Sonho de liberdade: pai cria colete para filho andar em São Sebastião
Comovido pela possibilidade de ver o filho Lucca, de 7 anos, andar com a ajuda de um colete amarrado ao corpo, o casal Eliezer Roque Alves, 33 anos, e Gilmara Alves Maciel, 37 anos, resolveu desenvolver um acessório que possibilitasse ao menino, que tem paralisia cerebral, dar os primeiros passos com segurança, em São Sebastião.


Lucca se prepara para caminhar com o
pai e a irmã em frente à casa da família
Jorge Mesquita/Imprensa Livre
Comovido pela possibilidade de ver o filho Lucca, de 7 anos, andar com a ajuda de um colete amarrado ao corpo, o casal Eliezer Roque Alves, 33 anos, e Gilmara Alves Maciel, 37 anos, resolveu desenvolver um acessório que possibilitasse ao menino, que tem paralisia cerebral, dar os primeiros passos com segurança, em São Sebastião.
O modelo que serviu de exemplo para Eliezer chama-se UpSee, uma espécie de macacão que é acoplado na roupa dos pais, da empresa Firefly Friends, que foi desenvolvido por uma mãe israelense para o filho com paralisia cerebral.
Eliezer, depois de ver uma reportagem na televisão sobre o UpSee, mergulhou de cabeça na empreitada e criou um colete para a criança vestir e um cinto para o adulto prender à cintura, além de dois pares de sandálias ligadas paralelamente, uma para o adulto e a outra para a criança.
“Queríamos vê-lo de pé, mas não daquela maneira estática. Quando assisti a reportagem sobre o produto na televisão fiquei encantado com o equipamento. Não tenho como comprar, não tenho como trazer do Reino Unido, então vamos fazer um. Meu sonho é vê-lo andando sozinho”.
Depois de colete, cinto de encaixes prontos, altura ajustada, chegou a vez das sandálias. A de Lucca teve a sola reforçada e foi parafusada a do pai. O primeiro teste foi feito há cerca de duas semanas e o equipamento agora passa por adequações, sob a orientação da fisioterapeuta Roberta Benghini, que ficou surpresa com a iniciativa.
“A feição dele (Lucca) muda quando está usando o equipamento e ver essa felicidade no rosto de uma criança, de um filho, realmente não tem preço e emociona”, conta Roberta.
Supervisão
Mas a fisioterapeuta faz um alerta. “Vários pais querem fazer igual, mas é importante destacar que o processo, bem como o uso da ferramenta, devem ser supervisionados por um profissional da área da saúde, tais como médico, fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional a fim de verificar se o uso dele está sendo feito da maneira certa e se é adequado às necessidades da criança para não provocar lesões. Ou seja, há que se encontrar a biomecânica perfeita dos movimentos”, reforça.
O uso do equipamento já tem provocado avanços positivos na vida do pequeno Lucca. Segundo a mãe, Gilmara, o menino está mais tranquilo, inclusive o sono. “Ele está mais calmo, gasta energia e dorme melhor. O funcionamento do intestino dele também melhorou bastante”.
Outro aspecto citado pela mãe foi a união da família em torno da iniciativa. “Deus restaurou minha família, vejo o agir de Deus na nossa casa e fico feliz de vê-los (pai e filho) desta forma”.
Ganhos
O vínculo afetivo é apenas um dos benefícios proporcionado a Lucca com o equipamento feito pelo pai. “O equipamento permite que ele tenha uma visão diferente da que tinha, inclusive de si mesmo, sem contar a importância de manter cabeça, tronco e pernas da maneira adequada, o que previne complicações respiratórias, o surgimento de escaras e traz benefícios para a parte muscular, motora, articulatória e óssea da criança”, diz a fisioterapeuta.
Segundo Roberta, a deficiência de Lucca interfere na interação dele com o ambiente. “Com o equipamento, tanto ele quanto a família, têm a possibilidade de ampliar esses horizontes, o que contribui também para o relacionamento social da criança com as demais”.
“Ganhei uma vontade de viver com os meus filhos. Não tenho interesse de ganhar dinheiro com isso, mas ajudar outras famílias a fazer igual”, reforça Eliezer, que comenta sua nova fase com o filho. “Estamos muito mais ligados um com o outro, tomo até cuidado para não enciumar minha outra filha, a Sofia, irmã gêmea dele”.
Por falar em ciúmes, Gilmara também quer contribuir para o desenvolvimento global de Lucca. “Quero um equipamento adequado ao meu tamanho para poder andar com ele também”. O pedido já foi atendido e Eliezer trabalha em uma versão da ferramenta cujo suporte para o adulto seja de ombro e não na cintura.
“Eles conseguiram ir além e isso faz toda a diferença na vida do Lucca, a sensação da liberdade, que é nova e que ele está aprendendo a interpretá-la a seu modo”, completa a fisioterapeuta Roberta.
Paciente do Centro de Reabilitação de São Sebastião, Lucca frequenta escola regular e realiza sessões de hidroterapia, equoterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.

Lucca com seus pais, Eliezer e Gilmara, e a irmã Sofia em casa, em São Sebastião
Jorge Mesquita/Imprensa Livre
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