Equação do novo mundo

Quando recebi alta do hospital e parti para terras remotas, nos confins de Minas Gerais, em 2012, ainda mergulhado em pessimismo e medo, queria entender a “equação do novo mundo”. Queria entender a pujança narcisista em detrimento dos antigos sonhos humanistas. Queria compreender o cinismo, enquanto quase um quarto do mundo passava fome. “Num futuro […]

Escrito por: Meon Redação4 min de leitura
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Quando recebi alta do hospital e parti para terras remotas, nos confins de Minas Gerais, em 2012, ainda mergulhado em pessimismo e medo, queria entender a “equação do novo mundo”. Queria entender a pujança narcisista em detrimento dos antigos sonhos humanistas. Queria compreender o cinismo, enquanto quase um quarto do mundo passava fome.

“Num futuro próximo, teremos que viver como bons selvagens, cuidar da terra, dos bichos, alcançar uma espécie de amor incondicional, cuidar das coisas indistintamente, porque agora precisamos, mais e mais, ou quase tão somente, de carinho indistinto”, eu pensava.

Cheguei a me perguntar: “Terei adoecido junto à humanidade, sanando meu medo do mundo”? Ao mesmo tempo em que indagava sem concretude, um sentimento muito forte dizia que “a humanidade só caminha pra frente”. Depois de muito me esforçar para compreender a História (Goethe, Rousseau, Marx, Durkheim), passei a encontrar meu perdão para a espécie humana.

“O homem ainda está em seu jardim da infância. São 10 mil anos de civilização frente a 200 mil como espécie”, refletia eu, na ponta do lápis. Depois assisti a revoada passar pelos séculos: imperialismo romano, absolutismo medieval, direitos naturais no renascimento, direitos civis no iluminismo. E concluí: “Só estamos começando. Com retrocessos aqui ou acolá, não importa. Estamos apenas começando”.

Prova disso é que de todos os períodos citados acima, não há nenhum em que eu gostaria de ter vivido. Ainda assim, eu prefiro as conquistas do final do século 20 e início do 21. Mas como? Afinal, pra onde estamos indo, movidos “às cegas” pelo individualismo? Afinal, para onde estamos indo, se “o sonho acabou”?

Lennon, mártir da liberdade, foi morto por um tiro narcisista, disparado por um jovem que invejava sua vida. John sentiu na pele o fim das utopias. Esse fato acabou representando, de certa forma, o início de todo esse preconceito contra o pensamento romântico e contemplativo em prol de uma sociedade objetiva, utilitária e eficiente.

Lennon foi enterrado e zombado como “hippie maconheiro”, exatamente como aqueles soldados romanos, que cuspiam no rosto de um homem que ironizavam como “Jesus Nazareno Rei dos Judeus”, enquanto este agonizava. Pois então, para estamos indo, se o sonho acabou?

Eis que abro “Filosofia da Liberdade”, um livro de cândido nome, e encontro umas das epístolas mais esperançosas desses tempos de incertezas, que povoamos inertes. Seu autor, o filósofo alemão Rudolf Steiner, apareceu pra molhar a terra seca, com o conceito de “INDIVIDUALISMO ÉTICO” que, posso dizer, habitava meu cocuruto desde que voltei pra cidade disposto a aceitar esse processo de “objetivação do mundo” como um “jardim da infância” da humanidade.

“Filosofia da Liberdade”, ou “filosofia da interpessoalidade”, como poderia se chamar, defende a união multifacetada, pessoal e ética, entre o pensar e o sentir. “Individualismo ético” seria, para Steiner, a semente da liberdade – alcançada através de um “pacto consciente” entre nossos ideais e as leis objetivas do mundo.

O “cessar-fogo” entre o sonho individualista e a utopia coletiva, tão necessário para o crescimento humano, enfim ganhou uma possível solução, verbalizou-se, pra solucionar, mesmo que em parte, minha tão procurada “equação do novo mundo”.

Quem sabe, dia desses, num rincão de terra qualquer, numa lavoura de lucidez e sapiência, a civilização se torne bonita? Quem sabe? Há muitos jardins pela frente. E estamos apenas aprendendo.

“Individualismo ético” seria, para Steiner, a semente da liberdade – alcançada através de um “pacto consciente” entre nossos ideais e as leis objetivas do mundo.

O “cessar-fogo” entre o sonho individualista e a utopia coletiva, tão necessário para o crescimento humano, enfim ganhou sentença, verbalizou-se, pra solucionar, mesmo que em parte, minha tão procurada “equação do novo mundo”.

Quem sabe, dia desses, num rincão de terra qualquer, numa lavoura de lucidez e sapiência, a civilização não se faça valer? Quem sabe? Há muitos jardins pela frente. E estamos apenas aprendendo.

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