Por Iolene Lima Em Blog e Colunas Atualizada em 13 SET 2020 - 18H30

O retorno às aulas presenciais no contexto da pandemia da Covid-19

A escola jamais será a mesma e alguns de seus processos também não

A pandemia causada pela Covid-19 tem trazido desafios imensos aos diversos setores econômicos, incluindo o educacional, tanto no Brasil como no mundo. Mais de 191 países fecharam suas escolas e cerca de 1,3 bilhão de estudantes diretamente afetados.

Com a quarentena, veio a restrição da movimentação e o isolamento social. Os lugares, que antes frequentávamos para “descarregar o estresse”, que nos traziam alegria ou interação com outras pessoas, como parques, shoppings, cinemas, deixaram de existir, temporariamente. Passar de carro rumo ao supermercado, por ruas quase desertas foi, realmente, chocante e afetou seriamente muitas pessoas. E, aí, a escola fechou! Os relacionamentos foram alocados para o mundo virtual e, para lá, foi a escola também. O mundo dos abraços, do contato físico, dos beijos, o modo “recepção latino” foi substituído por acenos, balançar de cabeças, máscaras nos rostos e sensação de medo, em alguns momentos. O incerto se instalou. O medo, para  muitas pessoas, estava centrado no que se via, na violência explícita, por exemplo. Hoje, o medo encontra-se focado em algo que não vê, reaprendemos o que é vírus, que a vida não é perene e que a família é extremamente importante. Estávamos no modus operandi “correria ao excesso” e a Covid-19 parou-nos por completo!

Saímos dos ambientes escolares, com carteiras e lousas, laboratórios preparados e salas de robótica cheias de peças de montar, para dentro das casas dos nossos estudantes e eles das nossas. No lugar de carteiras, vimos escrivaninhas ou mesas improvisadas, para o “momento dos estudos”. Trocamos as lousas digitais por notebooks, smartphones ou tablets. Os laboratórios, agora, são virtuais e os professores estão atrás das câmeras. Temos os microfones ligados nas lives / meetings e aprendemos a entrar e sair de salas virtuais como se fôssemos da geração Alpha. Quanto aprendizado em tão pouco tempo...!

Pensando nesse cenário constituído por diversos atores, famílias, docentes, gestão, estudantes, há de se considerar que nem todos reagiram com flexibilidade de adaptação ao ensino remoto. Muito desconforto ainda paira no ar. A dificuldade de lidar com o novo, de ser resiliente e de conviver tanto tempo em ambiente restrito, em família e sem o contato presencial com amigos é algo desafiador para vários que estão lendo esse artigo, inclusive. Nem todos ficaram confortáveis em suas casas, pois nem todas representam lugar de aconchego: temos, por exemplo, pesquisas que já apontam o aumento de casos de violência doméstica nesse período. A escola precisa considerar tal realidade.

Algumas pessoas, com essa avalanche de mudanças e adaptações sendo requeridas, desgastam-se muito mais que outras. Como esses estudantes retornarão? Já fizeram essa análise? Eles e nós não somos mais os mesmos. Mudanças aconteceram. E, ainda não temos vacina.

Somando-se a esse quadro, em 2019 foi divulgada a pesquisa Pnad que demonstrou entre outros pontos, que a educação brasileira continua longe de ser de qualidade para todos. 2/3 das crianças estão fora da creche (sem acesso). Segundo o IBGE, 34,3% das crianças de 0 a 3 anos frequentavam creches. E, da faixa etária de 4 a 5 anos, 92,4% frequentavam a pré-escola. Nesse cenário de caos educacional, temos um novo problema: o fechamento de inúmeras creches e escolas privadas de Educação Infantil. Se o poder público não tem vagas para todos, para onde vão esses alunos, oriundos de escolas quebradas, durante a pandemia? Mais uma vez, caos anunciado na esfera educacional.

O processo de reabertura econômica brasileira está acontecendo, haja visto que em alguns estados já notamos lentos passos nesse sentido. Vários estados também se pronunciaram quanto ao retorno das escolas, e alguns já iniciaram a retomada com a efetiva necessidade de elaboração de um plano de ação inerente a essa retomada, garantindo as condições sanitárias e de segurança no processo. Garantindo também, as medidas pedagógicas pertinentes ao recomeço.

Essa trajetória trouxe-nos até aqui: a retomada presencial. Faremos, agora, a migração inversa: do virtual para o presencial. Não será tão simples, não temos vacina para combater o vírus e ele ainda está presente. Então, o normal não voltará. Estamos diante, novamente, do desconhecido. O que podemos fazer, então? Uma das soluções é pautarmo-nos pelas práticas internacionais. O desafio de reabertura de forma segura é imenso e nada melhor do que ouvir a experiência de quem já passou por isso para planejar uma volta às aulas da melhor maneira possível. Somente no Brasil, cerca de 48 milhões de alunos matriculados no Ensino Fundamental, Médio e Superior aguardam a retomada, com muita expectativa envolvida.

Na Austrália, o retorno presencial foi em apenas um dia da semana, pelas turmas do Ensino Médio e funcionando com ensino híbrido. Nada de aproximações ou contato físico. Já a Dinamarca foi o primeiro país da Europa ocidental a reabrir as escolas para o Ensino Infantil, no fim de abril, pouco mais de 1 mês depois do fechamento temporário. O país registrou cerca de 10.000 casos, sendo pouco mais de 500 mortes. Entre as medidas de precaução tomadas está a distância de dois metros entre as mesas dos alunos, tempo de recreio reduzido, limitação de grupos em brincadeiras, necessidade de lavar as mãos a cada hora, impedimento de movimentação de pais dentro das escolas e limitação de aglomeração. O chão das instituições foi marcado com linhas, que indicam as distâncias de segurança e as maçanetas são limpas periodicamente. Os professores também foram orientados a privilegiar aulas ao ar livre e as crianças proibidas de levar brinquedos de casa. Em algumas cidades, as salas de aula, que costumavam ter 20 alunos, foram divididas em dois ou três grupos menores.

A Coreia do Sul investiu na instalação de divisões de acrílico entre as carteiras, iniciou a retomada também pelo Ensino Médio e, com a determinação de que, caso houvesse quadro de infecção em alguma escola, ela seria fechada. A Finlândia retomou pela Educação Infantil e Anos Iniciais, com a diminuição de estudantes por turma, horários diversificados de recreio e intensificação das medidas de higiene. Na Noruega, primeiro país da Europa a abrir creches, escolas de Educação Infantil e do Ensino Fundamental, as autoridades afirmaram que a medida não reavivou a epidemia. Na Sérvia, as creches e escolas de Ensino Infantil reabriram igualmente, mas somente para alunos cujos pais tinham de trabalhar.

Precisamos preparar as escolas e os profissionais diretamente envolvidos no contexto escolar para essa retomada presencial, com novas realidades sendo impostas e um cenário ainda incerto sobre a doença. Nosso primeiro foco, necessariamente, precisa estar no acolhimento socioemocional, pois os impactos foram imensos, ainda não medidos. Muitos voltarão com medo, ansiosos; outros, em luto pela perda de familiares e amigos; outros, ainda preocupados, pois não conseguiram realizar as atividades solicitadas, ou num quadro de extrema euforia, quase incontrolável, de saudade dos amigos. Esses efeitos psicológicos já foram sentidos e registrados por outros países.

De fato, as marcas não são físicas e nem semelhantes em toda a população. Esperamos que os efeitos da pandemia não se prolonguem e que possamos, de fato, desenvolver a resiliência necessária para o reequilíbrio e a volta às atividades “normais”. Cada escola vivenciou a pandemia de uma forma; em cada cidade, o contexto foi único. Situações de isolamento por um longo período, como o que estamos passando, deixam marcas nos indivíduos. Os impactos são sentidos, também, nas diversas esferas educacionais. Não somente o calendário letivo sofreu alterações e necessidade de readequação: os planejamentos igualmente. O que era para ser ensinado, de certa forma, mudou. A reflexão pautada nos objetivos e habilidades da BNCC já era emergente; agora, é questão vital para o êxito do processo de ensino e aprendizagem.

Vários são os protocolos destacados mundialmente e muito se tem falado a respeito deles. O que é certo dizer, inclusive pautando-se em experiências internacionais, é que não é simplesmente um retorno escolar. Não bastou abrir os portões. Foi necessário um exaustivo debate entre gestores e técnicos, bem como entre  docentes, para elaborar um documento norteador para a volta às aulas presenciais. Um movimento intenso de análises de fatos, leitura de muita ciência e normatizações legais para oportunizar mais segurança às famílias, legitimidade e confiabilidade. Retorno pautado em evidências científicas e regionais.

Vale ressaltar que, após períodos intensos de crise, como o que estamos vivendo agora, macro e microajustes dentro do ecossistema escolar serão considerados. Por exemplo, após o fechamento das escolas no Japão, nas regiões mais afetadas pela Segunda Guerra, no retorno, foram propiciados momentos, aos estudantes, para liberarem o estresse. Podia chorar. Não tinha problema. Nessa volta presencial pós-pandemia, não será diferente do que foi no século passado. O que tínhamos de escola presencial, em fevereiro, não será retomado nos próximos meses. Não existe volta ao “mesmo normal” que tínhamos em fevereiro. Uma nova era será vivida e escrita por nós. Assim, a escola estará atenta às mudanças comportamentais relacionadas ao tempo excessivo de isolamento social, buscando entender essa nova realidade e elaborando estratégias para que o ecossistema educacional seja atendido da melhor forma possível.

Simples: o plano de retomada deve considerar esse ecossistema, vivo, ágil, altamente exigente e que deve ser considerado como único, singular e importante. Significa pensar em estratégias de retomada para estudantes, colaboradores, parceiros e toda a família. Não basta mudar carteiras de posição, comprar um tapete sanitizante, pôr um totem de álcool em gel na entrada e obrigar a todos que usem as máscaras. Isso é o óbvio. Escolas enquanto ecossistemas educacionais sabem que os indivíduos são interdependentes. O sucesso da retomada às atividades presenciais na escola depende do sucesso de cada um dos envolvidos nessa retomada. Lembre-se da máxima: pessoas não são recursos. Pessoas são pessoas.

A escola jamais será a mesma, e alguns de seus processos também não. O segredo para a volta às aulas de forma tranquila e segura será por meio de um bom planejamento estratégico. Obviamente pagaremos um preço altíssimo por decidirmos abrir shoppings no lugar de escolas, mas entendo também, que nenhum aluno deve ser deixado para trás e que não é toda escola que estará preparada para o retorno presencial. De fato, a desigualdade, a evasão e baixa aprendizagem vão aumentar. Isso é incontestável. Por melhor que o ambiente virtual seja, que as estratégias sejam diversificadas, não conseguimos atender a todos. Pesquisas comprovam que cerca de 30% dos alunos no Brasil não tiveram acesso nenhum à atividade remota.

O assunto é complexo e não pode ser analisado por apenas dois ângulos: escola só depois da vacina ou escola aberta a qualquer custo. Não é uma questão de bandeira, mas sim de relevância. Quão relevante é a educação para o país? Gostaria de ver discursos inflamados na defesa por uma escola de qualidade para todos, com movimentos pelas ruas e bandeiras nas janelas. Um país que almeja progresso não posterga essas discussões. Existe vínculo direto entre educação e economia, entre aprendizagem e salário futuro. Que futuro teremos? O que acontecerá com a “geração Covid 19?”

Escrito por
Iolene
Iolene Lima

Pedagoga com Especialização em Orientação Educacional, Administração Escolar e Supervisão Escolar.

Pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional, MBA em Gestão de Instituições Escolares e Qualidade Educacional.

Palestrante e coach de gestores escolares, proprietária da Alcance Consultoria Educacional e diretora escolar.

iolene.consultoria@gmail.com

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