Por Camilla Sampaio Aguilar Em Alunos

Girl from Ipanema x Girl from Rio

Do clássico brasileiro mais famoso da Bossa Nova ao último lançamento da cantora brasileira mais conhecida do país: o que a garota de Ipanema e a garota do Rio representam?

Foto: Anitta/WMG
Foto: Anitta/WMG


O ano era 1962 quando Vinícius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto inspiraram-se na jovem carioca Helô Pinheiro para compor “Garota de Ipanema”, canção que viria a se tornar a grande representante da bossa nova e símbolo da cidade maravilhosa mundo afora. É reconhecida por ser a segunda canção mais gravada no mundo, perdendo apenas para “Yesterday” dos Beatles, além de ter recebido em 1965 o Grammy de Gravação do Ano. Mais de 50 anos depois, em 2021, Anitta é a cantora brasileira mais comentada no cenário mundial e lança “Girl from Rio'', inspirado no clássico da bossa nova e contendo inclusive uma sample da música original.

Apesar da clara referência, “Girl from Rio” veio para quebrar com os estereótipos em relação a mulher brasileira e o Rio de Janeiro comentado no exterior. Enquanto Vinícius, Tom e João Gilberto reverenciam a “moça do corpo dourado” que passa com “um doce balanço a caminho do mar” em Ipanema, Anitta traz mulheres com “grandes curvas”, além da realidade da população mais pobre do Rio ao palco.

O clipe ratifica ainda mais todo o conceito da música, apresentando a dicotomia entre a cidade maravilhosa estigmatizada dos anos 50 e 60 e a realidade no cenário atual. Mostra o Piscinão de Ramos, o transporte público, as marcantes fitas isolantes usadas para bronzeado, e o mais importante: a mulher brasileira. Não a modelo magra e padronizada, nem a latina estereotipada, a mulher real e sem filtros, sem alterações e sem suavizadores de estrias ou celulites. As “mulheres do Rio” são exaltadas de forma inédita e a importância de tal feito é enorme para os movimentos de aceitação e quebra de padrões estéticos.

Outra crítica muito bem construída vem das bases da canção original. A bossa nova é um ritmo marcante de nosso país, contudo, desenvolvida principalmente nos anos 50 durante o governo JK, o ritmo foi uma maneira de embranquecer o samba, trazendo elementos que o aproximava da música americana e que o tornaria mais palatável às elites brasileiras. Essa ação retira de cena os cantores negros e dá vizibilidade a intelectuais brancos em um claro processo de apropriação cultural. Anitta então ressignificou a bossa nova ao incluir ela em uma música contemporânea que trata da vida periférica do Rio em um clipe que quebra com toda a visão artificial da cidade.

Importante destacar que todas as críticas construídas não são direcionadas à composição em si e não pretende menosprezar ou desvalorizar “Garota de Ipanema”. A intenção é se desfazer dos estereótipos advindos de um contexto histórico específico e de uma construção cultural de apagamento do negro, do periférico e da sexualização e padronização do corpo feminino, reestabelecendo a presença dos grupos sociais marginalizados do país no cenário mundial.

A garota de Ipanema e a garota do Rio são, portanto, representações de seus respectivos contextos e vão coexistir no imaginário brasileiro, cada uma com seu viés e significado. A bossa nova segue sendo um patrimônio da cultura nacional, mas é indispensável uma revisitação ao passado e uma análise do “onde” e “porque” as expressões artísticas são desenvolvidas, para que possamos compreender seus significados e reestruturar nossa identidade no cenário mundial.

Com supervisão de Giovana Colela, jornalista do Grupo Meon. 

Escrito por
CAMILLA AGUILAR (1) (Arquivo Pessoal)
Camilla Sampaio Aguilar

3º ano do Ensino Médio - Colégio Embraer Juarez Wanderley - São José dos Campos.

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