No Brasil, último presidente a se recusar a comparecer à posse do sucessor foi Figueiredo
BAURU, SP (FOLHAPRESS) – A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de não comparecer à cerimônia de posse do seu sucessor, o democrata Joe Biden, representa uma quebra de protocolo na tradição democrática americana, mas encontra apoio na ala conservadora da política brasileira. Na história do Brasil, o exemplo mais recente de um…

BAURU, SP (FOLHAPRESS) – A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de não comparecer à cerimônia de posse do seu sucessor, o democrata Joe Biden, representa uma quebra de protocolo na tradição democrática americana, mas encontra apoio na ala conservadora da política brasileira.
Na história do Brasil, o exemplo mais recente de um chefe do Executivo que se recusou a comparecer à posse de seu sucessor foi o general João Baptista Figueiredo, o último presidente da ditadura militar.
O ano era 1985, o Brasil ainda ensaiava um governo democrático, e José Sarney teve que assumir o comando do país depois que o presidente eleito à época, Tancredo Neves, foi hospitalizado na véspera da posse –e veio a morrer pouco mais de um mês depois.
Sobre Sarney, Figueiredo disse à revista IstoÉ, pouco antes de sua morte, em 1999: “Sempre foi um fraco, um carreirista. De puxa-saco passou a traidor. Por isso não passei a faixa presidencial para aquele pulha. Não cabia a ele assumir a Presidência”.
A quebra de protocolo em Brasília foi relembrada pelo neto do general nesta sexta-feira (8), minutos depois de o presidente americano anunciar que não comparecerá à inauguração do governo Biden.
“Meu avô também não compareceu à posse de seu sucessor, que chegava ao poder de forma ilegítima. Agiu conforme suas convicções. Assim devem fazer os homens de caráter!”, escreveu, no Twitter, o empresário Paulo Figueiredo Filho.
Figueiredo não foi o único, porém, a se recusar a cumprir os ritos de transição no Brasil. A República ainda engatinhava quando Floriano Peixoto, que governou de 1891 a 1894, decidiu não comparecer à posse de Prudente de Morais, porque não via com bons olhos a chegada de um civil ao poder.
Afonso Pena também não pôde passar a faixa a seu sucessor, Nilo Peçanha, mas por um motivo que estava além de sua vontade. Morreu em 1909, em decorrência de uma forte pneumonia, e Peçanha, que era seu vice, assumiu a Presidência.
Em 1954, Café Filho viu-se presidente do dia para a noite e começou a governar o país também sem a bênção de seu antecessor, porque este, Getúlio Vargas, cometera suicídio.
Após o impasse entre Figueiredo e Sarney, o Brasil entrava enfim no período de democratização. Desde então, só dois eleitos para serem presidentes receberam e passaram a faixa a seus sucessores: Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva.
Fernando Collor, primeiro presidente eleito diretamente após a ditadura militar, recebeu a faixa de Sarney, que, originalmente, era um vice. Antes do fim do mandato, foi forçado a renunciar após ser alvo de um processo de impeachment e não passou a faixa a Itamar Franco.
Itamar, por sua vez, tomou posse em uma cerimônia breve e só usou a faixa presidencial no último de seus dois anos e três dias de governo, quando a colocou sobre os ombros de FHC. O tucano, presidente por dois mandatos, cumpriu o mesmo protocolo na posse de Lula, em 2003.
Oito anos depois, foi a vez de Dilma Rousseff. Reeleita para um novo mandato, foi destituída do cargo em um processo de impeachment em 2016 e não compareceu à posse de Michel Temer. O emedebista, que não recebeu a faixa das mãos de outro presidente, repassou-a a Jair Bolsonaro há dois anos.
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