Diretor conta o que precisou inventar para ser fiel a ‘O Pequeno Príncipe’
Fazia muito calor, uma daquelas tardes em que o sol da Riviera Francesa – e ainda era primavera – escaldava como se imagina que ocorra no deserto. Vestido de preto, o diretor Mark Osborne recebia grupos de jornalistas no terraço de um hotel de luxo da Croisette para falar de sua adaptação de O Pequeno Príncipe. O repórter, como se diz, suava em…

Fazia muito calor, uma daquelas tardes em que o sol da Riviera Francesa – e ainda era primavera – escaldava como se imagina que ocorra no deserto. Vestido de preto, o diretor Mark Osborne recebia grupos de jornalistas no terraço de um hotel de luxo da Croisette para falar de sua adaptação de O Pequeno Príncipe. O repórter, como se diz, suava em bicas. Osborne era um modelo de elegância, como se participasse de um comercial de desodorante. E estava radiante de falar do ‘seu’ petit Prince.
Como deverá estar nesta quinta, 16, em São Paulo, precedendo a exibição do filme, nesta sexta, 17, no Anima Mundi. O Pequeno Príncipe do escritor Antoine de Saint-Exupéry surgiu num livro logo cultuado, em 1943, um ano antes do desaparecimento do autor, que também era piloto, num voo sobre a Córsega. Na verdade, o Pequeno Príncipe começara a nascer quando Saint-Exupéry sofreu um acidente e seu avião fez um pouso de emergência no Saara. Foi em pleno deserto que ele vislumbrou o livro famoso, mas o escreveu nos EUA. O piloto encontra, no meio do nada, o garoto. É loiro, veste-se bizarramente e conta que é o único habitante de um asteroide distante.
O livro não é só, como se diz, poesia em prosa. É acompanhado de ilustrações – aquarelas do próprio Saint-Exupéry. O primeiro desenho, todo leitor do livro sabe, reproduz o que parece um chapéu, mas não. É o desenho de uma jiboia que engoliu um elefante. Saint-Exupéry queria preparar o leitor, infantil ou adulto, para ingressar num universo não realista. “Eu conhecia o livro muito bem, e minha primeira reação, quando os produtores me propuseram a adaptação, foi dizer não”, contou Osborne ao repórter, em Cannes. “Achava que não se poderia fazer uma adaptação fiel. Mas, depois, conversei comigo mesmo e com pessoas que me são próximas. Todos concordamos que o material era muito bom e seria tolice desperdiçar a chance.”
Mark Osborne é de New Jersey. Por que um norte-americano, se o livro é de um francês (de Lyon)? “É universal”, ele diz. Osborne já colhera na DreamWorks o megassucesso Kung Fu Panda. E, dessa vez, a dupla ousadia é que a proposta não era só de adaptar um livro cultuado, mas também fazê-lo de forma independente, longe do guarda-chuva protetor de um grande estúdio. “Tivemos de desenvolver a nossa estrutura. Foi como construir os trilhos com o trem já andando, e isso foi assustador. Fiquei um bom tempo com aquele friozinho na barriga, me perguntando se ia dar certo e depois me convencendo de que, sim, ia dar certo. A vantagem de se construir uma estrutura é que você inventa. No livro, o próprio Saint-Exupéry nos convida a imaginar.”
Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry foi um escritor, ilustrador e piloto francês, terceiro filho do conde Jean de Saint-Exupéry e da condessa Marie Foscolombe. Apaixonado por mecânica desde criança, resolveu ser piloto. Entrou para a Societé Latecoère, que se tornou conhecida como Aéropostale. Fez a linha Toulouse/Casablanca/Dacar, voando sobre o deserto na equipe de pilotos lendários como Mermoz e Guillaumet. Suas experiências inspiraram livros como Correio do Sul e Terra dos Homens. E, aí, veio o Pequeno Príncipe. No Brasil, houve uma época em que virou moda escarnecer de Saint-Exupéry e de seu personagem. É que no livro ele encontra a Raposa, a Serpente. Aprende coisas – que o essencial é invisível para os olhos e “Você é responsável por aquilo que cativa”. São pensamentos profundos, mas, banalizados, viraram o livro de cabeceira das misses nos anos 1950.
Nos 70, o cinema já tentara uma primeira adaptação, em formato de musical, mas embora o diretor fosse o ótimo Stanley Donen, não funcionou. As canções não ajudavam, havia só um grande número – com Bob Fosse como Serpente. Na entrevista em Cannes, Osborne admitiu que o desafio foi transformar as delicadas ilustrações do livro em figuras tridimensionais. “Uma ideia começou a germinar na minha cabeça – a de que, para ser fiel ao original, eu deveria me distanciar um pouco dele.” E surgiu essa história de uma garota que troca de vizinhança, como a de Divertida Mente, e descobre esse vizinho, um velho piloto que tem um avião enferrujado. Ele lhe conta como encontrou o pequeno príncipe no deserto. Volta a voar com a menina. E ela, que acha que o Pequeno Príncipe ficou na Terra e cresceu, parte à procura dele.
A sacada de Osborne foi perceber quanto a história de Saint-Exupéry é íntima e frágil. Para dar-lhe sustentação, ele a inscreveu numa história maior, que desenvolveu segundo duas técnicas diferentes. “A parte da menina fizemos utilizando computação gráfica de última geração. Para a do príncipe, usamos a stop motion, em que pequenas figuras de papel são filmadas e animadas quadro a quadro. Dessa forma, conseguimos reproduzir o visual peculiar das ilustrações do livro.” No total, 250 pessoas trabalharam na animação. “Formamos realmente uma família. Foi muito bom termos criado a nossa estrutura”, diz o diretor. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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