Moradores de Itatinga alegam que escavação causou problemas de saúde

Depois de análises e da comprovação de que uma área de 21.000 m² estava contaminada, parte da população alega que, em 2012, as escavações para higienização acabaram causando vários transtornos, inclusive problemas de saúde por exposição aos componentes químicos.

Escrito por: Beatriz Scotti e Poliana Casemiro*4 min de leitura
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Na década de 70, a Transpetro (Petrobras Transportes) eliminava a borra do petróleo -sobra do processo de refinamento- em uma várzea que foi aterrada e, anos mais tarde, passou a ser habitada e se transformou no bairro do Itatinga, região central de São Sebastião.

Em 2006, quando moradores, ao reformar suas casas, viram um líquido viscoso e preto brotar da terra, pensaram ser petróleo, mas ficou confirmado que se tratava de restos da substância composta de hidrocarbonetos pesados e carcinogênicos. Depois de análises e da comprovação de que uma área de 21.000 m² estava contaminada, parte da população alega que, em 2012, as escavações para higienização acabaram causando vários transtornos, inclusive problemas de saúde por exposição aos componentes químicos.

“Eu comecei com desmaios e sintomas de depressão”, conta o bombeiro Evaldo Pereira, 39 anos. “Fui afastado do trabalho e medicado contra a depressão, mas havia algo estranho. Fiz um levantamento e de cada 300 pessoas que moram aqui [Itatinga], 200 sofrem dos mesmos sintomas”.

“Depressão eu mesmo tenho. Isso não é sintoma da contaminação em Itatinga, é do modo de vida brasileiro. Depressão e ansiedade são problemas da população em geral”, rebate André Martins Cordeiro, cirurgião geral e responsável pelo Serviço de Atenção ao Residente da Área Contaminada do Itatinga.

Conhecido como Saraci, o ambulatório criado pela Secretaria de Saúde em maio de 2013 para acompanhar a população e os sintomas, oferece médicos e exames, atendendo diariamente 15 pessoas em média e dando suporte a cerca de 650 famílias.

“Fazemos exames e preventivos que acompanham e podem constatar qualquer sintoma. Meu interesse é tratar o paciente e dar suporte para que tenha saúde, não importa se está exposto [à contaminação] ou não”, explica.

Novo diagnóstico
Insatisfeito com o diagnóstico de depressão, Pereira foi procurar um especialista em Taubaté. “O Saraci não oferece toxicologista e consegui um atendimento mais rápido nos hospitais fora do litoral. Lá, além de outros exames, fiz biópsias e descobri nove nódulos pulmonares e neutropenia [doença que ataca as células brancas do sangue, responsáveis pela defesa do organismo]”, completa.

O bombeiro, que mora há 26 anos no bairro, está há dois anos afastado do trabalho e já tem laudo oficial sobre seu problema. “Depois dos exames passei por uma perícia no IML (Instituto Médico Legal) e a causa oficial das minhas doenças é contaminação por compostos químicos”. Pereira move uma ação na justiça contra a Petrobras.

Questionada, a empresa declara que “fez o acompanhamento junto a Secretaria de Saúde do município que apontou não haver alterações na saúde dos moradores relacionadas aos derivados de petróleo localizado no subsolo da área”. Apesar disso, informa que pretende continuar acompanhando o caso, por meio do Saraci, até a finalização da limpeza do local.

Obra suspensa
Vigilância Sanitária e Cetesb concordam que a melhor solução é a retirada total do contaminante. No entanto, por causa do medo e das diversas reclamações dos moradores, a Vigilância Sanitária entrou com ação no Ministério Público e conseguiu embargar a obra, criando um impasse.

“Agora, aguardamos o novo projeto da Petrobras, que não prejudique as pessoas e seja executado por uma empresa neutra”, explica Geórgia Michelucci, chefe do departamento em São Sebastião.

Consequências
O Meon procurou um químico para explicar a composição do material encontrado em Itatinga e quais riscos traz para a vida das pessoas. Fábio Augusto, o doutor em ciência na área química da Universidade de Campinas, explica que a substância, composta por hidrocarbonetos pesados e voláteis, pode facilmente se propagar pelo ar.

“O material está lá há trinta anos e hoje em menor quantidade. Mas, apesar disto, é preciso analisar a exposição ao produto a longo prazo. Se havia probabilidade de ter dez casos de câncer no local, com esse adicional aumenta a chance de registro da doença”, explica.

Apesar das queixas, a prefeitura nega que as pessoas estejam expostas e garante que, com o material aterrado, não há risco de contaminação.

(* Com edição de Kaike Chaves e Priscila Gomes)

ENTENDA O CASO: 
Restos de petróleo causam problemas para moradores de São Sebastião
Itatinga: retirada de contaminante afeta casas e causa transtorno
MP realiza reuniões para averiguar contaminação por petróleo

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