Prisioneiro de Azkaban: Alfonso Cuarón e a reinvenção visual que a franquia Harry Potter precisava

O prisioneiro de azkaban é consistentemente citado como o filme mais aclamado pela crítica na franquia Harry Potter

Escrito por: Meon Redação5 min de leitura
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O prisioneiro de azkaban é consistentemente citado como o filme mais aclamado pela crítica na franquia Harry Potter, e a razão para isso está na direção de Alfonso Cuarón, que chegou ao terceiro filme com um conjunto de ideias sobre como o universo de J.K. Rowling devia ser traduzido para o cinema que eram fundamentalmente diferentes das que Chris Columbus havia aplicado nos dois primeiros. Onde Columbus havia optado pela fidelidade literal e pelo brilho dourado, Cuarón escolheu uma estética mais orgânica, mais sombria e mais interessada no mundo dos personagens do que nos efeitos especiais que o tornavam mágico.

Alfonso Cuarón e as escolhas que transformaram Hogwarts

Cuarón fez uma série de mudanças no visual de Hogwarts e de seus habitantes que sinalizam imediatamente que este filme seria diferente dos anteriores. Os alunos passaram a usar roupas civis sobre as túnicas, tornando-se adolescentes reconhecíveis em vez de figuras em fantasias medievais; a escola passou a ter espaços ao ar livre e corredores escuros que nunca haviam aparecido nos filmes anteriores; e a câmera passou a se mover com uma liberdade que os filmes de Columbus raramente permitiam. Essas escolhas aparentemente cosméticas criaram um universo que parecia habitar o mesmo mundo físico que o espectador, em vez de existir numa versão estilizada dele.

A decisão de Cuarón de escurecer literalmente a paleta de cores do filme foi uma declaração sobre onde a saga estava indo narrativamente, com o terceiro livro de Rowling sendo genuinamente o ponto em que a franquia aceitou que as histórias de Harry Potter tratavam de morte, perda e traição tanto quanto de magia e aventura.

A escalação de Gary Oldman para o papel de Sirius Black foi uma das decisões de casting mais bem recebidas de toda a franquia, com um ator de alcance dramático imenso interpretando um personagem que a narrativa precisava manter ambíguo durante boa parte do filme antes de revelar sua verdadeira natureza. Oldman construiu Sirius com uma energia desgastada pelo sofrimento que tornava a ameaça inicial do personagem convincente e a revelação posterior emocionalmente carregada, porque o espectador precisa acreditar tanto na ameaça quanto na redenção.

Os Dementadores e o horror que a série abraçou

Os Dementadores de Azkaban são as criações visuais mais perturbadoras dos filmes de Harry Potter, e a decisão de como representá-los no cinema foi um dos desafios criativos mais importantes do projeto. A equipe de efeitos visuais de Cuarón criou figuras que se movem em câmera lenta, que parecem sugar a luz ao redor delas e que trazem o frio e o desespero como manifestação física de sua presença. Esse horror visual, que é incomum para um filme inicialmente classificado para públicos jovens, confirmou que a franquia havia crescido junto com o público que havia lido os livros.

Michael Gambon e a transição de Dumbledore

O Prisioneiro de Azkaban foi o primeiro filme com Michael Gambon como Alvo Dumbledore, substituindo Richard Harris, que havia morrido em 2002. Gambon tomou a decisão deliberada de não assistir aos dois filmes anteriores nem de imitar a interpretação de Harris, construindo um Dumbledore com mais energia física, mais imprevisibilidade e uma intensidade que os filmes posteriores exigiriam do personagem.

A mudança dividiu os fãs, com parte do público preferindo a suavidade paternal de Harris e outra parte reconhecendo que a versão de Gambon era mais compatível com o Dumbledore que os livros posteriores revelariam ser, um homem com um passado complicado e capacidade de manipulação considerável.

O Vira-Tempo introduzido no terceiro filme criou um problema de continuidade que os fãs debatem até hoje, já que a existência de um dispositivo capaz de reverter o tempo levanta a questão de por que ele não é usado nos livros seguintes para evitar tragédias. J.K. Rowling eventualmente destruiu todos os Vira-Tempos existentes num evento do quinto livro, resolvendo o problema narrativo que o terceiro havia criado.

Independente da inconsistência, a sequência de retrocesso temporal do filme é executada com um rigor lógico impressionante, com cada ação da segunda passagem encaixando perfeitamente nos espaços que a primeira havia deixado sem explicação.

A recepção crítica e o lugar na franquia

Prisioneiro de Azkaban é o único filme da saga com aprovação acima de noventa por cento no Rotten Tomatoes, e é regularmente escolhido por críticos como o melhor da franquia. Paradoxalmente, foi também o de menor bilheteria entre os oito filmes, arrecadando 796 milhões de dólares contra os quase um bilhão do primeiro.

Essa discrepância entre aclamação crítica e desempenho comercial é frequentemente citada como evidência de que Cuarón havia feito algo mais ambicioso do que o público de família esperava de um filme de Harry Potter em 2004.

O terceiro ato do Prisioneiro de Azkaban usa o retrocesso temporal como dispositivo narrativo de uma forma que poucos filmes de fantasia haviam tentado com essa limpeza estrutural, revisitando cenas já mostradas de um ângulo diferente que revela o que o espectador havia perdido na primeira passagem. Essa estrutura de dupla revelação, em que a audiência entende simultaneamente o que aconteceu e quem eram os agentes reais de cada evento, é o tipo de satisfação narrativa que faz os espectadores mais atentos quererem rever o filme imediatamente depois do final.

A decisão de escurecer literalmente a paleta de cores do filme foi uma declaração sobre onde a saga estava indo, com o terceiro livro sendo o ponto em que a franquia aceitou que as histórias tratavam de morte, perda e traição tanto quanto de magia. Essa escolha estética aparentemente simples reorganizou completamente a percepção do público sobre o que um filme de Harry Potter podia ser.

Cuarón nunca retornou à franquia, tendo declarado que uma única incursão no universo era suficiente para o que ele queria explorar.

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