Tom conciliatório dura horas, e republicano diz que não irá à posse
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A 12 dias do fim de seu mandato como presidente dos EUA, Donald Trump quebrou mais um protocolo: anunciou que não irá à posse de seu sucessor, Joe Biden. Ainda que tenha precedentes, a ruptura nessa tradição ocorreu apenas outras três vezes na história do país, todas elas no século 19. A Constituição afirma que o…

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A 12 dias do fim de seu mandato como presidente dos EUA, Donald Trump quebrou mais um protocolo: anunciou que não irá à posse de seu sucessor, Joe Biden. Ainda que tenha precedentes, a ruptura nessa tradição ocorreu apenas outras três vezes na história do país, todas elas no século 19.
A Constituição afirma que o mandato do presidente expira ao meio-dia de 20 de janeiro, quatro anos depois de sua posse, dando lugar ao governo do vencedor da eleição. O respeito às tradições democráticas implica comparecer à cerimônia, uma demonstração de transição pacífica.
A decisão também contraria o discurso mais recente do próprio Trump, que na noite de quinta (7) publicou em rede social vídeo no qual afirma que seu foco agora é garantir uma transferência tranquila de poder. O presidente, pressionado pela possibilidade de afastamento e por seguidos pedidos de demissões em seu governo, fez uma fala em que citava “reconciliação” e “cicatrização”. Não durou 24 horas.
Vencedor do último pleito, Biden deu de ombros e ironizou. Afirmou que a ausência do rival é “uma das poucas coisas em que ele e eu já concordamos”. “Ele não aparecer é uma coisa boa.”
Antes de Trump, três líderes não deram as caras na inauguração dos adversários: John Adams, em 1801; o filho dele, John Quincy Adams, em 1829; e Andrew Johnson, em 1869. Os motivos variam pouco: tensão política, disputas eleitorais traumáticas e casos de drama familiar.
Em 1921, Woodrow Wilson não participou integralmente da cerimônia para celebrar o início do governo de Warren Harding devido a dificuldades físicas após um derrame. Ainda assim, acompanhou o sucessor, de carro, no caminho da Casa Branca ao Capitólio.
A rara quebra de protocolo permite um olhar histórico pouco animador para Trump, que cogita lançar sua campanha à Casa Branca para 2024. Nos três casos do passado, os presidentes que assumiram o cargo sem a presença do antecessor na posse não só exerceram gestões de muito apoio popular como conseguiram se reeleger com facilidade.
O primeiro a deixar de comparecer à cerimônia de estreia do sucessor foi John Adams, o segundo presidente dos EUA. Advogado e diplomata, ele governou o país de 1797 a 1801. Ele ficou em terceiro lugar de uma disputa confusa, que terminou em empate entre Thomas Jefferson e Aaron Burr. A decisão nesse caso fica nas mãos da Câmara dos Representantes, e Jefferson chegou a pedir que Adams, então presidente, interferisse no processo, o que não aconteceu.
Os deputados deram a vitória a Jefferson, e Adams deixou a Casa Branca na madrugada de 4 de março de 1801, dia da posse de seu adversário.
Quase três décadas depois, em 1829, um dos filhos de Adams, John Quincy Adams, repetiu o gesto do pai e não foi à posse de seu sucessor, Andrew Jackson. Após perder a disputa para Quincy Adams, Jackson prometeu revanche e, durante todo o mandato do presidente, foi um de seus opositores mais ferrenhos. Adams tentou manter relações cordiais com o adversário, sem sucesso, e deixou Washington na noite de 3 de março, véspera da posse.
O último e até agora mais recente presidente americano a não aparecer na posse de um sucessor é Andrew Johnson. E isso já faz mais de 150 anos. Johnson assumiu a Presidência depois do assassinato de Abraham Lincoln, de quem era vice, e comandou o país de 1865 a 1869. Controverso, assim como Trump, foi o primeiro presidente a sofrer processo de impeachment, mas foi absolvido pelo Senado, também como Trump, em 1868.
Figueiredo foi último presidente do Brasil a quebrar protocolo
No Brasil, o exemplo mais recente de um chefe do Executivo que se recusou a comparecer à posse de seu sucessor foi o general João Baptista Figueiredo, o último presidente da ditadura militar.
O ano era 1985, o Brasil ainda ensaiava um governo democrático, e José Sarney teve que assumir o comando do país depois que o presidente eleito à época, Tancredo Neves, foi hospitalizado na véspera da posse –e veio a morrer cerca de um mês depois.
Sobre Sarney, Figueiredo disse à revista IstoÉ, pouco antes de sua morte, em 1999: “Sempre foi um fraco, um carreirista. De puxa-saco passou a traidor. Por isso não passei a faixa presidencial para aquele pulha. Não cabia a ele assumir a Presidência”.
Figueiredo não foi o único, porém, a se recusar a cumprir os ritos de transição no Brasil. Floriano Peixoto, que governou de 1891 a 1894, decidiu não comparecer à posse de Prudente de Morais, porque não via com bons olhos a chegada de um civil ao poder.
Afonso Pena também não pôde passar a faixa a seu sucessor, Nilo Peçanha. Morreu em 1909, em decorrência de uma forte pneumonia, e Peçanha, seu vice, assumiu a Presidência. Em 1954, Café Filho viu-se presidente do dia para a noite e começou a governar o país também sem a bênção de seu antecessor, Getúlio Vargas, que cometera suicídio.
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