‘T2 – Trainspotting’ estreia hoje e é sobre o medo da morte
Lançado em janeiro, na Inglaterra, com ótimas críticas, T2 – Trainspotting teve a sua pré-estreia internacional no Festival de Berlim, em fevereiro. Foram o diretor Danny Boyle, o roteirista John Hodge e dois dos atores principais, Ewan Bremner e Jonny Lee Miller. Os outros dois, os mais famosos – Ewan McGregor e Robert Carlyle -, não puderam,…

Lançado em janeiro, na Inglaterra, com ótimas críticas, T2 – Trainspotting teve a sua pré-estreia internacional no Festival de Berlim, em fevereiro. Foram o diretor Danny Boyle, o roteirista John Hodge e dois dos atores principais, Ewan Bremner e Jonny Lee Miller.
Os outros dois, os mais famosos – Ewan McGregor e Robert Carlyle -, não puderam, comparecer, presos a outros compromissos profissionais.
Boyle lembrou que, apesar do sucesso do original – uma rara produção independente britânica que arrebentou na bilheteria e fez sucesso de público e crítica em todo o mundo, chegando a ser considerada pelo The New York Times um dos 100 melhores filmes de todos os tempos -, nunca houve cobrança do estúdio (Sony/Columbia) por uma sequência.
“Os fãs e os atores é que sonhavam com a sequel. Minha resposta era sempre a mesma – ‘Vamos esperar que esses caras envelheçam um pouco.’ Bem, eles envelheceram e cá estamos cumprindo uma promessa.” Há 20 – na realidade, 21 – anos, Trainspotting, com o título brasileiro de Sem Limites, estreou no quadro de uma Grã-Bretanha pós-thatcheriana. A chamada ‘Dama de Ferro’, Margaret Thatcher, associada ao presidente norte-americano Ronald Reagan, teve decisiva participação no estabelecimento das políticas econômicas que iniciaram o reinado da globalização. Os conservadores, os neoliberais, todos a amam como uma mulher de visão. O cinema inglês da época – Stephen Frears, Ken Loach – a detestava.
Thatcher foi premiê entre 1979 e 1990, uma época de intensa transformação econômica e social. E aí, em 1996, surgiu Trainspotting. Definido como ‘drug culture drama’, o filme lançou seu olhar sobre o submundo das drogas de Edimburgo, na Escócia. Ao contrário de uma sociedade vitoriosa, escombros. Das ruínas arquitetônicas e humanas, emergiram a cool britannia e a britpop.
Trainspotting, o 1, baseia-se num livro de Irvine Welch. Em 2002, o escritor publicou uma espécie de sequência – Pornô. O roteirista John Hodge fez uma adaptação que, segundo Danny Boyle, “era bem decente, mas não tinha nada a ver. Nem enviei o roteiro para os atores”. Com a proximidade dos 20 anos do filme cultuado, Boyle, Hodges e o produtor Andrew MacDonald reuniram-se há dois anos em Edimburgo para rascunhar o que poderia ser T2. “É curioso porque o primeiro filme nasceu no vácuo do pós-thachterismo e o segundo foi gestado quando estava em processo o Brexit (a saída da Inglaterra da União Econômica Europeia). Houve um debate muito intenso na Escócia, que defendia a permanência. Por conta disso, sempre foram feitas leituras políticas do 1 e, agora, também estão sendo feitas do 2. A política é inevitável. Está em tudo, mas, para nós, o filme é mais sobre masculinidade, o medo do envelhecimento e da morte. No limite é sobre… ‘Fuck’ o medo. Vamos morrer, de todo jeito.”
Jonny Lee Miller ironizou. “O filme é post-mortem. Todos mudamos. O que o filme de alguma forma tenta dar conta é dessas mudanças.” Na trama de T2 – Trainspotting, Renton (McGregor) volta para casa 20 anos depois de ter fugido com o dinheiro dos amigos. Spud (Bremner) só pensa em se matar, Sick Boy (Miller) faz vídeos pornôs com a namorada para chantagear os trouxas. As tensões e os ressentimentos ficam para trás, exceto pelo personagem de Carlyle, que sai da cadeia só pensando em se vingar de McGregor. Entre os dois filmes, Danny Boyle ganhou o Oscar (por Quem Quer Ser Um Milionário), McGregor e Carlyle viraram astros (e o segundo foi até vilão de 007 em O Mundo Não É o Bastante). Boyle revelou que, nas conversas com o roteirista e o produtor, surgiu a ideia de que o próprio elenco assumisse o projeto, já que McGregor, por exemplo, se iniciou na direção. “Eles poderiam fazer um ótimo trabalho, e seria interessante termos a visão deles sobre essa história toda.”
Os atores, porém, estavam mais interessados é na visão do diretor. A coletiva, na Berlinale, foi uma troca de gentilezas sem fim. “Danny é o cara mais cheio de energia que conheço. Depois de empoderar o primeiro filme, ele chegou cheio de ideias para o segundo. Danny é um atleta mental. Você ainda não foi e ele já está voltando. O resultado dessa vitalidade é que Danny filma rápido, de forma econômica. Sabe exatamente o que quer”, disse Bremner. E o diretor.
“O bom de reencontrar as pessoas do começo de sua carreira é que você termina fazendo uma viagem no tempo. É como voltar ao marco zero de você mesmo, lembrando como você já foi jovem e sonhou.”
T2 foi bem recebido, mas, para o espectador que vai ver o filme nas salas, um aspecto particular da experiência poderá ser desconcertante. No original, Danny Boyle pautou quase todo o cinema pop britânico que veio a seguir – Guy Ritchie, Guy Ritchie, Guy Ritchie. Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, Snatch – Porcos e Diamantes e Rock’n’Rolla são (sub)produtos da estética de Trainspotting, mas agora é como se o próprio Danny Boyle emulasse a direção de… Ritchie. Estilisticamente, T2 talvez seja o filme mais ‘ritchiano’ que Guy Ritchie não dirigiu. A (des)construção de algumas cenas parece ter tido storyboard pelo ex de Madonna. E isso não é um elogio.
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