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“Dois Estranhos”: uma ficção sobre a realidade racista

Entenda mais sobre o filme vencedor do prêmio Oscar

MIRELLA BORIM

Escrito por Mirella Borim Lima

26 MAI 2021 - 11H28

Foto: Reprodução/Netflix Dois estranhos netflix (Foto: Reprodução/Netflix)

"Dois Estranhos" (“Two Distant Strangers”) é um curta-metragem de ficção científica e drama dirigido por Travon Free e Martin Desmond Roe. Lançado no Brasil dia 09 de abril pela plataforma de streaming Netflix, o filme conquistou no último domingo de abril (25) o prêmio "Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live Action". Em apenas 32 minutos, a obra desenvolve uma trama impecável ao redor de problemáticas que persistem na sociedade: o racismo estrutural e a violência policial.

Interpretado pelo rapper Joey Bada$$, o protagonista da história ambientada em New York é o designer gráfico Carter James, que, após passar a noite com Perri (Zaria), só deseja voltar para casa e ver seu cachorro. A primeira cena vista é Carter deitado, com a câmera próxima a seu rosto e a imagem vertical, dando a impressão de que ele está em pé - e criando a insinuação de que futuramente cairá.

Ainda nos minutos iniciais, indo para casa, Carter para na calçada para pegar um cigarro na mochila, e, sem perceber, derruba dinheiro no chão. Em seguida, ocorre um acidente envolvendo outro pedestre e o policial Merk (Andrew Howard) se aproxima, perguntando se havia algum problema. Carter, fumando, tenta explicar o ocorrido, mas é interrompido pela autoridade, a qual implica com o cheiro do cigarro, e, percebendo o dinheiro caído, pergunta sobre a profissão dele. A série de perguntas se transforma em uma abordagem agressiva e, como o jovem protesta, o policial recorre à violência. Enquanto uma mulher grava a situação, mais dois policiais se juntam a Merk e não só imobilizam, mas como também estrangulam Carter até a morte. Repetidas várias vezes, "Não consigo respirar" foram suas últimas palavras.

Em uma referência explícita aos casos de George Floyd e Eric Garner, Carter James também morre sufocado pelo racismo e pela violência policial. Na ficção de "Dois Estranhos", entretanto, após ser assassinado, a vítima acorda novamente na cama de Perri e se vê revivendo o mesmo dia. Com uma nova chance, Carter muda suas ações e tenta de várias maneiras ter um final diferente. Contudo, ainda é morto.

Ciclicamente, Carter revive a morte e a partir disso tem-se a premissa do filme: um loop interminável de racismo, violência, homicídio. Historicamente injustiçadas, as comunidades afrodescendentes sofrem os efeitos do racismo estrutural, enraizado no inconsciente coletivo, bem como observado, por exemplo, na sociedade estadunidense. Não somente na ficção como na realidade, negros são alvos de brutalidade policial e o propósito da obra de Free e Roe é denunciar tal problemática, a fim de causar impacto e mobilizar mudanças sociais.

Na 99º vez que vive incontáveis tipos de morte, Carter tenta conversar com o policial Merk. Em um inédito ato de “bom mocismo”, o antagonista aceita levar Carter em casa. Enquanto estão no trânsito, finalmente, tem-se uma conversa supostamente sincera com o personagem de Andrew Howard. Os dois têm a oportunidade de se conhecer melhor e o diálogo busca estabelecer uma conexão empática com o vilão da história. De tal forma, a relação quase amigável das personagens por um momento propõe reflexão e sugere que o protagonista tenha um fim justo, e, exatamente por isso, as cenas seguintes são tão cruciais para a conclusão da mensagem do curta.

A dupla chega ao endereço de Carter e é evidente que Merk estaciona em uma área proibida, para mostrar o abuso de autoridade e a prática de crimes por policiais. O jovem agradece, mas, antes de poder voltar ao seu cachorro, o policial saca sua arma. Um, dois tiros. Carter cambaleia e cai no chão, morto mais uma vez pelo policial Merk. Como forma simbólica de protesto, o sangue do assassinado desenha o mapa da África no asfalto, assim, "Dois Estranhos" mostra que o homicídio de Carter James não é um caso isolado e que sua morte representa a morte de milhares de pessoas negras, seu sangue é de toda uma nação étnica, de uma luta histórica e atual.

Toda a idealização de bondade do personagem Merk é imediatamente desconstruída, tática totalmente proposital, com o intuito de combater a ilusão de que existem justificativas para práticas racistas. Por esse motivo, as falas finais do policial são "Eu te vejo amanhã, garoto", admitindo seu conhecimento sobre a situação, uma vez que, como provado por “Dois Estranhos”, a sociedade inteira é participante e responsável pelo loop eterno de racismo.

O curta-metragem, em relação aos detalhes técnicos, não poderia ser melhor na composição cenográfica e musical. A fotografia é apelativa e o enquadramento da câmera exerce um trabalho excelente em se movimentar de acordo com o enfoque da cena, acompanhando desde a respiração até os movimentos bruscos das personagens. Sendo assim, a gravação é sensível, inclusive trêmula ou desfocada, o que faz diferença na captura da cena e, por conseguinte, na percepção do espectador.

Igualmente, a trilha sonora se encaixa acertadamente nas cenas. Em especial, quando Carter chega em casa com a carona do policial, a melodia toca: “[...] You are the child of color/ The sun is your old friend/ You are a child of victors/ Let the victory begin/ I want you to know/ You're not alone, no way” (“Você é a criança de cor/ O sol é seu velho amigo/ Você é uma criança de vencedores/ Que comece a vitória/ Eu quero que você saiba/ Você não está sozinho de jeito nenhum”). O trecho, aparentemente produzido pela equipe do filme, exerce a elevação de expectativa dos espectadores, para, depois, anulá-la, impactando a audiência com mais uma morte.

Nos minutos finais, a música “The Way It Is” de Bruce Hornsby toca e o vencedor do Oscar nos apresenta uma última lição, listando 65 nomes de Carters, incluindo Eric Garner e George Floyd. Acompanhando os créditos, o próprio Joey Bada$$ canta “Two Distant Strangers”, música exclusiva do filme, a qual merece destaque e impressiona com uma letra marcante.

Sem dúvidas, o filme desenvolve um baque de realidade, cru e sem romantizações, efeito que, por alguns, pode ser considerado demasiadamente violento e desnecessário. Em minha opinião, as cenas de violência estão longe de serem superficiais, e, pelo contrário, se aproximam fielmente da realidade. Admito que o curta-metragem pode ser chocante a certas pessoas, mas recomendo e espero que todos os cidadãos do mundo tenham a oportunidade de assisti-lo ao menos uma vez na vida. Longe de ser apenas uma ficção científica, “Dois Estranhos” é uma denúncia que clama por atenção social e, ao ganhar um Oscar, dá um passo à frente no caminho ao reconhecimento e à desconstrução do preconceito racial.

Por fim, citando o rapper, ator e compositor estadunidense Tupac Amaru Shakur, o verso da música “Changes”, que, inclusive, serviu de inspiração e referência para o título (em inglês) do curta-metragem, finaliza a obra. “Learn to see me as a brother instead of Two Distant Strangers” (“Aprenda a me ver como irmão em vez de sermos dois estranhos distantes”).

Portanto, que aprendamos a nos ver como irmãos, ao invés de Dois Estranhos.

Com supervisão de Giovana Colela, jornalista do Meon Jovem.

Escrito por
MIRELLA BORIM
Mirella Borim Lima

2ª ano do Ensino Médio - Colégio Embraer Juarez Wanderley - São José dos Campos, SP

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