Prisioneiro de Azkaban: Alfonso Cuarón e a reinvenção visual que a franquia Harry Potter precisava
O prisioneiro de azkaban é consistentemente citado como o filme mais aclamado pela crítica na franquia Harry Potter

O prisioneiro de azkaban é consistentemente citado como o filme mais aclamado pela crítica na franquia Harry Potter, e a razão para isso está na direção de Alfonso Cuarón, que chegou ao terceiro filme com um conjunto de ideias sobre como o universo de J.K. Rowling devia ser traduzido para o cinema que eram fundamentalmente diferentes das que Chris Columbus havia aplicado nos dois primeiros. Onde Columbus havia optado pela fidelidade literal e pelo brilho dourado, Cuarón escolheu uma estética mais orgânica, mais sombria e mais interessada no mundo dos personagens do que nos efeitos especiais que o tornavam mágico.
Alfonso Cuarón e as escolhas que transformaram Hogwarts
Cuarón fez uma série de mudanças no visual de Hogwarts e de seus habitantes que sinalizam imediatamente que este filme seria diferente dos anteriores. Os alunos passaram a usar roupas civis sobre as túnicas, tornando-se adolescentes reconhecíveis em vez de figuras em fantasias medievais; a escola passou a ter espaços ao ar livre e corredores escuros que nunca haviam aparecido nos filmes anteriores; e a câmera passou a se mover com uma liberdade que os filmes de Columbus raramente permitiam. Essas escolhas aparentemente cosméticas criaram um universo que parecia habitar o mesmo mundo físico que o espectador, em vez de existir numa versão estilizada dele.
A decisão de Cuarón de escurecer literalmente a paleta de cores do filme foi uma declaração sobre onde a saga estava indo narrativamente, com o terceiro livro de Rowling sendo genuinamente o ponto em que a franquia aceitou que as histórias de Harry Potter tratavam de morte, perda e traição tanto quanto de magia e aventura.
A escalação de Gary Oldman para o papel de Sirius Black foi uma das decisões de casting mais bem recebidas de toda a franquia, com um ator de alcance dramático imenso interpretando um personagem que a narrativa precisava manter ambíguo durante boa parte do filme antes de revelar sua verdadeira natureza. Oldman construiu Sirius com uma energia desgastada pelo sofrimento que tornava a ameaça inicial do personagem convincente e a revelação posterior emocionalmente carregada, porque o espectador precisa acreditar tanto na ameaça quanto na redenção.
Os Dementadores e o horror que a série abraçou
Os Dementadores de Azkaban são as criações visuais mais perturbadoras dos filmes de Harry Potter, e a decisão de como representá-los no cinema foi um dos desafios criativos mais importantes do projeto. A equipe de efeitos visuais de Cuarón criou figuras que se movem em câmera lenta, que parecem sugar a luz ao redor delas e que trazem o frio e o desespero como manifestação física de sua presença. Esse horror visual, que é incomum para um filme inicialmente classificado para públicos jovens, confirmou que a franquia havia crescido junto com o público que havia lido os livros.
Michael Gambon e a transição de Dumbledore
O Prisioneiro de Azkaban foi o primeiro filme com Michael Gambon como Alvo Dumbledore, substituindo Richard Harris, que havia morrido em 2002. Gambon tomou a decisão deliberada de não assistir aos dois filmes anteriores nem de imitar a interpretação de Harris, construindo um Dumbledore com mais energia física, mais imprevisibilidade e uma intensidade que os filmes posteriores exigiriam do personagem.
A mudança dividiu os fãs, com parte do público preferindo a suavidade paternal de Harris e outra parte reconhecendo que a versão de Gambon era mais compatível com o Dumbledore que os livros posteriores revelariam ser, um homem com um passado complicado e capacidade de manipulação considerável.
O Vira-Tempo introduzido no terceiro filme criou um problema de continuidade que os fãs debatem até hoje, já que a existência de um dispositivo capaz de reverter o tempo levanta a questão de por que ele não é usado nos livros seguintes para evitar tragédias. J.K. Rowling eventualmente destruiu todos os Vira-Tempos existentes num evento do quinto livro, resolvendo o problema narrativo que o terceiro havia criado.
Independente da inconsistência, a sequência de retrocesso temporal do filme é executada com um rigor lógico impressionante, com cada ação da segunda passagem encaixando perfeitamente nos espaços que a primeira havia deixado sem explicação.
A recepção crítica e o lugar na franquia
Prisioneiro de Azkaban é o único filme da saga com aprovação acima de noventa por cento no Rotten Tomatoes, e é regularmente escolhido por críticos como o melhor da franquia. Paradoxalmente, foi também o de menor bilheteria entre os oito filmes, arrecadando 796 milhões de dólares contra os quase um bilhão do primeiro.
Essa discrepância entre aclamação crítica e desempenho comercial é frequentemente citada como evidência de que Cuarón havia feito algo mais ambicioso do que o público de família esperava de um filme de Harry Potter em 2004.
O terceiro ato do Prisioneiro de Azkaban usa o retrocesso temporal como dispositivo narrativo de uma forma que poucos filmes de fantasia haviam tentado com essa limpeza estrutural, revisitando cenas já mostradas de um ângulo diferente que revela o que o espectador havia perdido na primeira passagem. Essa estrutura de dupla revelação, em que a audiência entende simultaneamente o que aconteceu e quem eram os agentes reais de cada evento, é o tipo de satisfação narrativa que faz os espectadores mais atentos quererem rever o filme imediatamente depois do final.
A decisão de escurecer literalmente a paleta de cores do filme foi uma declaração sobre onde a saga estava indo, com o terceiro livro sendo o ponto em que a franquia aceitou que as histórias tratavam de morte, perda e traição tanto quanto de magia. Essa escolha estética aparentemente simples reorganizou completamente a percepção do público sobre o que um filme de Harry Potter podia ser.
Cuarón nunca retornou à franquia, tendo declarado que uma única incursão no universo era suficiente para o que ele queria explorar.
Posts Relacionados

Fundação Cultural de São José disponibiliza guia online com programação de setembro

Mário Toledo lança segundo livro como coautor em São Paulo na semana de abertura da Bienal do Livro

Carmo Dalla Vecchia e Vanessa Gerbelli falam sobre a peça “Forever Young” no Meon Entrevista
