Moscou tem um parque para as estátuas indesejadas da antiga União Soviética

Um parque amplo, calmo, inquietantemente silencioso, mesmo com muitos visitantes. De barulho, apenas o do vento arrastando as folhas pelo chão e chacoalhando as árvores. Aqui, as conversas são sempre com voz baixinha, mais na base do sussurro. É essa a atmosfera que o visitante encontra no Museu Parque das Artes de Moscou, local que concentra…

Escrito por: Conteúdo Estadão3 min de leitura
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Um parque amplo, calmo, inquietantemente silencioso, mesmo com muitos visitantes. De barulho, apenas o do vento arrastando as folhas pelo chão e chacoalhando as árvores. Aqui, as conversas são sempre com voz baixinha, mais na base do sussurro. É essa a atmosfera que o visitante encontra no Museu Parque das Artes de Moscou, local que concentra mais de mil esculturas da União Soviética, muitas dos líderes que comandaram o país nos últimos séculos – o local é conhecido também como o Parque dos Monumentos Caídos.

Antes de entrar de cabeça no mundo das esculturas, uma breve história do parque. Ele foi criado em 1992, um ano após a extinção da URSS. Entre suas obras estão representados ali intelectuais como o revolucionário socialista Karl Marx, líderes soviéticos, como Lenin e Stalin, vítimas do Partido Comunista e ainda heróis da Segunda Guerra Mundial, conhecida na Rússia como a Grande Guerra Patriótica.

“Filho, larga o celular um pouco e vem aqui ver isso, ó”, em bom português, ouviu a reportagem durante a visita ao local. Tratava-se de Eduardo Barão, comerciante de Campinas (SP), tentando convencer o filho Nicolas, de 13 anos, a prestar atenção na obra Vítimas do Regime Totalitarista, feita em granito e em metal nos anos 80 pelo artista Evgeny Chubarov. A obra retrata os mortos pelo comunismo no século passado e impressiona pela feição dos rostos humanos com cara de dor e sofrimento esculpidos nas pedras, que se amontoam atrás de uma espécie de prisão.

No local estão obras produzidas com vários materiais, de vários artistas. Além dos monumentos que representam a União Soviética, o período socialista e o comunismo no país, por lá pode-se observar trabalhos contemporâneos e de vanguarda. Há esculturas de Evgeny Vuchetich, Vladimir Lemport, Sergey Merkurov, Vera Mukhina, entre outros – Vera, inclusive, assina um dos monumentos mais visitados do local, chamado Exigimos Paz.

Mas, Parque dos Monumentos Caídos? Explica-se: boa parte das obras foi removida de seus pedestais, em todo país, e colocadas no chão depois do fim do regime socialista da URSS. Com o tempo, muitas foram alvo de vandalismo. Até a criação do parque e a restauração das obras.

CONTROVÉRSIA – O parque é controverso até entre os russos. Railya e seu namorado Igor discordam em relação ao simbolismo do local. “Para mim, isso não passa de lixo soviético. Os jardins são lindos, mas essas estátuas são feias demais”, disse a garota. O rapaz discorda. “Acho que são estátuas. Não julgo se são bonitas ou feias. Fazem parte da história da Rússia”.

Um dos monumentos mais controversos tem 98 metros de altura – o equivalente a um prédio de 20 andares. Trata-se de uma obra do artista Zurab Tsereteli, da Geórgia, que representa Pedro, O Grande. O problema é que, de acordo com historiadores, ela teria sido feita para a Espanha por ocasião da Exposição Universal de Sevilla, em 1992, cujo tema foi A Era Dos Descobrimentos. Então, a obra teria sido criada para ser uma representação de Cristóvão Colombo, descobridor da América. Mas ninguém em território espanhol quis ficar ela.

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