Alunos

Conto de terror: A igreja esquecida pelo tempo

Pesadelos de uma noite sombria

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Escrito por Pedro Tolentino Rezende

22 DEZ 2021 - 14H19

Reprodução

Sob o véu astroso da madrugada, saía William de sua casa em direção ao que, há muito, se fez esquecido. Um homem medíocre, rijo, de aparência austera, mente limpa e fortes ideias. William decidiu tornar-se um investigador autônomo aos 22 anos: foi por influência de uma colega, durante o segundo semestre da faculdade de Jornalismo, que dentro de sua cabeça despertou-se um ávido sentimento de dever com a busca por respostas. A cada investigação bem-sucedida atribuídas ao seu nome, o ego lhe consumia por inteiro, e pouco a pouco ele criou a imagem de si mesmo como o homem que traria o resplendor glorioso da verdade ao mundo.

Apesar de sua visão idealizada de seus objetivos, William estava, no presente momento, sem capital para orquestrar grandiosas investigações com equipamento de ponta. Assim sendo, por volta das 22h30min de uma quarta-feira, o rapaz terminou seu jantar e saiu para uma investigação de menor tamanho, com uma pequena lanterna no bolso, seu smartphone, uma câmera emprestada de um primo, alguns saquinhos plásticos para a coleta de possíveis evidências, um bloco de notas e um cantil.

O rapaz ligou seu carro e começou sua investigação: ele já havia passado dois dias em um vilarejo, no interior de Minas Gerais. Apesar de pequena, atualmente, a cidade havia sido um centro para imigrantes, durante o período colonial com a ‘Febre do Ouro’, sendo três vezes maior em tamanho do que quando William chegou.

Por esse motivo, muitas histórias daquele período ainda são contadas pelos moradores do vilarejo; alguns alegam que os arredores da cidade são assombrados, porque, com o declínio do ouro na região, uma onda de pobreza assolou os moradores, pobreza que levou à fome, fome que levou ao desespero e à morte.

William nunca tinha entrado em contato com algo do tipo antes e, após tomar conhecimento dos relatos de alguns dos moradores, ele decidiu investigar os arredores da cidade que tanto haviam falado. Após cerca de trinta minutos, em uma estrada principal, o rapaz passou para uma estrada de terra e a sua precariedade acabou fazendo com que um dos pneus traseiros do carro ficasse preso em um buraco.

Agora, sem carro, William deveria fazer o caminho a pé - uma mistura de frustração, raiva e insegurança subitamente o atacou. Nem uma alma viva por perto e a penumbra da noite cada vez mais densa deixaram-no consideravelmente mais nervoso do que ele esperava ficar. Sem dúvida, aquilo era um golpe no estômago para ele.

Mas aquele não seria ele se não retomasse o fôlego e fosse em frente. “Eu tenho um objetivo”, dizia ele a si mesmo, enquanto caminhava vagarosamente e com bastante cautela pela escuridão da noite, em uma estrada rural de um município que sequer lembrava o nome direito.

Somente com sua lanterna de bolso para iluminar o caminho, William sentia-se como um farol em meio à tempestade. O foco da luz em meio à escuridão sem fim e, certamente, o foco das atenções de tudo e todos que, por entre os arbustos e atrás das árvores, estivessem vigiando-o.

Nunca antes se sentiu tão observado. A sensação lhe subia por toda a espinha, suas mãos estavam encharcadas de suor, a lanterna mal podia se manter fixa, sem que lhe escapasse de um dos dedos. Ele fechava os olhos periodicamente e implorava a Deus que aquilo não fosse nada além de um pesadelo. Mas a cada vez que abria os olhos para constatar se era ou não verdade, ele se deparava com a mesma visão perturbadora.

O silêncio da madrugada soava tão danoso à sua sanidade quanto o mais forte dos ácidos quando em contato com a pele. Ele não escutava nada e, ao mesmo tempo, tudo. O barulho dos troncos dos eucaliptos estalando, o vento balançando as folhas e as copas das árvores e volta e meia algum animal que desconhecia se fazia presente ao longe, por meio de um grito ou qualquer barulho que fosse. Ele estava tão concentrado na situação que, pela primeira vez, o barulho de sua respiração pesada passou por sua cabeça. Cada passo custoso que dava na gélida estrada de terra, aparentemente infinda, parecia como se estivesse rumando para algo irreversível em meio à escuridão.

Depois de aproximadamente meia hora, que se passou como décadas, o rapaz havia, enfim, chegado ao destino final. Ainda impactado pelo que acabara de passar, ele lembrou-se de que, dentre os itens que trouxe, havia um cantil, quando o colocou nas mãos, percebeu que elas tremiam. Ele tentou ignorar e deu algumas goladas. Na hora de fechar o cantil, a tremedeira era tanta que lhe custaram três tentativas para encaixar a tampa com o bico.

William, então, sentou-se na estrada e, de olhos fechados, tentou retomar o controle da situação. Respirou fundo e pensou consigo mesmo que estava mais perto do que nunca de completar sua primeira investigação. O rapaz pôs-se de pé e decidiu seguir em frente. Agora, dentro dos limites da cidade velha, o rapaz começou a andar pelas ruas de terra do vilarejo vazio; os casebres de madeira eram visivelmente de outro século, ainda que numerosos; as edificações não eram lá muito grandes: ele entrou em algumas das casas e tirou fotografias.

Cadeiras caídas pelo chão, crucifixos nas paredes, utensílios de cozinha rudimentares, as casas estavam repletas dessas coisas, algo que, por si só, lhe chamou muita atenção de início, mas ele não conseguiu ignorar a igreja abandonada e seu imponente campanário ao final da cidade. Quando se aproximou da igreja, o sentimento de que estava sendo observado voltou à tona. Ele sabia que poderia não ser nada, mas sua cabeça o colocava em dúvida se estava realmente sozinho.

Em alguns passos, ele alcançou a porta da igreja, uma porta de madeira antiga e pesada, consumida pelo tempo e pelos mais variados insetos. William respirou fundo e, lentamente, abriu a porta da igreja. O ar pesado e salobro dentro da estrutura o deixou estonteado por alguns segundos; a escuridão dentro da igreja fazia parecer com que a noite lá fora fosse um dia ensolarado. William, então, pegou seu bloco de notas e junto da lanterna, passou a descrever tudo o que via, e com a câmera tirou algumas fotos.

A atmosfera dentro da igreja, apesar de nada reconfortante, passou a ser menos tensa, conforme ele explorava o local. Tudo ia bem, até que, enquanto examinava o altar, escutou um grunhido vindo de baixo de si. O coração disparou e, de uma hora para outra, milhares de hipóteses tenebrosas lhe passavam pela cabeça. Ele não entendia de onde veio o barulho, até que abriu uma porta pequena à esquerda do altar, que levava a uma escadaria de pedra para baixo.

O medo chegou ao fundo de sua alma: ele pressentia algo terrível a esperar-lhe lá embaixo; mas, de alguma forma, sem mesmo que pensasse no que estava fazendo, William tomou posse de um dos crucifixos no altar e começou a descer a escadaria misteriosa. Passo após passo, o silêncio abismal passou a tomar conta do ambiente ao seu redor - não havia mais brisa vinda do lado de fora. Se antes havia algo que se pudesse chamar de luz exterior, esse algo não existia mais. Com a lanterna em uma das mãos e um crucifixo na outra, ao final da escadaria, ele encontra uma porta de ferro entreaberta.

William parou assim que viu a pequena porta; o medo pela vida era, pois, mais real do que nunca. Talvez apenas agora ele percebera que ninguém sabia de sua ida àquele lugar e, caso precisasse de ajuda, recorrer à polícia não seria bem uma opção. Ainda assim, a curiosidade que lhe tomou a cabeça desde o início de sua jornada poderia ser sanada por inteiro com o que houvesse atrás daquela porta. William recitou algumas preces de que se lembrava, respirou fundo e entrou.

Assim que passou pela porta, deu de cara com um ambiente completamente diferente do que jamais havia visto antes: a porta que abriu deu para um longo corredor subterrâneo, embaixo da igreja. Esse corredor contava com várias portas de ferro com trancas para o lado do corredor - ele se aproximou de uma das portas e, assim que a abriu, deparou-se com imagens de santos, e diferentes instrumentos de tortura banhados em sangue; algumas ossadas preenchiam o canto do cômodo.

Aquela visão tornou todo aquele ambiente vinte vezes mais perturbador para o jovem rapaz, uma náusea tomou conta de si! O efeito dos horrores que viu só passou a partir do momento em que saiu da sala. Depois que se recompôs, tomou uns goles de seu cantil, respirou fundo o ar pesado do abafado corredor, e voltou para dentro do cômodo para relatar detalhes. Tirou algumas fotos do que achou importante e partiu para o próximo cômodo e, assim, suscetivelmente. E logo constatou que todos os cômodos se tratavam da mesma coisa, aquela igreja havia servido como parte da inquisição, durante o período colonial, constatou ele. Enquanto deduzia a utilidade de todo aquele aparato horrendo, o silêncio sepulcral fez-se quebrado por passos pesados e um choro que se aproximava cada vez mais.

William ainda tinha a cabeça cheia de dúvidas não esclarecidas, mas algo era mais que certo para ele, agora: ele não estava sozinho. Ele, então, entrou em um dos cômodos que havia vasculhado mais cedo e apagou a lanterna. Lá, ele ficou quieto, em uma das extremidades do cômodo. Enquanto se escondia, o barulho se aproximava cada vez mais, tudo que lhe restava era ficar calado e torcer para que seja lá o que fosse aquilo não o encontrasse.

Ele ficou inerte no cômodo durante alguns minutos, sozinho, trêmulo, no escuro, até que o barulho cessasse. A partir do ponto em que não ouvisse mais nada além de sua própria respiração ofegante, ele decidiu sair dali. Cautelosamente, foi caminhando até a porta do cômodo e olhou para o final do corredor. Foi nessa hora que William se deparou com uma das cenas mais assustadoras de sua vida: uma figura sombria, em vestes de monge, estava parada no final do corredor, de costas para ele. O monge, enquanto cercado de velas, proferia frases em latim, com uma adaga em uma das mãos e um crucifixo na outra.

Ele parecia estar exorcizando alguém e, quando o rapaz olhou mais ao fundo do corredor, avistou um homem acorrentado em uma das camas de tortura, implorando pela vida. O monge não parecia dar-lhe ouvidos; então, em uma questão de minutos, o monge terminou o que recitava e, com uma precisão cirúrgica, começou a sessão de tortura no pobre homem acorrentado. William passou a questionar a própria realidade, não acreditando no que passava à frente de seus olhos. Ele cogitou fazer alguma coisa para salvar o homem. Porém, o medo era tanto que ele não tinha forças para fazer nada além de tentar salvar a si próprio. “E se houvesse mais monges...” pensou ele. Então, abandonou o silêncio e correu para a escadaria; durante esse breve espaço de tempo, sem que percebesse, deixou que a câmera caísse de seu bolso, atraindo, assim, a atenção do monge para si, mas William sequer prestou atenção, somente correu para a porta de ferro da escadaria e a fechou.

Uma vez na escadaria, o rapaz, horrorizado, saiu tropeçando e cambaleando pelos degraus frios da escada de pedra, mas não parou por um segundo que fosse. Assim que subiu as escadas, ele chegou no altar da igreja e com uma velocidade sobre-humana, atravessou a igreja de uma ponta a outra em uma dúzia de passos.

William saiu da igreja e, uma vez lá fora, deparou-se com uma chuva leve o esperando; o rapaz, ignorando tudo ao seu redor, saiu o mais rápido que pode da cidade abandonada e voltou para o seu carro que, previamente, havia abandonado na estrada. Seja pelo pânico ou qualquer outro fator, ele empurrou o carro com tanta força que conseguiu, por conta própria, retirar a roda traseira do buraco e, assim, saiu o mais rápido que pôde daquele lugar amaldiçoado.

Semanas se passaram desde o acontecido e William ainda não acreditava no que havia visto. Volta e meia ele acordava com pesadelos relacionados àquela noite sombria, e se pegava ponderando sobre acreditar ou não no que os seus olhos lhe contavam. O rapaz, então, decidiu juntar um conjunto de anotações que fizera na fatídica noite em questão, e comunicou às autoridades locais de algo que poderia ter visto naquela igreja. Alguns dias depois, a polícia comunicou ao rapaz que abandonaram o caso, pois não haviam localizado a tal igreja relatada por ele.

 William foi tido como vítima da loucura: nunca mais seria o mesmo após aquela noite - pesadelos tornaram-se corriqueiros para o rapaz, as paredes de pedra, o ar gélido, o sangue por toda parte, as centenas de ossos e os gritos estridentes de dor dos que lá eram torturados jamais lhe escapariam da memória. Aquela visão o atormentaria por décadas, pelo resto de sua vida.

Com supervisão de Yeda Vasconcelos, jornalista do Meon Jovem.





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Pedro Tolentino Rezende

1º ano do ensino médio - Colégio Objetivo Aquarius - São José dos Campos

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