Turismo religioso movimenta R$ 15 bilhões e abre oportunidades para cidades do interior
Ex-secretário de Turismo de São Paulo, Roberto de Lucena destaca potencial de festas, santuários e roteiros de fé para movimentar comércio, serviços e a economia regional

A fé também movimenta a economia. No Brasil, o turismo religioso representa um mercado estimado em R$ 15 bilhões por ano e envolve cerca de 17,7 milhões de viajantes, segundo dados do Ministério do Turismo citados pela Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo.
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Os números mostram que peregrinações, festas religiosas, santuários e manifestações de fé não representam apenas momentos de devoção. Eles também formam uma cadeia econômica que movimenta hotéis, restaurantes, comércio, transporte, artesanato, serviços e uma série de pequenos negócios.
O impacto é ainda mais significativo para cidades do interior, onde a tradição religiosa muitas vezes está diretamente ligada à história e à identidade da população. Igrejas centenárias, festas de padroeiros, procissões, romarias e santuários podem se transformar em atrativos turísticos capazes de gerar renda, empregos e novas oportunidades de negócios.
Para Roberto de Lucena, ex-secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo e candidato a deputado federal, o caminho está em transformar as vocações já existentes nos municípios em produtos turísticos estruturados.

A ideia é fazer com que uma manifestação religiosa deixe de ser apenas um evento pontual e passe a integrar uma estratégia permanente de desenvolvimento. O visitante que chega para uma celebração pode ser estimulado a permanecer mais tempo, conhecer outros atrativos, consumir no comércio local e utilizar os serviços da cidade.
Nesse modelo, a fé se transforma em uma porta de entrada para experiências que ultrapassam a dimensão religiosa e fortalecem a economia regional.
Aparecida: a força de um destino nacional
Aparecida é o maior exemplo desse potencial no Estado de São Paulo. O Santuário Nacional recebeu mais de 10 milhões de visitantes em 2025, consolidando a cidade como um dos principais destinos de turismo religioso do Brasil.
O fluxo de peregrinos e turistas movimenta uma extensa cadeia econômica. Hotéis, pousadas, restaurantes, lojas, empresas de transporte, comércio de artigos religiosos, artesãos e prestadores de serviços são diretamente beneficiados pela presença dos visitantes.
O impacto também ultrapassa os limites do próprio santuário. A movimentação turística contribui para colocar a região no roteiro de quem visita o Vale do Paraíba, criando oportunidades para outros municípios que podem oferecer atrativos históricos, culturais, gastronômicos e naturais.
A experiência de Aparecida demonstra como a religiosidade, quando associada a planejamento, infraestrutura, divulgação e profissionalização do turismo, pode se transformar em um importante vetor de desenvolvimento.
Mais do que receber peregrinos, o desafio é criar uma experiência capaz de fazer com que essas pessoas permaneçam, consumam e conheçam a região.
Laranjal Paulista: tradição que pode virar oportunidade
Se Aparecida representa a força de um destino consolidado, Laranjal Paulista mostra que cidades menores também podem encontrar no turismo religioso uma oportunidade de desenvolvimento.
O município preserva manifestações como a Festa de São João Batista e vem discutindo formas de transformar essas tradições em parte de uma estratégia permanente de turismo. Um dos movimentos nesse sentido foi a realização do 1º Fórum de Turismo Religioso, que reuniu discussões sobre o potencial das manifestações de fé para a economia local.
A lógica é aproveitar algo que já existe e faz parte da identidade da população.
Em vez de o visitante chegar apenas para participar de uma missa, procissão ou festa e retornar para casa, a proposta é criar condições para que ele permaneça mais tempo na cidade.
Esse visitante pode conhecer uma igreja histórica, visitar um ponto turístico, almoçar em um restaurante, comprar produtos locais, adquirir artesanato e utilizar serviços. Cada uma dessas atividades amplia o impacto econômico da visita.
É justamente nessa cadeia que está uma das principais oportunidades para os pequenos municípios.
Da celebração ao desenvolvimento
O turismo religioso não precisa estar restrito aos grandes santuários. Municípios pequenos e médios podem desenvolver roteiros próprios a partir de suas histórias e tradições.
Uma festa de padroeiro, por exemplo, pode ser integrada a um roteiro que inclua patrimônio histórico, gastronomia, cultura e natureza. Uma igreja pode ser o ponto de partida para uma experiência turística mais ampla. Uma romaria pode conectar diferentes cidades e criar um circuito regional.
Para isso, porém, é necessário planejamento.
Infraestrutura, sinalização turística, hospedagem, alimentação, transporte, segurança, capacitação profissional e divulgação são elementos fundamentais para transformar o potencial em resultado econômico.
A atuação integrada entre poder público, iniciativa privada, entidades religiosas e comunidade também é importante. Quando diferentes setores trabalham juntos, a atividade turística deixa de depender exclusivamente de um evento e passa a fazer parte de uma estratégia de desenvolvimento.
São Paulo amplia os roteiros de fé
O Estado de São Paulo também vem ampliando a oferta de roteiros relacionados a diferentes tradições religiosas.
Durante sua passagem pela Secretaria de Turismo e Viagens, Roberto de Lucena participou de iniciativas voltadas à segmentação do turismo de fé, contemplando tradições católicas, evangélicas, judaicas, halal e religiões de matrizes africanas e indígenas.
Outra iniciativa foi a ampliação do Guia Turístico Católico, que passou a reunir novos atrativos religiosos espalhados pelo território paulista.
A proposta ajuda a revelar destinos que muitas vezes permanecem desconhecidos do grande público e que podem integrar roteiros regionais.
Uma economia que começa com a fé
Os números ajudam a dimensionar o tamanho desse mercado. São cerca de R$ 15 bilhões movimentados anualmente pelo turismo religioso no Brasil e aproximadamente 17,7 milhões de viajantes associados ao segmento.
Em Aparecida, mais de 10 milhões de visitantes em apenas um ano mostram a dimensão que um destino religioso pode alcançar.
Mas o futuro do segmento também passa por cidades menores. Municípios como Laranjal Paulista mostram que não é necessário possuir um dos maiores santuários do país para participar dessa cadeia.
É possível começar com a própria história.
Ao transformar tradição em roteiro, celebração em experiência e patrimônio em destino, cidades do interior podem criar novas fontes de renda e fortalecer negócios locais.
Aparecida mostra o que acontece quando essa vocação alcança escala nacional. Laranjal Paulista representa o caminho que outros municípios podem percorrer.
Em comum, os dois casos revelam uma mesma possibilidade: a fé pode ser um importante patrimônio cultural, mas, quando acompanhada de planejamento e profissionalização, também pode se transformar em força econômica e desenvolvimento regional.
Números do turismo religioso
R$ 15 bilhões — movimentação anual estimada do turismo religioso no Brasil.
17,7 milhões — número estimado de viajantes associados ao segmento.
Mais de 10 milhões — visitantes recebidos pelo Santuário Nacional de Aparecida em 2025.
Mais de 300 atrativos — quantidade reunida na primeira edição do Guia Turístico Católico paulista, posteriormente ampliada.
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