Por Fabiano de Paula Porto Em Blog e Colunas Atualizada em 17 FEV 2021 - 15H43

Fim do fumacê e adoção de novas soluções: o melhor caminho para controlar o Aedes Aegypti e frear a dengue

Conheça as novas abordagens e soluções já disponíveis, além dos riscos e ineficácia da prática do fumacê amplamente adotada em todo Brasil

Em um país polarizado, existe ao menos uma opinião unânime entre todos os brasileiros: o mosquito Aedes Aegypti, transmissor da Dengue, Zika, febre amarela e Chikungunya, não é bem vindo e deve ser combatido.


Ciclo de Vida do Aedes Aegypti


Este pequenino ser indesejado pode colocar até 450 ovos durante sua curta vida de 30 dias e seus ovos resistem por um ano mesmo sem água, esperando alguma fonte de água que a faz abrir em apenas 30 minutos, e iniciar seu desenvolvimento de sete dias. O mosquito não é natural do Brasil, veio pelos mares em navios da África durante o período escravista no início do século XIX. Hoje, o Aedes aegypti já é encontrado em 121 países, e apenas considerando a Dengue, a Organização Mundial de Saúde, aponta para o número de 80 milhões de pessoas com a doença todos os anos, onde 550 mil necessitam de hospitalização e cerca de 20 mil morrem.


O Brasil, em meio ao Covid, registrou mais de 1 milhão de casos de Dengue em 2020 e enfrenta atualmente recorde de crescimento da doença. Para se ter uma ideia, comparando 2019 com 2018, o crescimento de casos foi de 488% e os mais de 1.5 milhão de brasileiros com a doença em 2019 representaram o segundo pior ano em número de casos em 21 anos. Isso significa 206 casos por hora. Os estados de Minas Gerais, Goiás e São Paulo concentraram 70% dos casos de dengue no Brasil em 2019. Uma das explicações para o grande aumento dos casos é uma maior circulação do sorotipo 2 da Dengue, que antes não estava muito presente. Existem quatro tipos de dengue, e o maior risco da doença acontece com pessoas que se infectam pela segunda vez, pois a presença de anticorpos de tipos diferente de dengue pode ocasionar em um descontrole do sistema imunológico que acaba favorecendo a entrada do vírus e causando a chamada “dengue hemorrágica”.




Para tentar frear o avanço da doença, o poder público no Brasil tem adotado soluções baseadas no uso de produtos químicos e campanhas que focam no combate dos criadouros e na responsabilização da população nesta complexa batalha com o monitoramento de locais com água parada, como se a maior culpa dos mosquitos fosse das pessoas que não cuidam de seus próprios jardins e quintais.

E com este pensamento imediatista e superficial, vimos crescer exponencialmente o uso de larvicidas, especialmente o produto Temafós, por prefeituras que depositam esses químicos em seus reservatórios de água, córregos e até nascentes e caminhões-pipa. Tudo isso, sem estudos que atestam a segurança desta prática para a saúde humana e ambiental. O produto Temafós já não é recomendado pela OMS e mesmo assim continua sendo amplamente utilizado. Ao olhar a ficha técnica do próprio Temafós, encontramos: “Tóxico para organismos aquáticos. Moderadamente persistente no solo. Apresenta alto potencial bioacumulativo em organismos aquáticos. BCF estimado em 2.300 em peixe. A contaminação de mananciais traz riscos para a fauna e a flora”, e quando se trata dos riscos à saúde humana, esclarece: “Em contato com os olhos causa irritação. Exposição a grandes quantidades por via oral ou dérmica provoca vômitos, cefaleia, dor abdominal, diarreia, secreção pulmonar, broncoespasmo, miose, bradicardia ou taquicardia, confusão, tremores, convulsões, depressão do SNC, fraqueza muscular ou paralisia”.

Em São José dos Campos (SP), segundo notícia de 2018 do site da Prefeitura, a “aplicação de larvicidas nos córregos, rios, charcos, pântanos e locais com água parada na região do centro e nos bairros para evitar a proliferação de pernilongos e Aedes aegypti. Existem atualmente 86 pontos de aplicação dos produtos.” E esta prática não se restringe apenas a esta cidade do interior de São Paulo. Estima-se que mais de 2.000 cidades do Brasil façam uso de larvicidas em fontes de água para combate a dengue.

VENENO NO AR: A INEFICIÊNCIA E RISCOS DO FUMACÊ

Além do larvicida em fontes de água, outra principal medida de controle ao mosquito adotada desde 1986, e impulsionada por grande clamor popular pelo total desconhecimento das pessoas, é o uso do Fumacê. Conhecido pelo nome técnico de UBV (ultra baixo volume), a iniciativa basicamente consiste em um equipamento de pulverização em cima de carros e motos pulverizando grandes quantidades de produtos químicos nas cidades. Há também a versão “costal”, em que o produto é aplicado por uma espécie de mochila individual.


Funcionário de Prefeitura pulveriza fumacê em vias urbanas


Até 2019, o Ministério da Saúde utilizava o inseticida chamado Malathion, classificado como cancerígeno até mesmo pelo IARC (IARC (International Agency of Research on Cancer), no entanto a utilização foi suspensa “só” por isso, mas sim porque foi comprovada resistência do Aedes Aegypti à substância. A solução do Ministério da Saúde foi buscar alternativas mais sustentáveis? Claro que não. Liberado pela Anvisa em 2020, o novo “queridinho” do Ministério é o produto chamado Cielo, da empresa norte-americana Clarke Mosquito Control Products.

Da classe dos Piretróides, é composto por imidacloprida e praletrina, duas substância de ação neurotóxica, similar ao já proibido DDT, ou seja, atuam sobre o canal de sódio. Os efeitos da intoxicação nos insetos (incluindo abelhas, borboletas, mariposas, besouros, etc) incluem contrações musculares, convulsões, paralisia momentânea (efeito knock-down), evoluindo para morte. Possuem alta potência inseticida e são produtos de alto valor, mais caros que outras classes de inseticidas.


Linha do tempo da utilização de inseticidas das classes organofosforado (OF), regulador de crescimento (IGR), piretroide (PI), larvicida bacteriano (LB), espinosinas (E) e carbamato (CA) no Programa Nacional de Controle da dengue (PNCD), de São Paulo e Brasília. Fonte: adaptado de Campos (2017) (Anexo II); Agrotóxico utilizados em programas de saúde (Observatório Saúde Ambiental, [s.d.]), Diretoria de Vigilância Ambiental em Saúde (DIVAL)/SES-DF. Legenda: Barras verdes: uso do inseticida no Brasil; barras azuis: uso do inseticida em São Paulo; barras laranjas: usos de inseticidas em Brasília;


A técnica do fumacê tem sido utilizada no “automático” pelo Poder Público. Sem questionamentos sobre eficácia ou segurança, esta técnica ineficaz se perpetua especialmente por ser muito cômodo e positivo do ponto de vista eleitoral (obter votos) ao atender os muitos pedidos da população pelo fumacê em canais da prefeitura. A reivindicação por fumacê, especialmente no verão, representa um dos maiores pedidos da população juntamente com o pedido de corte ou poda de árvores sob justificativa alheia, como “folhas sujam” ou “folhas entopem minha calha”. Toda esta inconsciência não deve ser responsabilizada à população, que não recebeu informações nem campanhas educativas apropriadas e, portanto, é natural e esperado que o pensamento simplista de “Quanto mosquito! Precisamos de veneno” se perpetue. Até pelo fato desta mensagem estar sendo transmitida há mais de 30 anos em propagandas, ações governamentais e até com apoio de veículos de imprensa, que perpetuam “no automático” esta visão do fumacê ser algo positivo.

Após aprofundar no tema, me surpreendi com as evidências volumosas que apontam para a ineficácia e riscos à vida humana, ambiental e animal que a prática do fumacê representa. Adotada como a principal medida de contenção ao Aedes por muitas prefeituras, essa pratica na verdade deve ser adotada em casos extremamente pontuais quando a situação está em descontrole. "A fumaça nunca deve ser uma solução definitiva. O fumacê deve ser utilizado apenas em situações de total descontrole, onde não tem mais jeito, em último caso”, afirma Uiara Caromano Treviso, engenheira agrônoma e bióloga especialista em pragas urbanas. E ainda faz outro alerta associado a desqualificação dos agentes públicos que aplicam os produtos. "O servidor público muitas vezes não conhece as legislações, não conhece os produtos químicos que estão aplicando, não são orientados e nem sabe orientar as pessoas. Falta uma política pública, pois não adianta apenas aplicar a fumaça que não vai resolver. O correto é agir nos criadouros e realizar um manejo integrado de ações preventivas e corretivas, mas de forma consciente” Moradora de São José dos Campos, ela ainda afirma “já cansei de ver alguns agentes da prefeitura usando superdosagem, o que faz o produto sair da sua margem de segurança aumentando seus riscos”.


Funcionário da Prefeitura de São José dos Campos aplica fumacê (vectron) nas margens de rio


Em São José dos Campos o produto utilizado para aplicação do fumacê é o Vectron, com princípio ativo Etofenproxi. "Este produto já existe há muito tempo e oferece boa segurança, sendo indicado até para uso em hospitais, porém como todo produto químico oferece riscos e exige um tempo de reentrada após sua aplicação.”, ressalta Uiara, que completa “por mais que sua utilização de forma correta seja segura para a saúde humana, você não pode aplicar produto químico nenhum com pessoas próximas", ressalta Uiara. Em algumas cidades um carro de som passa pelas ruas informando as pessoas da passagem do fumacê, mas na maioria das vezes isso não acontece e todos são surpreendidos com a chegada do fumacê.

Constatar a necessidade de adotar novas soluções para não chegar no extremo de ser necessário o uso do fumacê representa apenas a ponta do iceberg, mas sem dúvida trata-se da prática mais urgente de ser suspensa por seus prejuízos. Se quisermos ter cidades mais seguras, saudáveis e com melhor controle do Aedes Aegypti, mosquitos e suas doenças precisamos superar o uso do fumacê.

Ao final deste artigo, você poderá acessar um dossiê completo com muito conteúdo sobre a questão do fumacê e do controle ao Aedes aegypti, mas em resumo, apresento abaixo 10 pontos que demonstram a total ineficiência no combate ao mosquito e os riscos associados a esta prática.

1. Só consegue matar o mosquito adulto. O fumacê não atua contra as larvas ou ovo;

2. Só mata os mosquitos em voo no exato momento da aplicação e a maioria machos (não sugam sangue), uma vez que as fêmeas possuem comportamento de buscar locais mais seguros e menos expostos.

3. Atuação baixíssima sobre os criadouros dos mosquitos de dentro das casas, onde estão localizadas mais de 80% dos criadouros do Aedes.

4. Quando extremamente bem sucedido, em perfeitas condições climáticas, o fumacê veicular consegue exterminar no máximo 30% dos mosquitos, porém sendo quase 20% machos, que não picam humanos nem botam ovos. E, mesmo alcançando essa eficácia, em no máximo setes dias tudo está de volta, pois as larvas e ovos continuam intactos.

5. O vento, calor, chuva e efeitos do clima afetam enormemente a eficácia já baixa da prática, e retiram a previsibilidade da medida. Ou seja, por uma simples mudança momentânea do clima, todo trabalho é literalmente inútil, sendo levado pelo vento ou lavado pela chuva (poluindo as águas)

6. É tóxico e pode causar problemas de saúde. Embora seja feito para matar insetos, todos os produtos químicos utilizados para o fumacê apontam, sem exceção, em suas próprias fichas técnicas, riscos à saúde humana, principalmente as crianças, pessoas de idade avançada e com problemas respiratórios;

7. Pode contaminar a água e atingir animais aquáticos em rios, córregos e lagos;

8. Favorece a resistência do mosquito ao veneno. Quando se utiliza o fumacê, muitos mosquitos sobrevivem e se reproduzem, forçando o nascimento de uma nova geração resistente. Como o ciclo de vida dos mosquitos vetores é bastante curto esse processo acontece de forma assustadoramente rápida em escala humana o que torna necessário utilizar concentrações cada vez maiores dos venenos e a produção de novas substâncias para eliminá-los, mas no fim estamos criando mosquitos super-resistentes aos venenos;

9. Mata abelhas e outros insetos polinizadores de fundamental importância, além de prejudicar diretamente outros insetos benéficos como joaninhas, borboletas etc. A toxicidade do fumacê para esses animais é extremamente alta. As abelhas são grandes alvos do fumacê e é fácil encontrar na internet vídeos desoladores mostrando morte de até 60 mil abelhas após uma única aplicação de Fumacê. E mesmo que não morram no momento, as abelhas correm o risco de morrer dias depois, pois o veneno se espalha sobre a vegetação, fontes de água e ao coletar pólen, néctar e resinas de flores. Além de se contaminar podem levar essas substâncias para dentro do ninho, com risco de causa a morte de toda colmeia.

10. Atua contra populações de sapos, lagartixas, libélulas e outros predadores naturais do mosquito, além de provocar sérios prejuízos em pássaros, especialmente aos frágeis filhotes em ninhos nas árvores atingidas.

Em especial sobre as abelhas, animais eleitos os mais importantes do planeta Terra, Reginaldo Silva, artesão e meliponicultor com criação de abelhas nativas sem ferrão afirma que pode perceber claramente os efeitos nocivos do fumacê sobre as colmeias da cidade. “No bairro onde eu moro em São José dos Campos, eu mapeei em um trecho cerca de 60 a 80 colônias naturais de abelhas nativas que estão em árvores e muros, e acompanho o seu desenvolvimento. Após a passagem do fumacê é perceptível a grande diminuição de atividades dessas colmeias, levando a crer que acabaram sendo mortas após a passagem do produto”, afirma Reginaldo.

Para concluir este raciocínio, com a palavra, a entomologista Leda Régis, pesquisadora da Fiocruz Pernambuco: “O uso de produtos tóxicos não seletivos como inseticida continua sendo o maior equívoco da humanidade para lidar com insetos. Eu estou falando dos inseticidas de síntese, que são tóxicos para todas as espécies animais. Na minha opinião – e agora é a hora de ouvir a opinião de muitas pessoas, de grupos de pesquisadores que acumulam algumas décadas de estudo em controle de populações de Aedes Aegypti no Brasil e no mundo.”

SOLUÇÕES MAIS EFICIENTES, SEGURAS E SUSTENTÁVEIS

Definitivamente não há "mágica" e nem solução fácil para o controle efetivo de pernilongos e do Aedes aegypti, mas a boa notícia é que existem soluções muito mais efetivas e seguras que o fumacê, que na verdade está prejudicando essa guerra ao combater predadores naturais e forçar novas linhagens de mosquitos super resistentes, além de outros pontos já mencionados. Porém, existem muitas soluções disponíveis que irei apresentar ao longo deste artigo que corroboram com a conclusão de que é possível sim fazer mais e melhor em relação ao combate a Dengue e ao mosquito Aedes.

A principal solução a médio e longo prazo é de maior responsabilidade do Poder Público, pois envolve saneamento e cuidados com o tratamento da água, rios, depósitos de lixo, e tudo que combata os criadouros do mosquito. Também o poder público precisa ter atenção ao urbanismo, orientando e evitando aprovação a projetos com arquitetura que podem favorecer a formação de água parada e criadouros e fiscalizando obras que geram grandes quantidades de entulhos.

Em um país com grande carência de saneamento básico e inoperância do Poder Público sobre o assunto, da para entender como é cômodo e bem vindo o discurso de jogar a culpa pelo mosquito no colo da população e apostar em soluções imediatas e simplistas como o fumacê. É fácil falar “vocês são culpados por não cuidarem de suas casas e estamos fazendo a nossa parte pulverizando veneno”. É uma dinâmica que se retroalimenta e precisamos parar com isso. Afinal, de que adianta ter todo cuidado em sua casa se existe esgoto, rios poluídos ou múltiplos criadouros em obras ao lado de casa?

OVITRAMPAS, PPF E MOSQUITOEIRA: ARMADILHAS BARATAS, SUSTENTÁVEIS E EFICIENTES

Felizmente existem soluções eficazes e seguras que podem ser aplicadas em curto prazo para melhores resultados. Por mais surpreendente que seja para alguns, uma das melhores soluções para monitoramento e controle é o uso de armadilhas. Existem muitas opções, mas as três principais são as chamadas OVITRAMPAS e PPF (“estação disseminadora de pyriproxyfen"), que conseguem atrair as fêmeas oferecendo um local perfeito para elas depositarem seus ovos ou até mesmo a “mosquitoeira”, adotada muito em oficinas escolares.

As “estações PPF” basicamente são pequenos potes de plástico de cor preta onde é colocado um pouco de água e tecido com pó bem fino de pyriproxyfen, larvicida utilizado no combate ao mosquito.


Estação de PPF aplicada pela UnB em parceria com FioCruz reduziu em 50% a incidência de Aedes nos prédios do campus


O recipiente é colocado em local sombreado e atrai as fêmeas do Aedes aegypti. “A fêmea busca um local para ovipor (colocar ovos), e a estação tem as condições adequadas. Ali ela se contaminará com o pó de PPF espalhado no tecido. Pequenas partículas desse pó ficarão em seu corpo e, quando ela seguir para outros criadouros disseminará o inseticida inativando mais focos de procriação”, detalha Rodrigo Gurgel, coordenador da pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical da UnB. Ele ainda ressalta que o objetivo é “colocar o mosquito para trabalhar a nosso favor. Ninguém melhor que a própria fêmea do mosquito para saber onde estão seus criadouros e disseminar o inseticida”, analisa Rodrigo Gurgel. Em seis meses, houve queda de quase 50% na quantidade de Aedes aegypti em quatro prédios do campus Darcy Ribeiro, locais escolhidos para a intervenção com PPF.

Já as Ovitrampas são armadilhas ainda mais simples e baratas, pois não exigem o uso de larvicida. Basicamente trata-se do mesmo pote preto (geralmente aquele vasinho pequeno de jardinagem) com água e um pedaço de madeira (eucatex) dentro, criando as condições perfeitas para atrair a fêmea com seus ovos.


Ovitrampa utilizada pela prefeitura de Recife


Já a Mosquitoeira, é feita com uma garrafa pet de 1 ou 1,5L, água, fita isolante e um tecido chamado micro tule. Depois de pronta, ela vai atrair as fêmeas de mosquitos para depositarem seus ovos, que ficam fixados na borda interna da tampa da mosquitérica, pouco acima da lâmina d'água que contém material atrativo como ração de gato. Como a água evapora muito rápido, as fêmeas depositam os ovos cada vez mais abaixo e quando você completar o nível da água, os ovos serão encharcados. As larvas de Aedes aegypti que eclodirem desses ovos ficarão presas dentro da mosquitoeira e assim permanecem presos durante todas as suas formas de vida: larva, pupa e adulto alado.


Mosquitoeira, armadilha que pode ser construída facilmente para atrair fêmeas do Aedes para depositar seus ovos


Todas essas soluções de armadilhas, especialmente as Ovitrampas e as Estações de PPF, são tão atrativas para as fêmeas do Aedes aegypti que mesmo com outras fontes de água parada nos arredores, pesquisas demonstram que elas escolhem as armadilhas por oferecerem condições ideais.

Essas abordagens com armadilhas são muito diferentes da "caça as larvas" promovida atualmente, que não tem surtido efeito pela grande capacidade de opções para o mosquito. “A estratégia menos eficiente para monitorar esses mosquitos é justamente a de procurar larvas em seus criadouros. O nos criadouros não funciona exatamente por causa da facilidade que a fêmea tem de acesso à água em diferentes recipientes e pela maneira como ela espalha os seus ovos no ambiente. É impossível atingir uma população dessa espécie aplicando só larvicida ou fazendo buscas porta a porta. Essa é uma estratégia equivocada”, ressalta Leda Régis.

Em 2010, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizou uma pesquisa na cidade de Santa Cruz do Capibaribe, em Pernambuco, com alunos de 17 escolas públicas. Eles instalaram cerca de 6 mil ovitrampas pela cidade e, com a coordenação de pesquisadores da Fiocruz e médicos da secretaria estadual de Saúde, retiraram do ambiente mais de 3 milhões de mosquitos.”

Em outro experimento com a Secretaria de Saúde do Recife durante quatro anos (2003 a 2007) os ovos do mosquito foram coletados continuamente durante 24 meses utilizando 464 ovitrampas. Os resultados mostraram que cerca de 98% delas continham ovos do Aedes aegypti e, durante o período, foram coletados e eliminados cerca de 12 milhões de ovos do mosquito. O projeto teve apoio financeiro do Ministério da Saúde, da Unesco, do CNPq, da Fiocruz, da Facepe e da SES. O experimento também já foi realizado com sucesso em São Sebastião, região administrativa do Distrito Federal. Após 18 meses de estudo, os pesquisadores verificaram queda de 86% na quantidade de Aedes aegypti nos pontos de intervenção da cidade.

“As armadilhas são instrumentos extremamente fáceis, baratos, que funcionam eficientemente. Essa é a única forma que se conhece de monitorar e que funciona também para controle se for usado com muita intensidade. Consegue eliminar os ovos, então destrói o mosquito antes que ele nasça. No norte da Austrália, onde há problemas de transmissão de dengue, e excelentes equipes de entomologia com conhecimento sólido, usam-se armadilhas. Também em Cingapura, na Itália, na França, na Suíça, o monitoramento é feito com armadilhas”, explica Leda Régis.


Alunos da rede pública da cidade de Arapiraca (Alagoas) aprendem a criar armadilhas contra o Aedes Aegypti


De acordo com a pesquisadora da FioCruz, o uso de armadilhas mostra-se sensível para detectar a presença do vetor da dengue no meio ambiente e podem ser utilizada para monitorar a densidade do mosquito tanto em áreas intensamente infestadas, quanto em áreas com baixa infestação. “As pesquisas que realizamos mostraram que apenas uma unidade da ovitrampa é capaz de coletar mais de 8 mil ovos em um período de quatro semanas”, ressaltou.

Recentemente, a cidade de Caimancito, na Argentina, decidiu utilizar as ovitrampas como ferramenta para diminuição da população do Aedes aegypti. Uma das principais justificativas do governo local foi o baixo impacto ambiental que a técnica causa. Mais de 1.500 ovitrampas foram utilizadas em conjunto com campanhas de conscientização da população local, a dengue foi praticamente extinta no município.

CONTAGEM DE OVOS PARA MAIOR INTELIGÊNCIA NO COMBATE AO AEDES

O uso de armadilhas é eficaz e sustentável e devem compor a lista de estratégias para combate a mosquito, porém eliminar os ovos da natureza sem contabilizá-los é desperdiçar uma preciosa informação que pode ser utilizada de forma extremamente benéfica para melhorar as estratégias de controle ao Aedes Aegypti e de doenças como a Dengue.

Acompanhe o raciocínio: é feita a distribuição das armadilhas de forma equilibrada nas regiões da cidade e é sabida a localização de todas elas, depois disso você conta os ovos de cada armadilha e associa com a sua localização. Ao final, você terá um mapa muito assertivo dos pontos com maiores focos e presença de ovos, e saberá onde dirigir os esforços nas áreas mais críticas.

Porém, a contagem desses ovos geralmente é feita de forma extremamente ineficaz: uma a uma via microscópio ótico. Isso mesmo, a pratica mais comum é a de colocar pesquisadores o dia todo contando ovinhos em uma posição fixa que pode até trazer riscos à saúde pelo esforço repetitivo.


Estudante da Unb realiza contagem de ovos de Aedes capturados em armadilha


Para superar esse cenário também já existe uma solução desenvolvida pela startup brasileira Pickcells, que elaborou um sistema para contagem automática de ovos por fotos via inteligência artificial. Basicamente, é acoplada uma câmera nos microscópios que fazem fotos, envia para o banco de dados da inteligência artificial, que em menos de 3 minutos oferece todos os resultados. Paulo Melo, CEO da Pickcells explicou que originalmente sua solução era empregada para análises de exames de fezes para identificação de ovos e larvas de doenças por vermes, mas que após solicitação da prefeitura do Recife aceitou o desafio e conseguiram desenvolver a solução adaptada para identificação de ovos de Aedes Aegypti. “Ficamos os dois últimos anos em testes que mostraram a grande eficácia da solução, e agora estamos prontos para dar o próximo passo e levar essa solução para todo Brasil”, explica Paulo Melo. E ainda acrescenta “estamos sendo procurados até mesmo por cientistas da União Europeia, pois nossa solução está entre as pioneiras no mundo”.

O FUTURO PRÓXIMO DA BATALHA CONTRA O MOSQUITO

Existem novas soluções e abordagens sendo desenvolvidas para o controle do Aedes Aegypti que em poucos anos já deverão estar plenamente disponíveis para uso por cidades. As principais abordagens envolvem o uso dos chamados “bioinseticidas” que não se baseiam em produtos químicos de alto poder inseticida que afeta todos os animais e a própria saúde humana, mas sim na utilização de substâncias biológicas como fungos e plantas que possuem atuação específica e exclusiva no Aedes aegypti, e não geram resistência.

Uma dessas iniciativas está sendo desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Após três anos de pesquisa com mais de 100 tipos de fungos a partir de diversos substratos da Amazônia, chegou-se a três potenciais bioinseticidas de alta eficácia e risco nulo a saúde humana e ambiental. O produto pode ser borrificado em plantas e colocado em locais que armazenam água, matando as larvas e ovos em no máximo 24h. “É um produto que não é tóxico, não agride o meio ambiente, é eficaz e ainda tem a vantagem de ser facilmente produzido. Será muito benéfico para população utilizá-lo”, destaca a doutora em Ciências Biológicas, Yamile Benaion Alencar, uma das participantes do estudo.

Outra iniciativa validada com sucesso foi apresentada por César Ronald Pereira Gomes em sua tese de doutorado ao Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Ele concluiu que o uso de 20 grãos de arroz com fungos entomopatogênico Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana em 1 litro de água foi capaz de matar 95% das larvas e ovos do Aedes em sete dias.

Em muitas das iniciativas em desenvolvendo estão sendo descobertas que existem espécies de plantas que oferecem excelente eficácia para o combate ao mosquito com a utilização de folhas, sementes e até raízes, muitas dela “in natura”, ou seja, sem precisar de nenhuma intervenção científica.

Talvez a mais famosa das plantas com alto poder inseticida sobre o Aedes e com mais estudos concluídos seja as sementes da árvore Moringa Oleifera. Esta espécie originária da Índia com fácil adaptação e crescimento rápido, é encontrada em todo Brasil e diversas pesquisas concluíram que as proteínas presentes na semente, a lectina, impede o processo de digestão da larva, provocando sua morte por desnutrição e podem ser utilizadas tanto moídas (em pó) quanto diluídas em água, sendo eficaz nas quatro fazes da larva.

Porém, até mesmo este avanço no combate ao Aedes com o uso de substâncias naturais está em risco se o uso do fumacê e de produtos químicos continuarem. De acordo com a conclusão da tese de doutorado em Biologia da Universidade Federal de Pernambuco de Afonso Agra Neto de título “Potencial inseticida de sementes de moringa oleífera contra larvas de Aedes aegypti resistentes” concluiu que a semente de moringa “não promoveu mortalidade de larvas resistentes”, e continua “podendo indicar que estas populações de Aedes são fisiologicamente distintas em outros aspectos ainda desconhecidos”.

MOSQUITOS TRANSGÊNICOS: ALIADOS OU VILÕES?

Uma das abordagens mais polêmicas para o combate ao mosquito Aedes aegypti é o uso de machos modificados geneticamente. Chamado de “Aedes do bem” pela empresa inglesa Oxitec, a tecnologia foi desenvolvida em 2002 e consiste em uma microinjeção de DNA com dois genes, um para produzir uma

proteína que impede seus descendentes de chegarem à fase adulta na natureza, chamado de tTA, e outro para identificá-los sob uma luz específica. Os machos, quando liberados na natureza, procriam com as fêmeas – responsáveis pela incubação e transmissão do vírus da dengue. Elas vão gerar descendentes que morrem antes de chegarem à vida adulta, reduzindo a população total. Porém cerca de 3-5% dos mosquitos conseguem se reproduzir e sobreviver, estando aptos a gerar uma nova geração de Aedes transgênicos no meio ambiente, que pode inclusive ser mais resistente que a espécie original.

O Brasil é o país que mais adotou a prática no mundo e já liberou mais de 50 milhões de Aedes transgênicos na natureza. Em Sorocaba localiza a maior fábrica do mundo de produção de mosquitos transgênicos do mundo com capacidade de produzir 60 milhões de mosquitos por semana e os primeiros testes foram realizados em 2011 nas cidades baianas de Juazeiro e Jacobina. Em Jacobina, levantamentos mostram que a população de transmissores da dengue em seis meses de experimento já é 50% menor, de acordo com pesquisadora da USP Margareth Capurro, coordenadora do Projeto Aedes Transgênico (PAT). O método testado em menor escala em algumas vilas de Juazeiro resultando numa diminuição de até 90% da população do mosquito da dengue. Porém, depois de 18 meses após o final do experimento, a população de mosquitos voltou a crescer alcançado o volume anterior ao teste. Foi justamente na Bahia que pesquisadores descobriram que o experimento em Jacobina, cidade de 45 mi habitantes, acabou criando nova geração de mosquito, que pode ser mais resistente.

Este resultado surpreendeu os cientistas que concluíram que partes da mudança genética produzida em laboratório migraram inesperadamente para a população-alvo dos mosquitos locais. Nas várias amostras, entre 10% e 60% dos mosquitos apresentaram alterações correspondentes às dos transgênicos no genoma. Já era sabido que um pequeno percentual poderiam atingir a idade adulta, porém os pesquisadores presumiam que eles seriam fracos demais para se reproduzir. Ledo engano. Pesquisadores internacionais criticam os testes realizado no Brasil "A liberação foi realizada precipitadamente, sem que alguns pontos fossem esclarecidos", ressalta o biólogo José Maria Gusman Ferraz. Em Munique, o laboratório de pesquisas Testbiotech também critica a Oxitec pelo início dos testes sem suficientes estudos. "Os experimentos da empresa Oxitec levaram a uma situação em grande parte incontrolável", afirma o diretor do laboratório Christoph Then. "Este incidente deverá ter consequências para o uso futuro da engenharia genética", acrescenta.

Outro fator que aponta para os desafios desta técnica é o altíssimo custo. Para se ter uma ideia, considerando uma cidade de apenas 50 mil habitantes o custo seria de de R$ 2 milhões a R$ 5 milhões por ano para o serviço, e ainda mais R$ 1 milhão nos anos seguintes para manutenção dos insetos.

Além de gerar dependência pela estratégia, a intervenção no código genético de um animal que se adapta tão bem ao meio ambiente seria, de fato, uma solução segura a médio e longo prazo? Esta pergunta ainda está em aberto.

VACINA BRASILEIRA CONTRA A DENGUE DEVE CHEGAR EM 2022

Uma das grandes esperanças no combate à Dengue advém de uma estratégia que atualmente domina o noticiário diante do enfrentamento ao Covid19: as vacinas.

Poucos sabem, mas já existe uma vacina disponível no Brasil contra a dengue desde 2015. Com nome de “Dengvaxia” e com eficácia de cerca de 60% é produzida pelo laboratório francês Sanofi-Aventis e foi testada em 40.000 pessoas antes de receber aprovação para imunização contra os quatro tipos de vírus da dengue. Porém, o próprio laboratório apresentou recomendação de que a vacina só deve ser tomada por pessoas que já contraíram a Dengue, caso contrário os indivíduos que nunca contraíram podem desenvolver formas mais graves da doença caso tenham um primeiro contato com o vírus após a vacinação.

Para superar esse desafio e oferecer uma vacina segura, o Instituto Butantan está desenvolvendo há quase 10 anos uma vacina 100% nacional que deverá estar disponível no SUS a partir de 2022, segundo o Ministério da Saúde.

O diretor da Divisão de Ensaios Clínicos e Farmacovigilância do Butantan, Alexander Roberto Precioso, ressaltou o pioneirismo da ação. “Esse é o primeiro programa que chega a fase três totalmente produzido, desenvolvido e estudado por pesquisadores brasileiros de um instituto público. E é pioneiro no mundo porque tem o objetivo, não só de atender à demanda brasileira, mas contribuir com outros países”, afirma.

“Ela [a vacina] protege contra os quatro tipos de dengue. Nas duas primeiras fases do estudo, os pesquisadores concluíram que a eficácia é superior a 85%. O trabalho deve ser concluído em 2023, mas existe a expectativa que a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] aprove esse tipo de imunização antes desse prazo. A vacina é feita em dose única, uma vantagem muito grande”, esclarece Ricardo Gurgel, médico coordenador do estudo no em Sergipe. “Até o momento, poucos efeitos colaterais foram observados e temos taxas muito boas de sucesso que a qualificam como uma vacina que tem tudo para ser boa para a população”, destacou Ivo Castelo Branco Coelho, infectologista do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC-UFC/Ebserh) e coordenador do Núcleo de Medicina Tropical da UFC.

CONCLUSÃO

Não se vence o Aedes Aegypti sozinho e nem com uma única solução. Trata-se de uma batalha coletiva. Para isso, é preciso envolver toda população e aplicar diferentes soluções que se complementam.

É preciso investir em campanhas educativas para informar sobre a ineficiência e riscos de práticas como o fumacê e do uso de larvicidas. É uma solução que envolve diversas área. Envolve o Poder Público em questões tradicionalmente desafiadoras no Brasil como o saneamento e gestão de resíduos, envolve pesquisa, ciência e tecnologia para monitoramento e desenvolvimento de novas soluções, especialmente, o envolvimento da comunidade. Absolutamente nenhuma solução contra o Aedes aegypti e outros mosquitos transmissores se sustentam se não houver senso de cooperação e envolvimento de todos os setores envolvidos. A boa notícia é que existem muitas alternativas e a população pode ajudar com práticas simples e acessíveis em suas casas.

Também de fundamental importância é o desenvolvimento de campanhas entre escolas, universidades, centros de pesquisas e Núcleo do Zoonoses do município para o desenvolvimento das armadilhas de modo que possam ser construídas também por estudantes (atuando como ferramenta educacional) e distribuídas pelas equipes técnicas em pontos estratégicos da cidade com tecnologias de geolocalização, para monitoramento periódico das armadilhas, e uso de tecnologias para contagem dos ovos para identificação de áreas de maior prioridades. Periodicamente, a cada no máximo cada 14 dias, as equipes da prefeitura fazem a coleta para dos ovos das armadilhas e encaminham para eliminação da natureza.

A batalha para combate à dengue e controle ao Aedes não é fácil, mas boas soluções já existem. É preciso que os gestores públicos tenham coragem e empenho para enfrentar a situação com seriedade, embasamento científico e constante estímulo ao senso de cooperação social.

O controle do Aedes Aegypti é uma das maiores urgências em saúde pública do Brasil e além de controlar doenças sérias como a Dengue, Zika e Chikungunya também pode ser a chave para conquistarmos uma sociedade mais saudável, sustentável e segura, com mais saneamento e, especialmente, maior consciência e educação ambiental. E ainda garantir o mais importante: salvar vidas e construir uma sociedade mais segura para as futuras gerações.

LINK DOSSIÊ:  http://bit.ly/DossieFumace

Escrito por
Fabiano Porto (Arquivo Pessoal)
Fabiano de Paula Porto

Jornalista, especialista em Gestão de Mídias Digitais e Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral. Presidente confundador da Organização Social Instituto Regeneração Global.

Mentor na Founder Institute com ênfase em Negócios de Impacto e ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). Possui 15 anos de experiência na área de comunicação, sendo mais de 10 anos como diretor de agência de marketing digital (Tec Triade Brasil).

Como palestrante em marketing, empreendedorismo e sustentabilidade esteve presente em mais de 30 cidades do Brasil representando cerca de 40 empresas e organizações. Também atuou por dois anos como Diretor do Capítulo de SJC da ABRADI (Associação Brasileira de Agentes Digitais) e foi Vice Presidente do Instituto Nikola Tesla.

fabianopporto@gmail.com

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