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Motorista acredita que algumas mudanças no aplicativo dariam mais segurança

Arquivo/Meon

 

O motorista da Uber Juliano (nome fictício), 43 anos, contou detalhes ao Meon dos momentos de terror que viveu na madrugada do último domingo (6), quando foi agredido e assaltado por três bandidos.

Ele foi uma das seis vitimas de assalto a motoristas de Uber que aconteceu nesse mesmo dia. Os episódios ocorreram um dia antes do desaparecimento do motorista Marcos Antonio de Faria, de 29 anos, que foi encontrado morto na quarta-feira (9).

 

Meon – A que horas você recebeu essa chamada e em que bairro foi?

motorista - Recebi uma chamada por volta da meia-noite, da Vila Tatetuba, na região leste da cidade, que veio no nome de uma menina. Quando cheguei no endereço, estava tendo uma festa. Não veio nenhuma menina. Três rapazes entraram no carro.

 

Meon – Para onde eles foram?

motorista -Eles me pediram para levá-los ao bairro D. Pedro I, na zona sul.

 

Meon – E você desconfiou que poderia ter algo errado?

motorista - Não desconfiei, em nenhum momento. Fomos conversando no caminho. Eles não estavam bêbados, nem drogados. Também não usavam nem boné, nem toca. Para mim parecia uma corrida normal.

 

Meon – E quando foi que você começou a desconfiar que corria algum risco?

motorista - Quando estávamos na avenida do Imperador, eles me pediram pra passar pela avenida dos Evangélicos, no Campo dos Alemães. E eu fui. Mas até aí, não tava desconfiando de nada. Isso sempre acontecia, de passageiro pedir no meio do caminho para passar em algum lugar antes do destino final.

Quando chegamos no final da avenida o rapaz que estava do meu lado disse pra eu parar que eles iam ficar ali mesmo. A rua estava completamente vazia. Parei. Nesta hora ele anunciou o assalto e sacou uma arma. Eu não tinha visto que estavam armados.

 

Meon – E o que aconteceu depois?

motorista - Um dos rapazes que estavam atrás me deu uma gravata. O outro começou a me bater. Bater muito. E o que estava no banco da frente começou a me revistar e dizia: se estiver armado você morre aqui. Eu disse que não estava armado. Levantei os braços e disse que podiam levar o carro. O outro continuava me batendo, enquanto o comparsa apertava o meu pescoço. Achei que fosse morrer.

Depois que me revistar e não encontrar nada, o que me revistou saiu, deu a volta no carro, abriu a porta do lado do motorista e me puxou pra fora. Quando eu saí ele me chutou com força nas costas. Apontou a arma pra mim e disse pra eu correr. Eu corri sem olhar pra trás. Aí só ouvi ele batendo a porta e arrancando com o carro.

 

Meon – Tudo isso, desde quando anunciaram o assalto até mandarem você correr, levou quanto tempo?

motorista – Uns 10 minutos. Mas pareceu uma eternidade.

Meon - Você tentou reagir em algum momento?

motorista - Não reagi. Pelo contrário. Eu dizia que eles podiam levar tudo. Mas continuavam me batendo. Batiam por maldade mesmo. Sem dó.

  

Meon - Agora que tudo passou, sabe dizer qual foi o pior momento?

motorista - O pior momento foi quando ele me pediu pra correr sem olhar pra trás. Foi a hora que mais senti medo. Lembrei de tudo, da minha mulher, dos meus filhos, e corri. Quando ouvi o carro saindo foi um alívio.

 

Meon – Você acha que tudo isso aconteceu só porque queriam o seu carro?

motorista – Eles não queriam o carro. Queriam dinheiro e celular só. Usaram o carro só pra fugir. Prova disso é que o meu carro foi encontrado no mesmo dia, algumas horas depois, no Jardim Imperial. O meu carro e de todos os outros que foram assaltados no mesmo dia. Todos foram localizados e recuperados.

 

Meon – A Uber bloqueou recentemente as chamadas para a zona sul. Acha que isso pode resolver?

motorista – Claro que não!! O problema não é a zona sul. Essa chamada mesmo em que me assaltaram, foi da Vila Tatetuba. Não é restringindo bairros que a Uber vai dar segurança para os motoristas.

 

Meon – E o que precisa ser feito para dar mais segurança?

motorista – Não sei. Mas uma das coisas que acredito que melhoraria seria se o aplicativo liberasse para o motorista o destino do passageiro. A gente só sabe o destino quando o passageiro entra e clicamos para iniciar corrida. Tínhamos que ter mais informações sobre o passageiro.

 

Meon – E como foi voltar ao trabalho depois do que aconteceu?

motorista – Não voltei e nem vou voltar. Eu esperava um apoio maior da Uber depois de tudo o que aconteceu. Mas a única coisa que fizeram foi depositar R$ 9,95 do valor da corrida na minha conta. Fiquei sem dinheiro, sem celular, machucado. Minha vida vale muito mais que isso.

 

Meon – Você já tem um trabalho?

motorista - Sim. Eu entrei na Uber em março, porque estava desempregado. Mas, há dois meses, estou trabalhando no setor de logística de uma empresa. Ainda continuava como Uber, como complemento de renda.

 

Meon – E como vai ser superar esse trauma?

motorista - Ainda não sei. Vamos tocando, um dia de cada vez.

O Meon tentou falar com alguém da Uber para comentar o assunto, mas não conseguiu contato neste sábado, durante todo o dia.