De graça, só queijo na ratoeira

Tudo tem um custo e, normalmente, um custo alto

Escrito por: André Lorenzetti4 min de leitura
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Li esse ditado outro dia: “de graça, só queijo na ratoeira”, que, além de divertido, é inteiramente verdadeiro. 

O SUS oferece tratamento de graça, Bolsa Família é dinheiro de graça, tem cidade na qual o transporte público é de graça e por aí vai… Tudo mentira. Nenhum serviço oferecido pelos governos é de graça ou sem custo.

Tudo tem um custo e, normalmente, um custo alto. Na maioria dos casos, o custo dos serviços prestados pelos diferentes governos brasileiros é mais alto do que os oferecidos pela iniciativa privada e com uma qualidade bem diferente.

Alguém paga essa conta. E esse alguém sempre somos nós, os contribuintes, que pagamos cerca de 40% de tudo o que recebemos em impostos, porque o governo não cria dinheiro magicamente.

Nenhum governo no mundo deveria ter a obrigação de gerar riqueza. Isso realmente é papel da iniciativa privada. Mas tem que ter responsabilidade para gastar bem, de forma eficiente, entregando serviços de qualidade à população, sem pesar financeiramente para ninguém.

E com transparência, sem tentar iludir as pessoas, deixando claro quanto custa cada serviço e de onde sai esse dinheiro.

Quer mais?

Pois tem mais. Tudo que é benefício ou vantagem que envolva dinheiro tem um custo para alguém.

Vou pegar um exemplo: as leis de incentivo fiscal, como a Lei Rouanet, Lei de Incentivo ao Esporte e outras leis federais, estaduais ou municipais que permitem a empresas ou pessoas físicas destinarem parte do imposto devido a iniciativas culturais, esportivas ou sociais. 

Não entro no mérito se estão certas ou erradas, mas é ingenuidade achar que esse dinheiro pago pelas empresas não faz falta para a manutenção dos serviços públicos. Uma vez que esse imposto deixa de ser arrecadado, outro dinheiro terá que ser destinado para os serviços mantidos pelo valor que deixou de entrar nos cofres públicos.

Não tem mágica. Quando pensamos que não é dinheiro público, estamos iguais ratinhos olhando para o queijo na ratoeira.

E as obras? Postos de saúde maiores do que o necessário, pontes que levam do nada ao lugar nenhum, reforma em escola que nem chega a funcionar. De onde sai esse dinheiro?

Não preciso responder novamente, não é? Sempre do nosso bolso. Quando vemos uma obra pública deveríamos nos perguntar se faz sentido ela existir naquela proporção, quais benefícios vai trazer para a qualidade de vida da população ou prosperidade do país. Se a conta não fechar, é o nosso dinheiro desperdiçado.

A época de campanha eleitoral costuma ser rica em promessas que envolvem dinheiro público. Prometem fazer grandes obras, aumentar os benefícios sociais, criar programas milagrosos.

Eu nem ia falar…

… mas não me segurei. Tem ainda os gastos absurdos com publicidade. Sabia que os governos pagam praticamente o dobro do valor pelos espaços publicitários em rádio, TV, sites e jornais? Isso porque pagam a chamada “tabela cheia”, enquanto todas as empresas têm desconto.

Para mim não faz o menor sentido tanto gasto em publicidade oficial. Esse recurso deveria ser para manter a população informada sobre mudanças ou fazer campanhas de conscientização e engajamento – vacinações, prevenção de acidentes, segurança pública etc. Jamais para enaltecer as ações do próprio governo, afinal, se fez bem feito, não fez mais do que a obrigação.

Mas é cultural.

De tanto ouvirmos a mentira de que é de graça, nos acostumamos e passamos a acreditar. Porque isso interessa a alguns políticos e ao poder público.

Quando parece que eles estão nos dando algo, ficamos gratos e os elegemos novamente.

Ao mesmo tempo, ao pensarmos que é de graça, deixamos de cobrar as autoridades por melhores serviços de saúde, segurança, educação, limpeza urbana e infraestrutura. Somos mal-tratados, explorados e nos calamos.

O rato que puxou o queijo entendeu a história. E nós?

André Lorenzetti
André Lorenzetti

Política sem vergonha

Graduado em jornalismo, quase 30 anos de experiência em comunicação corporativa, relações institucionais e defesa de causas, possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV e especialização em ESG – Gestão Responsável pela FIA / USP. Autor de dois livros e co-autor de outros quatro, é especialista em tra…

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