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Deficiência adquirida, o dilema da amputação e suas imposições

Mateus Lima – Professor e pessoa com deficiência visual (Arquivo Pessoal)

Escrito por Mateus Paulo de Lima

26 AGO 2021 - 16H35 (Atualizada em 26 AGO 2021 - 18H06)

Marcello Casal Jr./Agência Brasil Pessoa Com Deficiência - Marcello Casal Jr. Agência Brasil (Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Oi gente. Desejo-lhes paz e saúde. Desculpe a demora. Aqui em casa todos contraímos Covid-19, mas devido a segurança de já estarmos vacinados, os sintomas nos foram leves e de fácil superação. Mesmo minha mãe e irmão possuindo severas comorbidades, também eles reagiram super bem. Quando chegar sua vez, vacine-se. Contudo, vamos ao tema.

Visitando um posto de saúde para fazer o teste da covid, cego e desatento, eu cumprimentei uma moça cadeirante com quem havia interagido durante a espera para o atendimento. No entanto, ela não retribuiu. Diante da minha mão estendida em saudação, educada, mas constrangida, ela me explicou que sua deficiência derivava de acidente automobilístico. Além de herdar a cadeira de rodas, ela também perdera alguns dos dedos e boa parte do movimento dos braços. Desconcertado, eu havia entendido e não insisti no cumprimento. Me desculpei e voltei para casa onde, nos dias seguintes, pude aprender muito com o que estudei sobre esse tema tão sensível. Como nem sempre a deficiência é de nascença ou desenvolvida, levantei as principais questões sobre amputação e respondo aqui as interrogações que elegi, partindo de pontos de vista médicos de profissionais da área. Comecemos cautelosamente pelo viés quantitativo.

Qual é a taxa de amputações no Brasil? Estudando dados previdenciários e de associações médicas, quando comparados com outros países de características aproximadas como, por exemplo, México ou Austrália, é possível concluir que, no Brasil, os números de amputações se revelam espantosamente acima da média mundial. Além da subnotificação, contribuem para este quadro ruim, especialmente as questões de violência no trânsito, doenças com potencial degenerativo negligenciadas, a precarização das condições de trabalho e sua falta de fiscalização, dentre outros agravantes. Números de mutilações que poderiam ser evitadas com cuidados simples ou consciência.

Como definir o que é uma amputação? Trata-se da extração total ou parcial de membros, órgãos, tecidos ou ossos que culmine em perda ou redução funcional destes.

Uma amputação é sempre uma decisão ruim? Longe de ser unanimidade, muitas vezes a decisão de amputar um membro ou um segmento do corpo humano comprometidos, integra uma estratégia médica que objetiva construir ambiente clínico favorável, visando melhorar a qualidade de vida do indivíduo para o futuro. Esse preparo também pode incluir implantação de próteses, arranjo cirúrgico de membros e/ou órgãos, reconstrução de tecidos, dentre outras possibilidades.

Quando uma amputação é considerada positiva? Obstante de um insucesso ou um erro de tratamento, em vários casos, a medicina apresenta a amputação como uma alternativa razoável e segura. Uma perspectiva que, embora demande a necessidade imediatista de mutilar partes do corpo, representa uma estratégia resolutiva/preventiva que pode evitar desde a proliferação de doenças graves, até o avanço de necroses ou infecções bacterianas. A longo prazo, isso pode poupar o paciente de agravantes.

Como é que o organismo reage diante de um membro ou órgão removido, ainda que parcialmente? Sobre remoções, são muitas as possibilidades, mas em se tratando de amputação, como cada organismo é único em variações de metabolismo, reação antibactericida, sintomatologia e resultados pós intervencionistas, é razoável supor que essa resposta sempre será individual, única para cada realidade. Porém, diante de um tratamento que demande a amputação como uma intervenção cabível, quando possível, um fator relevante também está no prévio preparo físico, biológico, psicológico e emocional do paciente.

O que é a chamada dor fantasma? Dor fantasma é quando, diante de uma amputação, o cérebro demora a entender que perdeu uma parte do organismo que administra, permanecendo em sua atividade neurológica uma sensação dolorosa. algo como se ainda houvesse aquela parte ligada ao corpo, continuando a doer, coçar ou produzindo outros sintomas de sua presença. Entretanto, também nesse aspecto, atualmente a medicina já aponta para a patologia do membro fantasma como um problema real para o qual já existem remédios eficazes.

O que acontece depois com aquela parte amputada? Via de regra, para o descarte de partes do corpo humano, existem protocolos rígidos sobre o armazenamento, a retirada hospitalar, o sepultamento ou mesmo um procedimento autorizado de incineração desse “pedaço”. Essa questão requer um processo minucioso de rejeite que envolve documentação, certificação, autorização e plena consciência/acompanhamento por parte do paciente amputado e do profissional médico responsável pela extração. Tudo deve acontecer e ser acompanhado a luz das questões sanitárias e da lei.

No Brasil, quais são as principais causas de amputações? Além do trânsito e acidentes de trabalho, também doenças vasculares, tumores e má formações congênitas, vitimam bastante as pessoas. Temos ainda a diabetes descontrolada que se apresenta como um elemento hiper causador de amputações de dedos ou membros. Outro mal que é pouco divulgado, mas que mutila centenas ou até milhares de brasileiros todos os anos, está no uso amador e irresponsável de pirotécnicos como fogos de artifícios, rojões e bombas caseiras, quase sempre fabricadas e revendidas ilegalmente.

Como prevenir uma amputação? Além de tomar cuidados simples com a segurança no trânsito ou no trabalho, todos nós podemos nos manter atentos com o diagnóstico precoce de doenças, não vacilarmos diante de pirotécnicos, prevenirmos choques elétricos, quedas e, especialmente, buscarmos imediatamente um médico quando nos surgirem quaisquer infecções bacterianas ou ferimentos esporádicos em dedos, pés ou qualquer outra parte do nosso corpo. Além disso, o acompanhamento e cuidados pós cirúrgicos após todo tratamento, também contribui enquanto prevenção.

O que faz e qual a função de um fisiatra? Parceira, em especial da ortopedia e da fisioterapia, a fisiatria é uma especialidade médica responsável por definir a melhor opção de prótese e pensar nas estratégias para uma boa reutilização de membros e funções corporais pós cirúrgicas. Trata-se do especialista que acompanha os estágios de recuperação para o paciente e o orienta em sua reabilitação. Baseando-se no estilo de vida da pessoa, Fisiatra é o profissional que pensa no depois, no treinamento para a retomada das atividades e no melhor convívio social a partir da prótese definida.

Antes e depois da amputação, como pensar em qualidade de vida? Primeiro é importante investir na estratégia clínica, considerando como se dará a extração daquela parte do corpo e a posterior reabilitação do paciente. O médico deve indicar como será o procedimento de ressecção já avaliando a facilitação futura para ganho de força, de ângulo ou de função do membro ou órgão afetado, providenciando ainda uma boa atenção psicológica e emocional. Também são atitudes importantes para o sucesso do tratamento, promover o preparo nutricional prévio do corpo com iniciativas de emagrecimento saudável e ganhos físicos, bem como antevê adaptações estruturais nos principais ambientes de permanência e convívio do paciente, como em casa ou no trabalho. Depois da amputação, vem a cicatrização/reabilitação e em todas essas fases, deve se preservar ao máximo os movimentos e funções da região afetada.

Diante do exposto, espero ter abordado alguma dúvida em comum com sua expectativa e contribuído para que você conhecesse um pouquinho mais sobre o tema amputação. Interaja e traga sua opinião. Não se omita. Contate: escrevereincluir@gmail.com. Curta a página e se atualize com o MEON. Abraços.

Escrito por
Mateus Lima – Professor e pessoa com deficiência visual (Arquivo Pessoal)
Mateus Paulo de Lima

Professor e pessoa com deficiência visual

Graduado em pedagogia. Pós graduado em: Ciências Sociais pela PUC Rio e Políticas Públicas pela PUC DF

Atuou 10 anos como professor da rede estadual do Estado de Rondônia nas disciplinas de Sociologia, Filosofia e Educação Especial

Atualmente trabalha com palestras motivacionais

escrevereincluir@gmail.com

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