior premiação do futebol mundial, não gostava do esporte, tampouco tinha time de predileção. O ourives também é autor do troféu da antiga Copa Uefa e dos Mundiais de vôlei e de beisebol, entre outros.
Giorgio Losa morreu em 2010, aos 60 anos. Valentina Losa, formada em publicidade e que até então trabalhava em uma empresa de comunicação, se viu na necessidade de assumir o negócio da família. Ela tinha 30 anos. “Não sabia nada. Tive a sorte de ter uma equipe de funcionários de extrema confiança. Nos primeiros três anos, aprendia uma coisa nova todos os dias”, disse.
Silvio Gazzaniga ainda atuava como diretor artístico da companhia. “Até 2011, ele ainda desenhava projetos, embora já trabalhasse em casa, por causa da idade avançada”, recordou-se Valentina Losa. Ele costumava dizer que, a cada vez que a taça retornava para as manutenções, era como ver um filho voltando para casa – e ele a recebia com um abraço. O artista morreu em 2016, aos 95 anos. Sua assinatura permanece no troféu que o consagrou.
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