Sou um cara de partida
Sou um cara de partida, uma pessoa que está sempre partindo. E hoje vejo, no horizonte, a realização de um sonho antigo: cuidar da terra, dos bichos, resgatar as utopias e fugir do narcisismo das cidades, mesmo que tenha que levar uma vida selvagem, púbere, inóspita, viver sem comunicação, desapegar-me a objetos. Penso no desconforto, […]

Sou um cara de partida, uma pessoa que está sempre partindo. E hoje vejo, no horizonte, a realização de um sonho antigo: cuidar da terra, dos bichos, resgatar as utopias e fugir do narcisismo das cidades, mesmo que tenha que levar uma vida selvagem, púbere, inóspita, viver sem comunicação, desapegar-me a objetos.
Penso no desconforto, na solidão desconhecida, na liberdade precária. Mas posso escrever livros, beber água pura dos mananciais, descansar sob as estrelas, brilhando longe do narcisismo que sinto estar adoecendo, vagarosamente, o mundo urbano.
Penso que vivemos uma fase muito difícil. Uma fase que vai passar, tenho certeza, porque sabemos que o caminho tem que ser outro. É assim que vejo minha aventura. Uma volta necessária ao seio da terra, ao mundo natural, ao Deus verdadeiro. Um resgate dos valores sumos que se perderam em minha vida e, sobretudo, uma busca pelo amor incondicional.
Há alguns anos, tive uma doença chamada TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada). Por três letras, fui internado três vezes. Lutei por cinco anos, sem trégua. Depois traduzi em livro, chamado “Medo da Chuva” (Livrus, 2012). Foi como se algo me roubasse a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo.
Mas depois que convivi com pessoas, digamos, “doentes do mundo” (nas clínicas), passei a ver as “pessoas comuns” apenas fingindo felicidade ao meu redor. Fui visitar um amigo que partiu pra culturas autossustentáveis, nas comunidades que brotam entre a floresta e o serrado de Alto Paraíso (GO). Ivan parece estar retomando um estado maior de pureza, mesmo que na dor, à medida que se aproxima da natureza e, sobretudo, do amor incondicional.
Nas cidades, não há mais espaço. Estamos todos espremidos pela eficiência e pela utilidade. Aprendemos a reduzir a esperança para um tamanho aceitável, enquanto um em cada seis humanos passam fome no mundo. Deus do céu! Tudo é terapia, consumo, e a Fluoxetina virou o açúcar do século 21.
Escrevendo assim parece que estou a caminho de um paraíso perdido. Nada disso! Sei que muitos estão nesta mesma busca. A caminhada, se consumada, será sofrida e lenta, mas algo me diz que podemos resgatar muita coisa e conseguir, de alguma forma, reunir amigos e dizer tudo sem levantar a voz, sonhar e criar com real liberdade.
Sou um cara de partida, uma pessoa que está sempre partindo.
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