‘Lugares Escuros’ reflete mais a personalidade do diretor Paquet-Brenner
Para o espectador que vai ver Lugares Escuros interessa saber que o filme baseia-se no livro de Gillian Flynn e ela é a autora de Garota Exemplar, que foi adaptado e lindamente filmado por David Fincher. Existem elementos que aproximam as duas histórias, principalmente um certo gosto pelas reviravoltas, mais que – aqui – o aprofundamento…

Para o espectador que vai ver Lugares Escuros interessa saber que o filme baseia-se no livro de Gillian Flynn e ela é a autora de Garota Exemplar, que foi adaptado e lindamente filmado por David Fincher. Existem elementos que aproximam as duas histórias, principalmente um certo gosto pelas reviravoltas, mais que – aqui – o aprofundamento dramático dos personagens. Também vale destacar que Charlize Theron e Nicholas Hoult refazem a parceria que já deu certo no operístico Mad Max – Estrada da Fúria, melhor filme de toda a série idealizada pelo diretor australiano George Miller. Tudo isso pode ser destacado, mas o essencial é outra coisa.
Embora falado em inglês, Lugares Escuros é produção francesa dirigida por Gilles Paquet-Brenner e a ele se deve A Chave de Sarah. É como se o cineasta tivesse buscado uma história para refazer o longa anterior. Rememorando – muita gente não aguenta mais as histórias de holocausto, achando que tudo já foi dito, mas não é verdade. A Chave de Sarah beirava o horror, mas era o horror da realidade. Quando nazistas batiam à sua porta, garota exortava o irmão pequeno a se esconder num lugar secreto da casa, que fechava à chave, convencida de que logo tudo seria esclarecida e a família retomaria a ‘normalidade’. Só que a família era enviada a um campo de concentração e o menino morria emparedado, virando um fantasma na consciência da protagonista.
Lugares Escuros conta agora a história de Libby Day/Charlize. A mãe e as irmãs foram brutalmente assassinadas e o testemunho de Libby, a única sobrevivente, responsabilizou seu irmão, que foi preso e cumpre pena há 25 anos – emparedado como o menino da Chave. À deriva na vida, Libby sobrevive graças a um fundo de emergência criado quando ocorreu a tragédia, mas agora está na pior, sem dinheiro. É nesse momento que chega um estranho (Nicholas Hoult) e ele propõe que ela se reaproxime do irmão para reabrir o caso. Libby/Charlize pede dinheiro, que Hoult lhe dá, e o pesadelo recomeça.
Ao revisitar a tragédia familiar, o caso adquire desdobramentos e reviravoltas. As coisas não foram exatamente, ou não foram nada como Libby se lembra. O irmão é um personagem bem desenhado nas duas fases da vida, na adolescência como no cárcere. É um tipo soturno, que carrega uma culpa, mas terá matado? Como o livro, o filme desenvolve-se no choque passado/presente. O desfecho não chega a ser surpreendente, mas Paquet-Brenner cria boas cenas – o reencontro com o pai. Charlize, a guerreira de Mad Max, esconde a sensualidade no boné enterrado na cara. Não revela o empoderamento – de novo, a palavra – de Mad Max, mas não é o ‘monstro’ de Desejo Assassino, que lhe deu o Oscar equivocado. Sem a força de Garota Exemplar, Lugares é tenso, e incomoda. Já é alguma coisa. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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