Livro de Nélida Piñon não é olhar para passado, mas olhar do passado

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Nasci no século 19, no norte de Portugal, e não sei o que significa ser parte desta nação”, começa Mateus, narrador de “Um Dia Chegarei a Sagres”. Há mais de 15 anos sem publicar um romance inédito, Nélida Piñon retorna com este épico de 500 páginas que apresenta os passos inseguros de um homem abalado pelo luto e…

Escrito por: FolhaPress4 min de leitura
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Nasci no século 19, no norte de Portugal, e não sei o que significa ser parte desta nação”, começa Mateus, narrador de “Um Dia Chegarei a Sagres”.

Há mais de 15 anos sem publicar um romance inédito, Nélida Piñon retorna com este épico de 500 páginas que apresenta os passos inseguros de um homem abalado pelo luto e pela falta de perspectivas. Os capítulos, bem conduzidos, vão e voltam no tempo, revelando lembranças e ponderações de Mateus.

Com a morte do querido avô Vicente, Mateus decide abandonar a remota aldeia natal e cruzar o país até chegar a Sagres, na região do Algarve, no sul. Ali viveu o infante dom Henrique, conhecido como o Navegador, cujo rastro ele planeja seguir.

Na devoção ao infante, o narrador é inspirado por Vasco da Gama – um carismático professor da aldeia que, embora idolatrasse as grandes figuras da história do país, “acusava Portugal de maltratar seu povo, de levá-lo quase a mendigar”. Também Mateus vê Portugal como “uma terra que outrora tivera grandeza e a perdeu”, de modo que “recaíra sobre os pobres o peso das desgraças”.

Ora o narrador deplora o colonialismo, ora se ufana das conquistas lusas. Já em Sagres, Mateus “via refletido na superfície das águas crispadas o próprio d. Henrique a escrutinar o horizonte como a acenar às naus portuguesas, portadoras de ouro e de vitórias”.

Mateus também é devoto de Camões. “Ao lado do Infante”, diz, “ele é a pátria portuguesa”.

Embora seja de origem humilde, a educação livresca é oferecida a ele sobretudo pelo alfarrabista Ambrósio, com quem vive ao chegar a Sagres. Nuno, o taberneiro que dá emprego a ele, proporciona outro tipo de instrução, mais mundana.

O romance ganha novo fôlego da metade para o final, quando o narrador enfim chega a Sagres. Além de Ambrósio e Nuno, entram em cena a idealizada Leocádia, uma jovem cadeirante vigiada de perto pela superprotetora tia Matilde, e Akin, chamado de “o Africano”, por quem Mateus sente uma atração inconfessada.

Não se trata de um olhar para o passado, mas de um olhar do passado. Ao próprio narrador, cuja voz nos chegaria do século 19, é atribuída uma espécie de anacronismo. “Descobri com o tempo que me faltou ao menos uma certa modernidade”, diz Mateus. “Desde o nascimento”, completa, “fui um homem antigo, integrado a séculos ultrapassados”.

No fundo, o que Mateus persegue é a ilusão da glória do passado – que para ele é mais coletiva do que pessoal. Sonha em ser acolhido no forte de Sagres pelo próprio infante, que o conduziria “aos primórdios da sua saga”, ao “magno enredo português”.

Num narrador combalido, portanto, o ufanismo anda lado a lado com a consciência dos vários tipos de exploração e opressão. Mateus sabe que a motivação de seu périplo a Sagres – condensada num monarca que morreu em 1460 e em tudo o que ele representa – é uma quimera, mero disfarce para outras necessidades a que raramente dá nome.

No final, já velho, Mateus se mostra mais disposto a enxergar as fundações sobre as quais se assentou a decantada glória portuguesa. É então que o ufanismo arrefece, quando se dá conta de que o infante “incluíra escravos negros entre suas propriedades, trafegara com este comércio vil, havendo sido quase o primeiro a fazê-lo em Portugal”.

Por isso o narrador nunca chega de fato a Sagres. Se em certo sentido a Sagres de Mateus pertence ao passado, em outro ela nunca existiu. Na falta da grandeza épica tal como elaborada pelos poetas, sobretudo por Camões, resta a Mateus buscar, e talvez encontrar, algo parecido com o amor.

UM DIA CHEGAREI A SAGRES

Preço: R$ 62,90 (512 págs.)

Autor: Nélida Piñon

Editora Record

Avaliação: muito bom

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