É fato: inúmeros gestores tomam decisões que são verdadeiros desserviços para a sociedade – mas, falo daquela em que o coletivo se sobrepõe ao individual. Tomada a desacertada decisão, provoca-se (eis a pior parte) a legitimação de ideias e comportamentos agressivos em vez da maior tolerância dentro da vida em grupo, aquela que exercemos na cidade. E o que isso tem a ver com mobilidade urbana? Tudo.

Vamos então a um exemplo concreto, que se relaciona diretamente à coluna passada que, entre os assuntos, destacou a forma como nos comportamos, enquanto motoristas, diante das faixas de pedestre (aquelas sem semáforo). Mas, antes é preciso destacar algo que, na certa, foi ignorado por completo pelo nosso atual prefeito Felicio Ramuth (PSDB), quando, no início do ano, ele tomou a decisão de voltar o limite de 50 km/h na avenida Nove de Julho (a gestão passada,  reduziu o limite da via para 40 km/h).

Tenho certeza que Felicio Ramuth sabe sim que a OMS (Organização Mundial da Saúde) definiu esta como a Década de Ação pela Segurança no Trânsito. Portanto, mundo afora gestores vêm se comprometendo a tomar medidas para reduzir em 50% os níveis de mortalidade e lesões de trânsito e, uma delas, que envolve diretamente a segurança viária - e, de quebra, promove ainda maior estímulo aos modos ativos de transporte - é a redução dos limites de velocidade. Falando às claras: é, finalmente, uma simples medida que deixa de priorizar o veículo em detrimento da circulação das pessoas.

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Aumento da velocidade na 9 de Julho não valoriza o pedestre

Divulgação/PMSJC

Ao tornar o trânsito mais calmo nas vias, as pessoas se sentem mais confortáveis e seguras para usarem a bicicleta ou simplesmente se deslocarem a pé. E cabe reforçar o seguinte: hoje, com o aumento da expectativa de vida dos brasileiros e com os processos necessários de inclusão, passamos a ver mais pessoas especiais caminhando pelas ruas e também idosos - grupos por sua vez, mais sujeitos à locomoção reduzida. Portanto, o trânsito mais calmo se configura ainda como uma importante ferramenta de inclusão social.  

Agora, retomemos o cenário da Nove de Julho: a presença do comércio local e dos serviços, bem como o próprio parque Vicentina Aranha bastante frequentado pela população movimentam um grande fluxo de pedestres tanto na avenida como nos arredores. Até mesmo quem chega por ali motorizado, ao estacionar seu veículo, se movimentará também a pé. Portanto, o pedestrianismo que se revela como um expressivo aspecto local não foi devidamente valorizado (de acordo com as próprias tendências mundiais a favor da VIDA), a partir do momento em que voltamos aos 50 km/h. E o que é pior: sequer foi dado o necessário tempo de sentir, na prática, os benefícios coletivos oriundos da redução da velocidade máxima. E isso, por si só já deseduca e engrossa o coro dos mais resistentes, pois eles usarão tal aspecto como argumento de que o êxito está em deixar como “já estava”.

Agora o que me intriga é que na mesma avenida, há faixas de pedestre (como aquelas sem semáforo que citei na última coluna) que ainda não são devidamente compreendidas pelos motoristas.   Não tenho dúvida de que a própria velocidade mais acalmada – uma medida, inclusive pouco onerosa aos cofres públicos – caso tivesse sido mantida já seria um facilitador no processo de assimilação e readequação comportamental perante tais faixas. Passando a 40 km/h se tem mais tempo, inclusive, de notar o que há ao nosso redor. Assim, ao ver um pedestre ali no meio-fio, a desaceleração e freada, antes da faixa, seriam mais suaves.

Mas, não... São José ganhou, logo de cara, esse desserviço que evidencia o quanto as disputas políticas e os interesses individuais se sobrepõem aos benefícios coletivos da nossa urbe.