Jovens relatam como tem sido quarentena com ensino a distância e longe dos amigos
“Minha ansiedade tem aumentado e não tenho ânimo para estudar”, conta uma das estudantes; psicóloga comenta

O Brasil já ocupa o segundo lugar entre os países com mais casos confirmados de coronavírus do mundo. O cenário de isolamento social em combate à doença tem afetado muitas pessoas, e em especial os jovens, que precisaram se adaptar as mudanças provocadas pela quarentena e criar novas rotinas.
A reportagem do Portal Meon reuniu depoimentos de sete jovens, que tem entre 13 e 21 anos, em que contam como têm enfrentado o momento.
Ensino Médio e Fundamental
Mel de Oliveira Araújo tem 15 anos e está no primeiro ano do Ensino Médio. Mel diz que sentiu medo de perder contato com os amigos e medo de ver a proporção que o vírus tomaria quando a quarentena foi decretada.
Com o tempo, a jovem percebeu que poderia continuar vendo e conversando com os amigos e familiares por meio de video chamadas, na internet.
“Eu criei uma rotina. Tenho meu horário de estudo, horário de lazer. Também tenho o horário de me atualizar das notícias, que é quando eu vejo as decisões que tem sido tomadas no mundo e no Brasil”.
Victória Estebanez Castilho está no segundo ano do Ensino Médio e tem 16 anos.
“A gente tem essa impressão de que agora a gente tem umonte de tempo pra fazer umonte de coisa, mas com a escola continuando, tendo prova, ensino a distancia.. o estresse ainda é o mesmo”.
A adolescente desabafa que a quantidade de estudos é a mesma, se não maior, e que agora não consegue sair para descontrair e se distrair com os amigos.
Ela brinca “Até já comentei com meu pai que [quando a quarentena acabar] eu não vou parar em casa”.
Loreta Rodrigues tem 17 anos e está cursando o terceiro ano.
“Como todo mundo sabe, o terceiro ano demanda muito tempo e muita dedicação da gente, então eu passava a maioria da parte do tempo na escola, e só ia ver minha família de noite”, conta, reiterando que tem tido mais tempo para passar o tempo com a família.
Segundo a jovem, o período tem proporcionado momentos de incertezas, duvidas e insegurança. Para lidar com isso, ela tem buscado momentos de lazer e distração.
“Como a gente vê muitas coisas ruins em jornais e internet, eu tento ocupar minha cabeça lendo, vendo série e coisas que distraem pra gente tirar um pouco o foco. Se não a gente surta”.
Por fim, Rodrigo Roda Oliveto, de 13 anos, dá um recado para os professores
“Apesar das lives do Zoom não serem iguais as aulas presenciais, estão ajudando muito o nosso aprendizado. Ver eles [os professores] fazendo tudo isso pela gente, me inspira e faz eu querer me esforçar cada dia mais”.
Universidade
Thabata Sena, tem 19 anos, e tinha acabado de se mudar para São Paulo para iniciar sua graduação em artes cênicas. Após duas semanas de aula, foi decretado o inicio da quarentena.
Ela conta que estava muito animada com o início da faculdade e quando disseram que ficariam um mês sem aula, logo imaginou que usaria esse tempo para estudar.
“Tentei estabelecer uma rotina porém hoje a situação tá bem diferente. Minha ansiedade tem aumentado e não tenho animo para estudar”, diz.
A menina acredita que a falta de contato físico e ausência de ver pessoas e lugares diferentes tem afetado muito sua produtividade, inclusive para outras atividades como exercício fisico e aula de canto.
“Na minha turma, de 30 pessoas, 3 ou 4 tem tido disposição para continuar criando. A grande maioria parece que estão todos cansados, sem necessariamente fazer alguma coisa. Parece que a gente acorda cansado e vai dormir mais cansado ainda”, alega.
Rogério Barbato, estudante de jornalismo, afirma que esse período de ensino a distancia não tem sido muito fácil. “Muita gente tem tido dificuldade para acessar ou digerir o conteúdo”.
Por outro lado, o jovem de 21 anos acredita que o isolamento mostrou que os alunos podem realizar muitas atividades do computador, sem precisar ir até a faculdade.
“De uma forma geral, eu acho que os estudantes vão aprender muito com essa situação. Muito aprendizado no sentido de versatilidade nas decisões e na forma de comunicar”, conclui.
Sofia França Haddad, tem 20 anos, e está cursando direito. Para ela, a rotina de ensino a distancia está sendo muito desafiadora. Ela conta que se sente insegura e desgastada, precisando estudar duas vezes ao que estava acostumada para absorver o mínimo do conteúdo.
“E também a questão da ansiedade. No meu caso, ela triplicou”.
Sofia conta que também aproveitou o momento para investir mais em si mesma e conhecer suas limitações.
“Apesar de me trazer muitos pontos negativos, essa quarentena, eu me sinto muito mais privilegiada, por ter saude, ter uma casa, por ter comida todos os dias, e por estar investindo ainda no meu futuro e ter oportunidades”.
Estresse, medo e ansiedade
A psicóloga Fabiana Luckemeyer afirma que no início da quarentena houve euforia, incerteza e medo, por parte dos jovens.
Segundo ela, os adolescentes estão acostumados a só viver o presente, e como o momento ainda não tem perspectiva e fere a liberdade deles, isso pode causar muita ansiedade.
“Os adolescentes e jovens, de modo geral, gostam de viver em bandos, estar inseridos em grupos. Então eles estão sentindo muita falta de estar com as pessoas”.
O estresse, medo e ansiedade estão relacionados a insegurança e ao desconhecido, quando você não sabe o que pode acontecer.
Por conta desse sentimento, alguns jovens tem desrespeitado a quarentena, comenta. Fabiana recomenda que nesses casos, os pais tentem explicar a situação, mostrar dados e fatos, para convencer os filhos, de que no momento, a melhor opção é evitar grupos e aglomerações.
Por outro lado, muitas famílias tem ressignificados seus padrões de comportamento, valores e o que tinham como verdade. “O ressignificado está sendo muito positivo. Eles estão sentindo muita falta da escola e universidades, por exemplo. Voce aprende a dar valor quando você não tem. Acho que é um ressignificado importante nessa fase”, conclui.
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