Negociações de paz no Afeganistão começam com pedidos de cessar-fogo
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Representantes do governo afegão e rebeldes do Taleban se reuniram neste sábado (12) em Doha, no Catar, para diálogos de paz históricos. O objetivo é encerrar uma guerra de duas décadas que matou dezenas de milhares de combatentes e civis. Antes das negociações nos próximos dias, os lados foram instados por vários…

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Representantes do governo afegão e rebeldes do Taleban se reuniram neste sábado (12) em Doha, no Catar, para diálogos de paz históricos. O objetivo é encerrar uma guerra de duas décadas que matou dezenas de milhares de combatentes e civis.
Antes das negociações nos próximos dias, os lados foram instados por vários países a chegarem a um cessar-fogo imediato e a costurarem um acordo que defenda os direitos das mulheres.
Dadas as profundas diferenças entre as partes, as conversas devem ser difíceis, e não é possível projetar o tempo de duração das negociações.
A cerimônia de abertura aconteceu no mesmo hotel de luxo onde um acordo entre Washington e os talibãs foi assinado em fevereiro, abrindo caminho para os atuais diálogos. O pacto prevê a retirada total de tropas americanas do país em 14 meses.
As conversas se iniciam um dia após o 19º aniversário dos ataques de 11 de Setembro, evento que desencadeou a participação dos EUA na guerra.
Dois grandes desafios das conversas são como incluir o Taleban –que rejeitou a legitimidade do governo afegão apoiado pelo Ocidente– em qualquer arranjo de governo, e como salvaguardar os direitos das mulheres e das minorias, que sofreram sob o domínio dos rebeldes. Há quatro mulheres negociadoras na delegação afegã..
Os talibãs reiteraram o desejo de instaurar um sistema no qual a lei seja consistente com um islã rigoroso e não reconheça o governo de Cabul, que chamam de “fantoche” de Washington.
O governo do presidente afegão, Ashraf Ghani, insiste em manter a jovem república e sua Constituição, que inclui muitos direitos, em particular para as minorias religiosas e as mulheres, as grandes perdedoras de um eventual retorno das práticas que vigoravam na época do governo talibã.
Muitos afegãos temem o retorno ao poder, parcial ou total, dos talibãs, que abrigaram a rede terrorista Al-Qaeda antes do 11 de Setembro de 2001.
Na cerimônia de aberutra, o Secretário de Estado americano, Mike Pompeo, pediu para os dois lados aproveitarem a oportunidade para chegar a um acordo de paz abrangente, embora reconheça os muitos desafios pela frente.
“A escolha de seu sistema político é sua”, disse. “Acreditamos firmemente que proteger os direitos de todos os afegãos é a melhor maneira de quebrar o ciclo de violência.”
Pompeo advertiu ainda que o tamanho e o escopo da futura assistência financeira dos EUA ao país –que depende fortemente de financiamento internacional– dependerá de suas “escolhas e conduta”.
O enviado especial dos EUA, Zalmay Khalilzad, disse que prevenir o terrorismo é a principal condição do auxílio, mas que proteger as minorias e os direitos das mulheres também influenciaria quaisquer decisões futuras sobre o financiamento alocado pelo Congresso. “Não há cheque em branco.”
Mesmo que as duas partes não cheguem a um acordo em todos os pontos, elas devem se comprometer em algum grau, afirmou o negociador do governo afegão, Abdullah Abdullah. Para ele, é preciso acabar com a violência e conseguir um cessar fogo “o mais rápido possível”.
Segundo o líder talibã, Mullah Baradar Akhund, o Afeganistão deveria “ter um sistema islâmico no qual todas as tribos e etnias do país se encontrem sem qualquer discriminação e vivam suas vidas no amor e na fraternidade”.
Autoridades, diplomatas e analistas afirmam que colocar os dois lados na mesa de negociações é uma grande conquista, mas isso não significa que o caminho para a paz está dado, especialmente com o aumento da violência em todo o país.
A guerra mais longa da qual os EUA já participaram começou cerca de um mês após os ataques de 11 de Setembro, quando o então presidente americano, George W. Bush, enviou forças dos EUA ao Afeganistão para caçar o mentor dos atentados, Osama bin Laden, um saudita que recebeu abrigo dos governantes islâmicos talibãs do país.
As negociações que se iniciaram neste sábado foram adiadas por seis meses devido a profundas divergências sobre uma polêmica troca de prisioneiros entre os rebeldes talibãs e o governo, resolvida esta semana.
O presidente americano, Donald Trump, que disputará a reeleição em novembro, está determinado a acabar com a guerra e fazer disso moeda eleitoral.
A guerra afegã provocou dezenas de milhares de mortes, incluindo 2.400 soldados americanos, obrigou a fuga de milhões de pessoas e custou a Washington mais de um trilhão de dólares. Os talibãs estão em uma posição de força desde a assinatura do acordo com os EUA.
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