Maracanã vazio breca validação idealizada pela Conmebol para final única
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Em outubro de 2019, às vésperas da primeira final em jogo único da história da Copa Libertadores, a Conmebol anunciou o Maracanã como casa da decisão de 2020, uma homenagem ao estádio que completaria 70 anos. Após o sucesso da realização do evento em Lima, especialmente se considerada a edição anterior, que foi…

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Em outubro de 2019, às vésperas da primeira final em jogo único da história da Copa Libertadores, a Conmebol anunciou o Maracanã como casa da decisão de 2020, uma homenagem ao estádio que completaria 70 anos.
Após o sucesso da realização do evento em Lima, especialmente se considerada a edição anterior, que foi levada a Madri por um episódio de violência, a escolha do simbólico palco carioca seria a validação do novo formato proposto pela entidade.
Mas aquela perspectiva de ter o Rio de Janeiro como o local que sediaria uma grande festa do futebol já não existe mais. Ou, pelo menos, não tão otimista e idealizada pelos dirigentes sul-americanos como era há pouco mais de um ano.
Haverá festa, sim, neste sábado (30), mas os jogadores de Palmeiras ou Santos levantarão a taça de campeão da América para um estádio que só não estará totalmente vazio porque alguns privilegiados presenciarão, in loco, a primeira final paulista na Libertadores.
O governo do Rio chegou a publicar um decreto para que a decisão continental pudesse receber um público de até 10% da capacidade do Maracanã –cerca de 7.800 espectadores. A medida previa apenas a entrada de pessoas credenciadas, sem venda de ingresso para torcidas. A Conmebol optou por fazer uso de um contingente menor, mantendo o propósito de não comercializar entradas.
Aproximadamente 5.000 pessoas estarão no estádio para a decisão. Desse total, 3.500 estão divididas entre convidados e funcionários da entidade e dos dois clubes finalistas. O resto corresponde a efetivo policial, bombeiros e demais setores que trabalharão na organização e segurança.
Ainda que por razões óbvias, uma vez que a pandemia não permite a alternativa sonhada por todos, o número reduzido de espectadores remete, de certa forma, à própria história do estádio e sua metamorfose nas últimas décadas. Não apenas física.
“Esse Maracanã que vai sediar a final da Libertadores é definitivamente um outro estádio. O velho Maracanã, aquele inaugurado para a Copa do Mundo em 1950, foi construído sob a perspectiva da inclusão do torcedor. Foi concebido para que a cidade inteira estivesse dentro do estádio”, diz o historiador Luiz Antonio Simas, que publicará em breve o livro “Maracanã: uma biografia”, pela Mórula Editorial.
Há uma distância entre aquele estádio com mais de 200 mil torcedores no jogo final da Copa do Mundo de 1950, contra o Uruguai, e o Maracanã repaginado para os grandes eventos do passado recente, como o Mundial de 2014 e a Olimpíada de 2016. Mudou o perfil de quem o frequenta (ou pode frequentar).
Seria assim também com a final da Libertadores, caso a Conmebol -e todo o futebol mundial– reunisse condições de receber grandes públicos. A decisão de Lima, entre Flamengo e River Plate, teve ingressos que ultrapassavam os R$ 1.000. O mais barato, atrás dos gols, custava cerca de R$ 320.
Havia a dúvida sobre a possibilidade de flamenguistas e argentinos conseguirem se deslocar até Lima para assistir à partida. O que compreendia um esforço financeiro para além do ingresso. A Europa, que consagrou com a Champions League o modelo de decisão em partida única, tem mais facilidade de trânsito do que a América do Sul.
A resposta positiva dos torcedores, entretanto, foi ilustrada no número de voos e nas diversas caravanas de ônibus que cruzaram tanto o Brasil como a Argentina rumo à capital peruana.
Para a Conmebol, foi o carimbo do sucesso na empreitada. Mesmo com o jogo em um campo neutro e distante dos países envolvidos, com todas as dificuldades que isso implica no continente, torcedores apaixonados de Flamengo e River compareceram, lotaram o Estádio Monumental de Lima e construíram um ambiente de final de campeonato.
Simas, crítico do que chama de “arenização dos estádios”, lembra que, em 1963, Santos e Milan decidiram o Mundial de Clubes no Maracanã. Envolvia um time do país, mas também era mais acessível a quem simplesmente quisesse ir.
“Conheço gente que foi [na final do Mundial], gente que resolveu ir em cima da hora, que comprou ingresso barato da geral. O torcedor comum foi ao Santos e Milan. O geraldino, o arquibaldo, eles estavam lá. Hoje, para ver a final da Libertadores, o sujeito tem de começar a juntar dinheiro antes para comprar o ingresso”, afirma.
“A Conmebol apostou num estádio que tem essa carga simbólica que o Maracanã tem. Ainda que o estádio seja um outro estádio. Mas a pandemia inviabilizou esse processo. Não tenho dúvidas que seria muito diferente daquele Santos e Milan. O futebol hoje é pensado pela dinâmica do produto televisivo. Ter o torcedor no estádio deixou de ser fundamental, é uma lógica muito mais interessada no consumidor”, completa o historiador.
Pensado como palco grandioso para a celebração de um novo campeão sul-americano, o estádio septuagenário contará neste sábado uma história importante, mas esvaziada de cor e sons reais, como os gritos que ressoam pelas arquibancadas quando estão lotadas.
Para o técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, que disputa a sua primeira final de Libertadores, será um orgulho comandar a equipe no palco carioca neste sábado, ainda que não haja torcedores.
“Temos que ter cuidado, porque essa batalha [contra a pandemia] ainda não está ganha. E aí sim estamos a falar de vida ou de morte. Eu adoro futebol, é minha paixão, mas adoro viver. Abraçar, ter contato, sentir, e isso é algo que custa não poder fazer. Abraço meus jogadores e minha esposa diz que não é um bom exemplo, mas é difícil, porque estamos vivendo essas emoções”, disse o português.
O esvaziamento do estádio é apenas uma das consequências de uma pandemia que, só no Brasil, já vitimou mais de 220 mil pessoas. Um Maracanazo de mortes, a alguns passos de onde funcionou, por aproximadamente dois meses, um hospital de campanha.
A placa que indicava a entrada do hospital, desmontado em outubro, ainda está no portão 11 A do Complexo do Maracanã, onde funcionava a estrutura hospitalar.
Em frente a esse portão, o flamenguista Paulo Gabriel, 20, tomava uma água de coco durante uma pausa em sua pedalada na manhã desta sexta-feira (29), véspera da final. Com a camisa do rubro-negro carioca, ele não esconde a decepção com o fato de que o Flamengo, atual campeão, não conseguiu disputar o tricampeonato –caiu nas oitavas de final, para o Racing (ARG).
“É triste ver dois paulistas na final aqui no Maracanã, mas fazer o quê? Dava para ganhar de novo, o Flamengo deu mole, teve muita troca de treinador”, diz Gabriel. Apesar de decepcionado com o Flamengo, ele tem time para torcer na decisão.
“O Santos, né. Não gosto do Palmeiras não. Os caras foram muito marrentos. Em 2016, quando ganharam o Brasileiro, tiraram marra de cheirinho. Amanhã eu sou Santos desde pequeno.”
Na tarde desta sexta, o ambiente nos arredores do Maracanã não correspondia ao clima que geralmente antecede uma final continental. Apenas alguns pedestres cercavam o estádio, fazendo suas caminhadas e corridas. Os vendedores, acostumados à falta de movimento no local em dias de jogos, dizem que não houve muito impacto no negócio em razão da pandemia, justamente pela presença dos pedestres durante a semana.
Um carioca não muito antenado em futebol pode ter pensado que esta sexta foi mais um dia comum na vida do Rio de Janeiro. Mas a metros de onde faz seus exercícios, a Copa Libertadores vai decidir, daqui a algumas horas, um novo campeão.
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