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Castillo se declara vencedor, mas apuração no Peru continua apertada

O candidato da esquerda à presidência do Peru, Pedro Castillo, se declarou vencedor das eleições do último domingo, apontando para contagens extraoficiais feitas por seus próprios auditores. Em discurso na noite de terça-feira (8) na sede do seu partido, o Peru Livre, o professor e sindicalista afirmou aos seus seguidores que a vitória está assegurada:

"O povo falou", disse Castillo, tirando seu chapéu e levantando os braços para seus seguidores, que acampam no local desde que a apuração começou. "Obrigado por serem vigilantes da vontade popular, obrigado por esta vigília, mas também faço um apelo às autoridades eleitorais para que, por favor, pelo Peru, pela democracia, por nossa pátria, sejam respeitosas."

Com 98,3% das atas contabilizadas, Castillo mantém-se à frente de Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000), mas a margem ainda é demasiadamente pequena para que as autoridades sacramentem um vencedor, o que pode levar dias para acontecer. Ele tem 50,206% dos votos válidos, contra 49,794% de sua oponente, segundo os dados do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe, em espanhol).

Keiko e seu partido, o Força Popular, esperavam que os votos vindos do exterior os ajudassem a encurtar a distância, após serem ultrapassados na segunda-feira (7). Isso aconteceu parcialmente: a diferença em favor do candidato do Peru Livre, que na segunda chegou a ser de mais de 95 mil votos, está em 71.764.

Com 89,5% dos votos vindos de fora do país já apurados, Keiko tem o apoio de 66% dos peruanos expatriados, contra 34% de Castillo. Tudo indica, contudo, que a diferença não será suficiente para reverter o cenário: as atas vindas de áreas mais remotas do Peru, reduto eleitoral de Castillo, vêm mantendo a vantagem do sindicalista.

"De acordo com as informações dos nossos auditores, já temos a contagem oficial do partido. O povo se impôs, e nós agradecemos. Por isso, pedimos também para que não caiam em provocações", disse Castillo no início do seu discurso, com barulho de buzinas ao fundo, referindo-se às alegações de fraude da sua oponente.

Atas contestadas

Em uma entrevista coletiva na segunda, Keiko disse que seria vítima de uma "fraude planejada e sistemática", sem apresentar evidências contundentes de suas alegações. De acordo com a candidata, o Peru Livre estaria manipulando as atas, o que poria em dúvida a credibilidade do pleito - alegações similares às que fez há cinco anos, quando foi derrotada por Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018). Observadores internacionais, no entanto, dizem não ter observado quaisquer sinais de irregularidades.

Na segunda, o chefe dos enviados pela Organização dos Estados Americanos (OEA), Rubén Ramírez, parabenizou as autoridades peruanas pela "organização de um processo de grande complexidade marcado pela pandemia e pela polarização política". Um representante do Parlamento do Mercosul (Parlasul), o uruguaio Nicolás Viera, declarou que a candidata não mencionou o tema em conversas no domingo (6).

Os grandes escritórios de advocacia peruanos - que representam as classes entre as quais Keiko tem maior popularidade - devem apresentar nesta quarta pedidos para anular mais de 100 mil votos da esquerda. Tendo em vista que a lei eleitoral proíbe a contribuição de empresas privadas para campanhas, os escritórios buscam um caminho para que as autoridades não considerem seu trabalho com os pedidos para revisão e impugnação de votos como financiamento ilícito para Keiko.

Eles miram o que são chamadas de "atas contestadas", enviadas para análise posterior - até o momento, são cerca de 1.260 - por conta de alguma possível irregularidade, como dados ilegíveis, rasuras e dúvidas sobre assinaturas. Uma primeira análise é feita por juizados eleitorais especiais, com uma decisão final, se necessária, tomada pelo Júri Nacional de Eleições.

Na terça-feira, o presidente dessa corte, Jorge Luis Salas Arenas, afirmou que as revisões serão transmitidas ao vivo, para garantir um processo "independente e imparcial". Ele ainda rejeitou as acusações de fraude, dizendo ser "muito perigoso para o país" pôr em xeque toda uma eleição por conta de alguns incidentes.

Segundo especialistas, o número de pedidos de revisão não é muito diferente do registrado em votações anteriores, mas Keiko alega que a contestação, ocorrida especialmente em áreas onde obteve grande votação, é uma estratégia do grupo de Castillo para "distorcer ou atrasar" os resultados oficiais. Estimativas afirmam que, potencialmente, cerca de 300 mil votos estariam em análise, incluindo nulos e em branco.

Para que a vitória seja oficial, o Onpe precisa contar todas as atas eleitorais e, em seguida, o Júri Nacional de Eleições avaliará os recursos de ambas as partes - algo que pode levar vários dias. Se a eleição de Castillo for confirmada, esta será a terceira derrota consecutiva de Keiko no segundo turno, para Kuczynski e Ollanta Humala (2011-2016).

A cotação do dólar vem subindo nos últimos dias diante das incertezas de um país já turbulento - em cinco anos, foram quatro presidentes diferentes. Se eleito, Castillo promete rever o modelo econômico peruano, que gerou crescimento nos anos anteriores à pandemia, mas criou uma sociedade muito desigual.

"Existem alguns truques como a alta do dólar, que vai subir mais alguns pontos amanhã, do custo do pão, do frango, da cesta básica. Mentira! O que acontece é que há alguma incerteza, mas as pessoas não caem mais nisso", afirmou ele.

Na segunda, Castillo divulgou um comunicado voltado ao mercado, se comprometendo a manter a autonomia do Banco Central e ressaltando que seu plano econômico não inclui medidas como nacionalizações, expropriações e controle de câmbio. Em seu discurso da noite de terça, afirmou que conversou com os empresários, um dos setores mais críticos à sua candidatura:

"Acabo de conversar com o empresariado nacional, que está mostrando apoio ao povo. Vamos criar um governo que respeite a democracia, a Constituição atual. Vamos criar um governo com estabilidade financeira e econômica", afirmou o candidato, que há algumas semanas havia anunciado que convocaria uma Assembleia Constituinte para reformar a Carta, o que despertou uma polêmica no país. (Com agências internacionais).

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