Os desejos que já não são nossos

Uma reflexão sobre maturidade, pertencimento e a transformação dos valores ao longo da vida

Escrito por: Dr. Wilfredo Flinck3 min de leitura
Imagem produzida por IA
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Uma das experiências mais profundas da maturidade humana é perceber que fomos sinceramente movidos por coisas que já não nos movem mais.

Passamos a enxergar a vida por outros prismas. Nossos valores se transformam, nossas percepções amadurecem e aquilo que antes parecia indispensável, muitas vezes, torna-se secundário ou até desnecessário.

Ao recordar o quanto desejei certas conquistas, o quanto lutei por elas, as defendi e as apresentei como importantes, percebo o quanto eu estava condicionado pelos valores daquele tempo.

Hoje percebo que muitos dos meus desejos estavam ligados a conquistas materiais e à expectativa de felicidade que elas prometiam. Havia, também, fortes mecanismos de influência social e cultural atuando sobre mim. Parte do que eu buscava não era apenas o objeto desejado, mas a sensação de pertencimento a um sistema de valores que, naquele momento, parecia legítimo e universal.

Por vezes, me parece que a frustração é um dos motores da conquista. Tenho a impressão de que parte da frustração contemporânea nasce de uma cultura que constantemente nos persuade sobre a importância de possuir, alcançar e destacar-se. Uma cultura que, muitas vezes, alimenta sentimentos de insuficiência e a necessidade permanente de validação.

Com a maturidade, a diminuição de certos desejos e o olhar mais pragmático sobre as necessidades da vida fazem surgir uma dúvida: estou me tornando mais sensato ou apenas menos disposto a perseguir aquilo que já não reconheço como essencial?

O mundo se transforma em velocidade crescente, e a falta de interesse em me inserir em novos modos de existir gera um conflito interno. Não sei, por vezes, se esse desinteresse nasce de uma melancolia silenciosa ou da simples percepção de que nem toda mudança merece o esforço que exige.

Também me pergunto se pensar demais tem um preço. Refletir, observar, contemplar, perceber nuances e depurar detalhes pode trazer grande satisfação intelectual, mas também conduz a desapontamentos e tristezas. Quanto mais profundamente enxergamos, mais percebemos as contradições da vida, dos outros e de nós mesmos.

Talvez por isso o aprofundamento das reflexões possa nos tornar mais solitários. Não necessariamente porque nos afastemos das pessoas, mas porque passamos a habitar perguntas que nem sempre encontram companhia.

Hoje sinto que desejo menos, não por desistência, mas por contentamento. Não porque tenha perdido a capacidade de sonhar, mas porque aprendi a valorizar melhor aquilo que realmente importa.

Percebo que já não busco a felicidade nas coisas. Procuro senti-la naquilo que me cerca. E isso exige menos observação e mais contemplação; menos posse e mais presença.

Talvez a maturidade não seja a perda dos desejos, mas a libertação daqueles que nunca foram verdadeiramente nossos.

Dr. Wilfredo Flinck
Dr. Wilfredo Flinck

Psiquiatria

Wilfredo Finck Jr. é médico e apreciador da natureza. Na escrita e na pintura encontra formas de refletir sobre a vida, os sentimentos, a passagem do tempo e os caminhos que compõem a experiência humana.

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