Mexilhão-dourado: o que é o molusco invasor que ameaça rios

Molusco asiático foi achado no Rio São Francisco, a mil km do registro mais próximo. Entenda o que é o mexilhão-dourado e por que ele preocupa hidrelétricas.

Escrito por: Sabine Baumann4 min de leitura
Colônia de mexilhão-dourado em tronco retirado de reservatório - Foto: Boltovskoy (CC BY-SA 4.0)
Colônia de mexilhão-dourado em tronco retirado de reservatório - Foto: Boltovskoy (CC BY-SA 4.0)

O mexilhão-dourado, um molusco invasor vindo da Ásia, foi encontrado em um trecho do Rio São Francisco em Minas Gerais onde nunca havia sido registrado. A descoberta, feita por pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), acendeu o alerta sobre o avanço da espécie, que pode entupir tubulações, prejudicar hidrelétricas e afetar o abastecimento de água.

O que é o mexilhão-dourado

O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) é um molusco de água doce originário da Ásia, com poucos centímetros de comprimento. Ele chegou à América do Sul no início da década de 1990, provavelmente na água de lastro de navios de carga. O primeiro registro no continente foi em 1991, na região do Rio da Prata, na Argentina.

No Brasil, a espécie foi identificada pela primeira vez em 1998, no Delta do Jacuí, perto de Porto Alegre (RS). Desde então, se espalhou por boa parte do Sul e por pontos do Sudeste e do Centro-Oeste, segundo o Ibama. Em 2001, apareceu no reservatório de Itaipu, e em 2023 foi identificado na bacia do Tocantins, no Pará.

A nova descoberta no Rio São Francisco

Os pesquisadores da Unimontes encontraram 113 exemplares em pontos dos municípios de São Francisco e São Romão, no Norte de Minas. O trabalho de campo foi feito entre julho de 2024 e abril de 2025, com cinco expedições e coletas em 16 pontos de quatro municípios. O estudo foi publicado na revista científica CheckList.

O registro fica a cerca de mil quilômetros, rio acima, do ponto mais próximo onde a espécie já era conhecida, perto da barragem de Sobradinho, na divisa entre Bahia e Pernambuco.

“Este é o primeiro registro da espécie no Alto Médio São Francisco”, afirmou o coordenador do estudo, Magno Borges. Segundo ele, a distância indica que a expansão está sendo mais rápida e complexa do que se imaginava.

Por que ele é um problema

O mexilhão-dourado se reproduz rápido, não tem predadores naturais capazes de controlar a população e forma colônias com milhares de indivíduos grudados em pedras, barcos e tubulações. Os principais impactos são:

  • hidrelétricas: as colônias entopem filtros, tubulações e sistemas de refrigeração, o que exige limpezas frequentes e pode até interromper a operação;
  • abastecimento de água: pode afetar as captações e as estações de tratamento;
  • irrigação, pesca e navegação: o molusco gruda em redes, cascos e equipamentos;
  • meio ambiente: como se alimenta filtrando a água, ele compete com as espécies nativas por comida e espaço.

“Poderemos ter sérios prejuízos econômicos”, alertou o pesquisador Maurício Lopes de Faria, coautor do estudo.

Como ele se espalha e como evitar

As larvas são quase invisíveis a olho nu e são levadas pela correnteza. Mas o principal meio de dispersão é o transporte humano: os mexilhões viajam presos a cascos de barcos, redes e equipamentos de pesca, ou na água acumulada dentro de embarcações e baldes de isca.

Segundo o Ibama, depois que a espécie se instala em um rio ou reservatório, erradicá-la não é viável. Por isso, a prevenção é a principal arma. As recomendações para quem pesca ou navega são:

  • lavar e secar o barco, o motor e o reboque antes de levá-los para outro rio ou represa;
  • esvaziar toda a água acumulada na embarcação e nos recipientes de isca;
  • limpar e higienizar redes e equipamentos de pesca.

E no Vale do Paraíba?

A reportagem não encontrou registro publicado do mexilhão-dourado na bacia do Rio Paraíba do Sul. Mas a região tem grandes represas usadas para pesca, lazer e geração de energia, como as de Paraibuna, do Jaguari e de Santa Branca. Por isso, os cuidados recomendados pelo Ibama também valem para quem leva barcos e equipamentos de outras regiões para os rios e represas do Vale.

Com informações da Gazeta do Povo e do NC News.

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