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A importância da equidade entre gêneros em “Eu Não Sou Um Homem Fácil”

Camuflado no gênero comédia-romântica, o filme pauta a causa feminista de forma inédita

MIRELLA BORIM

Escrito por Mirella Borim Lima

26 MAI 2021 - 12H15

Foto: Reprodução/Netflix Não sou um homem fácil netflix (Foto: Reprodução/Netflix)

O filme "Eu Não Sou Um Homem Fácil" ("Je ne suis pas un homme facile") é uma obra francesa lançada mundialmente em 2018, e conta com a direção e roteiro de Éléonore Pourriat. A longa-metragem de 1h38min desenvolve uma ideia original e interessante a respeito do papel de homens e mulheres na sociedade moderna, a fim de impactar sua audiência e fazer com que esta reflita sobre a realidade. A produção francesa, disponível na plataforma de streaming Netflix, apresenta inicialmente uma suposta trama bem-humorada e romântica com um protagonista masculino ordinário e conforme a todos os padrões convencionais, porém, ainda nos minutos iniciais, revela seu enredo muito mais complexo e inusitado, pautando a causa feminista de forma extraordinária.

O personagem principal Damien, muito bem interpretado pelo ator francês Vincent Elbaz, é retratado ao público como um homem branco, privilegiado, e, mesmo que implicitamente, machista, o qual reproduz ações sexistas que são normalizadas pela sociedade. O protagonista da história, a princípio, parece ser comum e sua conduta é semelhante à de vários homens da realidade. Por isso, cenas e diálogos que objetificam e, até mesmo, menosprezam as mulheres estão presentes no desenvolvimento inicial do filme e muitas vezes passam despercebidos pelo público. Damien tem um caráter desapegado e enxerga a mulher como objeto de satisfação sexual, agindo com autoconfiança e sem pudores, sem nunca ser alvo de julgamentos.

Entretanto, um contratempo é inserido na narrativa e o progresso da história sofre uma mudança drástica. Devido ao acidente, Damien perde a consciência e quando acorda se encontra em um mundo dominado pelo sexo feminino. E são as mulheres que ocupam os cargos políticos, religiosos e sociais mais prestigiados. Logo, o personagem encara o universo paralelo com estranheza e zombaria, negando-se a aceitar que nesse cenário os homens são vítimas de assédio, pressão estética, "generocídio" e muitos outros males que perseguiram, e ainda perseguem, as mulheres na história da humanidade.

Sendo assim, obrigado a se adaptar ao novo mundo, Damien encontra muitas dificuldades que contrastam os antigos privilégios que tinha simplesmente por ser homem. Imediatamente, o choque de realidade é extremo, e o personagem masculino fica indignado por toda a pressão social que faz homens se depilarem, usarem roupas que sexualizem seu corpo, serem facilmente objetificados e assediados, sofrerem preconceito no mercado de trabalho e terem sua opinião desconsiderada. A fim de esclarecer a reflexão proposta, o filme se apega aos mínimos detalhes presentes em nosso cotidiano e apresenta-os de forma contrária em um contexto femista, logo, enxergar a presença do machismo no real cotidiano da humanidade é inevitável.

Por conseguinte, diversos aspectos sociais são diferentes nesse mundo paralelo. As convenções linguísticas que adotam termos majoritariamente masculinos (em uma falha representação da neutralidade de gênero das palavras) são expressadas comumente no gênero feminino. Nomes de ruas e santos, por exemplo, são nomes e substantivos femininos. As religiões focam sua fé e devoção a mulheres, como na crença cristã, na qual Maria é a principal figura do cristianismo e é considerada mais importante que o próprio Deus. O estudo anatômico acredita que a mulher engravida e passa pela gestação por ser o sexo mais forte e resistente. Os cargos políticos são ocupados expressivamente por mulheres, e os homens, por sua vez, realizam a maior parte do trabalho doméstico e da criação dos filhos. Entre várias outras características, também é óbvio que a sexualização e objetificação masculina através das indústrias de cosméticos, estética, entretenimento e pornografia é extremamente comum, assim como é atualmente com as mulheres.

Em outras palavras, a exposição crítica feita pelo filme é indiscutível e apresenta um raciocínio reflexivo acerca de nossas ações mais triviais que contribuem no fortalecimento de uma consciência social machista e, portanto, desrespeitosa e nada representativa. Pessoalmente, um diálogo inteligentíssimo em especial conceitualiza todo o propósito da trama: "E não existe um meio-termo? Um mundo em que homens e mulheres se apoiam?" questiona a psicóloga de Damien, após ele se queixar que havia se tornado a vítima da situação contextual, quando, antes, era um abusador. A conversa entre as personagens é essencial para a compreensão do enredo em seu princípio, que é desconstruir a convencionalidade e questionar o comportamento da sociedade.

"Eu Não Sou Um Homem Fácil" causa um questionamento desde a interpretação do seu próprio título, que brinca com uma expressão hostil, popularmente vinculada ao gênero feminino, insinuante de que mulheres são facilmente coagidas. A produção e os cenários são ótimos por si só, mas, felizmente, acompanham uma história muito envolvente e inédita, que, sem perder o bom-humor, debate a importância da mulher e a necessidade de harmonia e respeito entre os gêneros. Dessa forma, ao representar uma sociedade matriarcal, sua proposta conclui que tanto um mundo machista quanto um femista não são adequados para o desempenho pleno da vivência humana, e este será alcançado somente quando a humanidade garantir oportunidades igualitárias para todos, independentemente de gênero, etnia, identidade e orientação sexual, classe social ou qualquer outro critério segregacionista.

Sem dúvidas, o filme propõe que cada um de seus espectadores repense suas atitudes e sua função como ser humano atuante na coletividade, almejando mobilizar o pensamento comum e acabar com hábitos desiguais e injustos que foram fortalecidos na ideologia social ao longo da evolução da humanidade. Recomendo essa obra francesa para jovens, adultos e idosos interessados em melhorar o mundo, sem medo do diferente e inovador. Concluo dizendo que o mundo não é fácil, e provocar mudanças é menos ainda, mas enfrentar a realidade e se posicionar a favor da igualdade é essencial para que, talvez um dia, consigamos cultivar uma sociedade justa, pacífica e acolhedora.

Com supervisão de Giovana Colela, jornalista do Meon Jovem.

Escrito por
MIRELLA BORIM
Mirella Borim Lima

2ª ano do Ensino Médio - Colégio Embraer Juarez Wanderley - São José dos Campos, SP

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