Estudo da USP associa ondas de calor e poluição ao aumento do risco de AVC em idosos

Pesquisa aponta crescimento de 40,4% na probabilidade de acidente vascular cerebral a cada dia adicional de exposição combinada ao calor intenso e ao material particulado fino

Escrito por: Rubens Baracho4 min de leitura
Foto: Pablo Jacob/Governo de SP
Foto: Pablo Jacob/Governo de SP

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificou uma associação entre a duração das ondas de calor, a poluição do ar e o aumento do risco de acidente vascular cerebral (AVC) agudo em pessoas com 65 anos ou mais. A pesquisa foi realizada na capital paulista e aponta que a combinação de temperaturas elevadas com a presença de partículas poluentes no ar pode ampliar os riscos à saúde cerebral.

De acordo com os resultados, a probabilidade de ocorrência de um AVC aumentou 40,4% a cada dia adicional de exposição simultânea ao calor intenso e à poluição por material particulado fino, conhecido como PM10.

Para o estudo, os pesquisadores consideraram onda de calor a ocorrência de pelo menos dois dias consecutivos com temperaturas máximas de 33,1 °C ou mais. O PM10 é formado por partículas microscópicas presentes no ar, provenientes principalmente da queima de combustíveis veiculares e da poeira.

Os resultados preliminares foram apresentados pela professora Alessandra Carvalho Goulart, da Faculdade de Medicina da USP, durante a FAPESP Week Países Baixos, realizada na Universidade de Leiden.

Segundo a pesquisadora, os dados mostram que as mudanças climáticas e a poluição atmosférica podem atuar como fatores de risco imediatos para eventos vasculares cerebrais em idosos.

Como foi realizada a pesquisa

A equipe utilizou informações do Estudo de Mortalidade e Morbidade do Acidente Vascular Cerebral (EMMA), desenvolvido na USP. Foram analisados dados de 769 pessoas diagnosticadas com AVC agudo entre 2006 e 2018. Desse total, 54,2% eram mulheres e 65,5% tinham 65 anos ou mais.

Os pesquisadores compararam as condições meteorológicas e a qualidade do ar nos dias anteriores aos eventos neurológicos. No modelo que avaliou somente o impacto térmico, a razão de chances foi de 1,121. Quando a análise considerou também a interação entre o calor e a concentração de PM10, o indicador chegou a 1,404, representando aumento de 40,4% por dia adicional de exposição à combinação.

A explicação apresentada pelos pesquisadores envolve os efeitos do calor sobre o organismo. A exposição a temperaturas elevadas pode provocar desidratação, reduzir a parte líquida do sangue e aumentar sua viscosidade. Também pode alterar a regulação da temperatura corporal e o funcionamento cardiovascular, afetando o fluxo e a pressão sanguínea.

Atividade física e saúde cerebral

Além da relação entre calor, poluição e AVC, os pesquisadores avaliaram fatores associados à proteção da saúde cerebral. Em análises do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), foram acompanhados 1.285 participantes entre 2008 e 2024.

Os resultados indicaram que cada aumento de dez pontos no escore Life’s Essential 8, que reúne oito fatores de saúde cardiovascular, esteve associado a uma redução de 14% na chance de desenvolver lesões graves nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro.

A pesquisa também identificou uma associação entre a prática regular de atividade física e a redução de marcadores da doença de pequenos vasos cerebrais. Entre os participantes com níveis moderados a elevados de atividade física, o risco desses indicadores foi de 21% a 22% menor.

Outro resultado apontou redução de 21% a 30% no risco de atrofia do córtex entorrinal, região do cérebro relacionada à memória e à orientação espacial, entre os participantes mais ativos.

Os pesquisadores utilizaram sensores de movimento para medir a atividade física e exames de ressonância magnética para avaliar a estrutura cerebral.

Pesquisadores também investigam o lítio contra o Alzheimer

O estudo apresentado pela equipe da USP também abordou pesquisas sobre possíveis tratamentos para a doença de Alzheimer. Há mais de duas décadas, pesquisadores liderados pelo professor Orestes Forlenza investigam os efeitos neuroprotetores do lítio em pacientes com comprometimento cognitivo leve, condição que pode anteceder a demência.

Nos ensaios clínicos, foram utilizadas doses inferiores às tradicionalmente empregadas na psiquiatria. Segundo Forlenza, os resultados indicaram potencial para atenuar e estabilizar perdas de memória e de raciocínio.

As pesquisas também incluem estudos em modelos animais, nos quais foram observados efeitos sobre processos biológicos associados à doença.

Os pesquisadores ressaltam a importância de combinar cuidados cardiovasculares, atividade física e medidas de adaptação das cidades às mudanças climáticas para proteger a saúde cerebral da população idosa.

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