Alunos

Conto: O corpo assistindo TV

Um investigador entrevista uma garotinha enquanto ela, alheia ao redor, relata fatos que o levarão à solução do desaparecimento de um homem.

Sara Tostes

Escrito por Sara Tostes

20 MAI 2022 - 15H38 (Atualizada em 20 MAI 2022 - 15H49)

Freepik

- Eram quase sete horas da noite quando cheguei em casa. Quarta-feira normal, dia corrido e mil coisas que eu precisava fazer, mas não fiz. Abri a porta com as chaves. Eu adoro chaves, sabia? Na verdade, eu gosto mesmo é dos chaveiros. Minha prima tinha um em formato de gato que fazia barulho de miado e de tanto eu olhar para ele, ela me deu. Eu também tinha um de ampulheta com areia azul dentro. Era bem legal…

- O que aconteceu com o chaveiro?

- Ah, um dia nós fomos almoçar num restaurante que tinha um laguinho de carpas. Sabe aqueles que servem comida japonesa? Nossa, eu detesto comida japonesa. Só de pensar em peixe cru já me dá um embrulho no estômago. Eca… Mas, naquele almoço, eu tentei alimentar as carpas com migalhinhas de arroz e acabei derrubando a ampulheta lá dentro. Eu até tentei pegar, mas antes o papai brigou comigo. E então já não dava mais tempo, virou comida de peixe…

- O seu pai ficou muito bravo?

- Bem, mais ou menos. Naquele dia ele ficou meio bravo. Então ele só me deu um sermão na mesa. Foi bem baixinho porque eu acho que ele estava com vergonha. Mas tinha uns dias que ele ficava bem bravo… Teve uma vez em que eu esqueci o ferro de passar ligado em cima da camisa de trabalho dele. A camisa queimou e ele gritou muito comigo. Ele ficava puto mesmo…Ah desculpa! Eu não posso falar palavrão. Mamãe diz que é coisa de menino. Mas ele ficava fulo quando eu fazia alguma coisa errada. Tipo, errada mesmo. Quando eu comecei a ir para a escola a pé, tinha sempre um homem que cantava na frente dos bares lá perto da Rua Albertina. E as músicas eram legais, mas as letras eram feias. Tinham muitas palavras feias. Eu cantei elas na escola e a professora mandou um bilhete para casa. Assim, quando eu cheguei, ele estava me esperando. Papai pediu para eu cantar e eu cantei. Ele me deu um tapa tão forte, mas tão forte, que ficou até marca na minha bochecha.

- Ninguém viu a marca do tapa?

- Não. Ou se viram não falaram nada. Era normal eu aparecer assim, sempre tinha um roxo na perna ou nos braços. Mas isso porque eu era goleira. Sabia que eu era goleira? Era muito legal. Eu sempre jogava no intervalo e depois na saída da escola. Levava muita bolada. A Mariana jogava também, mas ela não era muito boa. A Rosa era craque. Teve até um dia que ela fez um gol de cabeça, mas passado um tempo depois ela se machucou feio.

- Como ela se machucou feio?

- Ela caiu. Acho que escorregou, ou empurraram… Não lembro, mas lembro que foi muito engraçado. Haha, eu rio só de falar. Mas foi sério, a Rosa abriu o queixo, teve até de tomar ponto. Ficou uma cicatriz irada depois. Eu queria tanto uma igual! Aconteceu que uma vez eu me cortei num caco de vidro e consegui uma no pé! Depois disso, eu ficava só na rua exibindo o corte. Dizia que tinha sido mordida por um tubarão. Morro de medo de tubarão! O senhor já viu o filme?

- Qual filme?

- O do tubarão, ué! Aquele em que ele fica na praia devorando todo mundo. E tem aquela musiquinha tan tan tan, lá. Eu assisti umas dez vezes. Dez não, vinte! Mamãe achava o filme muito sangrento, ela não gostava de sangue. Lembro que quase desmaiou com o caco de vidro no meu pé. O Pedro, meu irmãozinho, coitado, não tem nem quatro anos. Ele não entende de filme, de tubarão, de nada. Por isso ele não gosta de nada ainda, mas eu acho que quando ele crescer, ele vai gostar.

- E o seu pai gosta de filmes?

- Não! Papai nunca foi ao cinema com a gente. Ele dizia que os filmes eram mentiras gravadas que um bobo inventou e que não ia perder nem tempo e nem dinheiro para assistir. Ele só assistia TV. Dizia que preferia ver coisas reais. Ele não perdia um jogo de futebol! Via todos com muito entusiasmo, como se ele estivesse jogando. Eu não podia falar com ele nessas horas. Hora do jogo é sagrada. Se eu falasse, ele brigava.

- Ele não te chamava para assistir junto?

- Papai gosta de assistir sozinho. Eu também só chego depois do início do jogo. Eu estudo de tarde, sabia? Era sempre a mesma coisa. Chegar em casa e ver ele lá, sentado na mesma poltrona, com o bigode grosso cheirando a fumo acima dos lábios e camisa do trabalho desabotoada… uma limpa, não a que eu queimei. Aquela ele jogou fora. Todo dia eu via ele lá. Eu nunca tentei assistir com ele o jogo. Sei lá, parecia coisa dele e a gente não deve se meter nas coisas dos outros. Ainda mais os adultos, mas é engraçado… Você tem se metido muito nas minhas coisas fazendo todas essas perguntas. Sua mãe não te disse que é feio perguntar demais?

- Por que não deveria perguntar demais?

- Não sei. Eu sempre perguntei de tudo. Mudei isso há uns dias só. Engraçado que a mamãe só foi me falar isso agora. Vivi por muito tempo nessa malcriação. Ela só me disse quando eu perguntei sobre o copo fedido da cozinha. Nossa, tinha um líquido dentro dele que parecia café, mas não era, porque o cheiro era amargo e muito forte, tipo desinfetante. Eu ia olhar mais de perto, mas ela me impediu e me deu esse sermão bem bravo.

- E seu pai nunca te disse para responder o que os adultos perguntam?

- Deve ter dito. Não me lembro. Papai estava estranho esses dias. Ele dormiu na frente da TV na quarta-feira e, desde então, não acordou. Eu também não acho que vá acordar. Perdi a paciência de esperar por ele. Hoje é que dia? Sexta? Ou sábado? Eu acho que é sábado. Estou confusa com as datas, sabe? Mamãe me deixou faltar na escola esses dias, e todos eles pareceram sábados.

- Seu pai não acordou?

- Não acordou por nada, nem quando o time dele fez gol. Parecia uma estátua. Eu não falei com ele. Não queria perturbar o sono. Então eu esperei o jogo acabar, mas ele não se mexeu depois disso. Achei estranho. Ele continuava ali parado de costas para mim, não falava nada, não pedia nem um copo d'água. Pensei em chegar perto dele para ver se ele me via. Mas ela não deixou…

- Quem não deixou?

- A mamãe. Eu tentei chegar perto dele, só que então ela me parou e disse para deixá-lo em paz. Falou que ele estava irritado e que precisava de descanso. Eu insisti, e ela me proibiu de chegar perto. Eu fui dormir, passou-se um dia, e ele ainda estava no mesmo lugar. Ele ainda dormia. Na mesma posição, nada havia mudado, nem a TV que ainda estava ligada. Ah, eu vou te contar uma coisa que você não pode contar para a mamãe.

- O que é?

- Eu desobedeci ela. Foi ontem de noite. Aproveitei que ela foi se deitar e fui na ponta do pé até a sala. Me esforcei para não fazer barulho. Ele ainda estava sentado na poltrona. Tudo no mesmo lugar. Do lado dele tinha um copo com alguma coisa, parecia café, mas tinha aquele cheiro ruim que eu falei. Falando em cheiro, tinha alguma coisa fedendo na casa! Do nada, surgiu um fedor podre. Não sei o que era, mas era horrível. Acho que o cheiro me fez mal, porque comecei a me sentir meio frouxa, sabe? Foi aí que eu olhei para o papai. Ele estava muito esquisito. Pálido, pálido igual palmito com a boca entreaberta. O que me assustou foram os olhos dele. Papai tinha olhos azuis iguais ao mar, eu achava lindo de morrer, mas ali eles estavam gelados. Será que o olho fica gelado? Ah, eu não sei do olho, mas ele estava frio. Muito frio mesmo. Ele não respirava quase. Devia ser uma respiração bem leve, porque a barriga dele nem ia para cima e para baixo. Eu tentei chamar ele com a voz bem baixinha, mas ele não ouviu. Tentei cutucá-lo, mas desisti. Para falar a verdade, tocá-lo estava me deixando estranha. Não tendo mais nada o que fazer, eu fui para a cama e dormi.

- Você viu seu pai depois disso?

- Bem, ontem foi a última vez. Hoje eu acordei e fui ver ele na sala, mas ele tinha sumido. Procurei pelo papai em casa, pensando que ele havia acordado, entretanto me enganei. Vai ver ele acordou e foi trabalhar, né? Mas se bem que, se hoje for sábado, ele não pode ter ido trabalhar… Ah, sei lá!

A porta do escritório se abre e um homem baixinho chama o Investigador Menezes para fora da sala.

- Você me dá licença um instante, Lúcia?

- Uhum.

Menezes sai fechando a porta e se vira para o Delegado Freitas.

- Acharam o cadáver na praia, a correnteza deve ter levado. A autópsia apontou para envenenamento como causa da morte.


Com supervisão de Yeda Vasconcelos, jornalista do Meon Jovem. 




Escrito por
Sara Tostes
Sara Tostes

1ª ano do Ensino Médio - Colégio Embraer Juarez Wanderley - São José dos Campos

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