Punido pela Fifa, Del Nero articulou grupo opositor e tentou tomar o poder na FPF
Marco Polo del Nero, presidente banido da CBF pela Fifa por corrupção e suborno, tomou a dianteira na tentativa de construir uma frente para enfrentar Reinaldo Carneiro Bastos nas eleições da Federação Paulista de Futebol (FPF), o que legalmente, pelo estatuto da Fifa, ele não poderia fazer. O cartola ligou para presidentes de clubes do…

Marco Polo del Nero, presidente banido da CBF pela Fifa por corrupção e suborno, tomou a dianteira na tentativa de construir uma frente para enfrentar Reinaldo Carneiro Bastos nas eleições da Federação Paulista de Futebol (FPF), o que legalmente, pelo estatuto da Fifa, ele não poderia fazer. O cartola ligou para presidentes de clubes do interior de São Paulo a fim de ouvi-los e arregimentá-los para a disputa nas urnas no fim deste mês. Marquinhos Chedid, da família que comanda o Bragantino por décadas, era o escolhido para fazer oposição – ele negou isso e desistiu.
Del Nero comandou o futebol paulista por 13 anos, de 2003 a 2015, quando deixou o cargo para assumir a CBF. E conhece bem o caminho das campanhas, uma vez que desde 1987 a FPF tem eleições com candidato único. Ele ligou para antigos “compadres” de São Paulo, a maioria ainda presidindo clubes. E perguntava como “as coisas” estavam e falava da sua intenção de ajudar os times paulistas, sobretudo do interior. O procedimento seguia sua própria cartilha, com auxílio financeiro, reivindicações atendidas, calendário no futebol para o ano todo, aumento no valor das cotas, pagamento de “mensalinhos”, como são chamadas as ajudas mensais em dinheiro da FPF e CBF, e outras regalias, como o convite para eventos fora do Brasil. Foi bem sedutor.
Presidente de um time do interior que disputa a primeira divisão paulista, cujo nome do clube, e dele próprio, pediu para não ser revelado, foi procurado por Del Nero e recebeu até convite para passar uns dias em Angra dos Reis, litoral sul do Rio – o cartola frequenta a região. O convite foi feito com a intenção de discutir a situação dos clubes de São Paulo, dos menores e que lutam pela sobrevivência anual. De modo geral, o que mais tem seduzido as equipes paulistas, além de melhores cotas em dinheiro, era ter um calendário de 12 meses na temporada.
O movimento foi batizado de “Renovação” e tinha Chedid na linha de frente. Del Nero visava desidratar a candidatura para a reeleição de Reinaldo Bastos. No documento entregue aos clubes paulistas, o objetivo do alinhamento seria para “resgatar a hegemonia do futebol de São Paulo no cenário nacional”.
Alguns pontos seriam levados para a eleição, cujo documento falava em vencê-la e mudar “os caminhos do futebol paulista”. Um deles garantia aos clubes da elite participação em uma das séries do Brasileiro (A, B, C ou D), cujos critérios para a entrada sempre foram técnicos.
FIFA – Del Nero corre o risco de ser alvo de novas multas da Fifa se a entidade comprovar sua atuação nos bastidores do futebol brasileiro. Em abril, o cartola foi banido do futebol e multado em US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 3,75 milhões), depois dos indícios de que ele teria desviado recursos e atuado em esquemas de corrupção envolvendo torneios de futebol.
Nos Estados Unidos, ele é indiciado por corrupção e não pode viajar para fora do Brasil, sob o risco de ser detido. Pela determinação da Fifa, Del Nero está impedido de ter qualquer atuação no futebol.
O atual presidente da CBF, Antônio Nunes, foi escolhido por ele antes de sua queda, e o presidente eleito, Rogério Caboclo – assume em abril -, só conseguiu os votos necessários na eleição sem concorrente após Del Nero costurar a sucessão.
A partir do artigo 64 do Código de Disciplina e do Código de Ética da Fifa, novas sanções podem ser aplicadas contra o dirigente caso fique provado que ele não estaria respeitando o afastamento. “Se houver evidências de uma violação das sanções, medidas disciplinares adicionais podem ser impostas”, informa. Advogados de Del Nero questionam a sanção e prometem levar o caso à Corte Arbitral do Esporte para rever o banimento do dirigente.
Mas há também uma interpretação entre funcionários de alto escalão da Fifa, ex-investigadores e advogados esportivos na Europa que apontam que as leis da Fifa poderiam abrir brechas para que a CBF seja penalizada pela continuidade da atuação de Del Nero, mesmo à distância.
Se ficar provado suas manobras nos bastidores, a responsabilidade poderia cair sobre a entidade, principalmente se houver indício de que a CBF é cúmplice desse poder paralelo. Procurada, a CBF não se manifesta sobre o tema. Sustenta que Del Nero não tem mais vínculo com a entidade. Del Nero não respondeu aos contatos do Estado.
A Fifa pode aplicar novas multas e até a expulsão de uma associação de competições internacionais. Outra parcela de juristas, porém, entende que isso valeria se a CBF tivesse sido originalmente punida, ao lado de Del Nero, o que não ocorreu.
Na condição de anonimato, um ex-dirigente da Fifa, que pediu demissão diante do que chamou de irregularidades do atual presidente, Gianni Infantino, disse que atualmente decisões na entidade de punir uma associação é meramente política. “A independência desses órgãos é inexistente e toda decisão é fruto de cálculos políticos.”
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