Por Renan Simão Em Brasil & Mundo

Caçulinha é um dos pilares da música brasileira

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Caçulinha conta da origem caipira e de gravações clássicas da MPB

DeniseMarcondes/Divulgação

O sanfoneiro Caçulinha é um célebre desconhecido. Estava todos os domingos, durante 25 anos, no Domingão do Faustão. Criava canções comerciais e fazia um papel caricato no programa. Mas o que o grande público não sabe é que o piracicabano esteve presente em importantes momentos da música brasileira.

Em entrevista ao Meon, o baixinho de voz rouca conta histórias do tempo que tocou com Luiz Gonzaga no programa "Sabor Bem Brasil" e fez parte do elenco fixo do programa "O Fino da Bossa", com apresentação de Elis Regina e Jair Rodrigues, em meados dos anos 1960.

Caçulinha, de 73 anos, fala do começo da carreira, no sertanejo. “Sabe 'Índia', da novela 'Primeiro Amor'? Aquela sanfona sou eu”, diz orgulhoso da gravação com Cascatinha & Inhana.

Participou de gravações de Chico Buarque, Gilberto Gil e Roberto Carlos. Também dividiu estúdio com João Donato, Roberto Menescal e Marcos Valle. Mas o que o faz abrir ainda mais os olhos para falar é João Gilberto, o precursor da Bossa Nova. João que, aliás, sugeriu a gravação do disco "Caçulinha na Bossa Nova", de 2005.

“Ele fez uma homenagem pra mim. Toquei com ele em um ensaio e quatro shows em São Paulo. Aquilo era de uma perfeição imensa”, revela.

Em passagem por São José dos Campos, Caçulinha foi convidado para uma apresentação de bossa nova como convidado do músico Chico Oliveira no Sesc.

Para muitos, foi apenas um intérprete de vinhetas em um programa de TV dominical. Felizmente, Caçulinha ainda está na ativa para contar que foi mais.

Como foi o começo com o seu pai e seu tio?
Mariano era meu pai, Caçula era meu tio. E o nome Caçulinha vem dessa homenagem ao meu tio. Era música caipira, tocava sanfona com eles. Depois veio a minha irmã, cantávamos a três vozes, era muito legal. Era o Trio Brasília: eu, meu pai e minha irmã. Gravava guarânia [ritmo paraguaio], cateretê [dança rural brasileira], essas coisas, de tudo. Aí minha irmã casou, teve três filhos e eu só olhando.

Você era bem influenciado com a moda de viola. Quais outras influências teve nesse começo?
Sou caipira, né! A maior influência foi o meu pai, música sertaneja. Foi aí que eu comecei. Gravei, tocando acordeon, com todo mundo que você imagina: Tonico & Tinoco, Tião Carreiro & Pardinho, Cascatinha & Inhana. Todo mundo. Tem “Índia”, da novela Primeiro Amor, aquela sanfona sou eu. Aí foi que eu conheci músicos. Tocava teclado só com uma mão, sanfona. Teclado eu mexo, mas nunca fui especialista.

Você tocou com o Luiz Gonzaga, como foi?
Gonzagão, ah nós fizemos um show juntos chamado “Sabor Bem Brasil”, a Clara Nunes apresentava. Tinha Waldir Azevedo, Altamiro Carrilho, João Bosco e o Gonzagão. Ele era o máximo. Era bom em tudo. Bom músico e contava piada, era muito engraçado.

São mais de 40 anos de carreira dedicados à música. Certo?
Sim, mais de 40. Depois entrei no “Fino da Bossa”, com Elis, Jair Rodrigues, Roberto Carlos. E eu tava ali de pertinho, começando. Eu tinha um regional, o “Regional do Caçulinha”. Roberto Carlos cantava “Amélia”, com a Elis eu gravei “O Bêbado e o Equilibrista”, gravei “Carinhoso”. Com Chico Buarque gravei “A Rita”. Toquei com todo mundo. [risos]

Em 2010, você falava que queria descansar. Como é o ritmo do Caçulinha hoje?
Eu fiquei três anos de molho no Faustão, 25 anos na Globo. Aí eu falei: "Agora eu vou tocar um pouquinho, com o Chiquinho [Oliveira] aqui". Um bom músico que sabe das coisas.

Queria que você falasse sobre o CD “Caçulinha na Bossa Nova”. Com muitas participações, João Donato, Roberto Menescal, Marcos Valle. Como foi a gravação?
Ah, foi importantíssimo, foi uma festa. Cada um que chegava era uma festa no estúdio, contando piada. Falavam: 'Gente, faz mais de duas horas e meia que vocês estão aqui!', aí a gente gravava. 

Você sempre gostou de Bossa Nova?
Sempre. Eu tenho uma coisa que pouca gente sabe, ele não deixou ninguém filmar. O João Gilberto fez uma homenagem pra mim numa casa de show que tem em São Paulo, no Santo Amaro. Eu toquei com ele em um ensaio e quatro shows. Toquei teclado e acordeon. 

Lembra que ano foi isso?
Ah, faz uns dez anos. Mas foi bom demais. Eu conheci o João na Odeon, eu tocava lá com o maestro Luiz Arruda Paes. Aí quando eu fiz um programa no Jô Soares, ele viu, me mandou localizar e toquei com ele. Nossa, eu nunca vi perfeição maior! 

Ele era exigente com você? 
Ele é implicante. Eu fui tocar com medo, juro por Deus. Mas não é que ele seja malcriado, ele falava: “Caçula, não é que eu seja chato, mas é que os caras não entendem”. 

Mas como surgiu a ideia do disco?
A ideia foi do Ricardo Leão, um maestro da Globo. Ele falou: “Ninguém toca Bossa Nova de acordeon”. Aí eu falei: “Vou tocar”.

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