Revoluções Musicais do Século XX: As vanguardas eruditas
Enquanto o jazz conquistava a América, com seu apelo lúdico e libertário, a Europa vivia uma das fases mais tumultuadas de sua história. Inúmeros desastres sociais, como guerras e revoluções, mostraram como era cínico e enganoso continuar fazendo música fundamentada nas convenções do passado. Surgia, assim, o resgate de formas musicais esquecidas – buscando, mais do que nada, caminhos desconhecidos, formas novas e modernas de se fazer música.

Enquanto o jazz conquistava a América, com seu apelo lúdico e libertário, a Europa vivia uma das fases mais tumultuadas de sua história. Inúmeros desastres sociais, como guerras e revoluções, mostraram como era cínico e enganoso continuar fazendo música fundamentada nas convenções do passado. Surgia, assim, o resgate de formas musicais esquecidas – buscando, mais do que nada, caminhos desconhecidos, formas novas e modernas de se fazer música.
O uso de várias tonalidades (politonalismo) ou de nenhuma tonalidade (anatonalismo), bem como o uso de escalas harmônicas aleatórias, estava, enfim, mais próximo da verdade e da urgência de uma época de questionamentos e reviravoltas sociais. As vanguardas eruditas do século XX marcaram o primeiro colapso da cultura ocidental – em sua lógica objetiva e seu determinismo científico – inaugurando formas inteiramente arrojadas de composição.
Quando o russo Igor Stravinsky estreou sua obra Sagração da Primavera, em 1913, instaurou-se um verdadeiro escândalo na Europa. Stravinski trazia um verdadeiro caleidoscópio de estilos para a música contemporânea, soluções completamente ousadas para uma tradição que se repetia desde Beethoven. O ritmo trazia mudanças constantes no andamento. Melodias medievais, cantos populares e jazz americano misturavam-se com harmonias despedaçadas, carregadas de dissonância.
Nos anos 1920, com o fim da Primeira Guerra Mundial, os vanguardistas se espalhavam pelo mundo. Nos Estados Unidos, Charles Ives fazia uso de intervalos microtonais (menores que meio-tom) e também de ruídos e interferências, tocados com as palmas das mãos, ou mesmo com o antebraço sobre as teclas do piano. No Brasil, Heitor Villa-Lobos buscava no folclore o estímulo para a produção de sua obra, na tentativa de resgatar uma linguagem nacional mais autêntica.
As reviravoltas feitas por Wagner e Debussy contra o sistema tonal, no século XIX, foram retomadas pelo alemão Arnold Schoenberg para consolidar a revolução do “dodecafonismo” – um sistema para compor livremente na escala dos Doze Sons (sete tons e cinco semitons), dando a cada tom o mesmo papel dentro da obra. Com o dodecafonismo, Schoenberg levou a música para a atonalidade (desordem harmônica), numa construção tão livre quanto caótica.
Em 1948, o francês Pierre Schaeffer idealizaria a Música Concreta Europeia, fundamentada na investigação de “sons concretos”, como o barulho de aviões, o tilintar de cacos de vidro, o canto das aves, etc. Esses “sons concretos”, seriam captados por gravadores, em seguida recortados e remontados em aparelhos eletrônicos. Desta experiência surge, na década de 50, a Música Eletrônica, através de um grupo liderado por Hebert Eimert, da escola de Darmstadt, na Alemanha. A Música Eletrônica também traz sequências musicais coladas e remontadas eletronicamente, mas com o uso de ruídos e sons eletrônicos (não mais com sons orgânicos ou concretos).
Da escola de Darmstadt também nasce a Música Aleatória, levada ao extremo pelo americano John Cage, que propõe a mistura aleatória de gravações coletadas das ruas e do rádio. Em Imaginary Landscape, Cage distribui os dados da composição em “cartelas” separadas – para serem recombinadas, posteriormente, de acordo com cada intérprete da obra. O alemão Karlheinz Stockhausen também prepara sequências aleatórias. Em Musik Fur Eine Haus, o público caminha através dos cômodos de uma casa, onde se cria, em cada um deles, uma música diferente.
Todos esses gêneros vanguardistas constituíram um fenômeno muito além de controvertido na história da música. Norteados pela reconstrução de uma cultura moderna decadente, seus mensageiros buscaram a total liberdade para chocar ou entreter o público. A raiva, a aflição, o estarrecimento tomavam conta de uma civilização mergulhada em crises e tragédias. A música de vanguarda nos projeta, com nitidez, os conflitos que marcaram um dos períodos mais intensos de nossa história.
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