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Cobras Fumantes

As condições dos soldados brasileiros na 2ª Guerra.

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Escrito por Vittor Gabriel de Almeida Oliveira

15 OUT 2021 - 16H26 (Atualizada em 18 OUT 2021 - 18H25)

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O Brasil foi o único país da América do Sul a enviar soldados para lutarem na Segunda Guerra Mundial, o conflito bélico mais sangrento da história. As tropas do eixo, visando impedir o abastecimento do Reino Unido com suprimentos, promovia diversos ataques a navios mercantes brasileiros. No início, Vargas decidiu adotar uma política de neutralidade, apesar de diversas parcerias entre Brasil e Alemanha terem sido tentadas pelo presidente no passado. Porém, o conflito se tornou inevitável quando em menos de uma semana seis navios foram atacados pelos alemães na costa brasileira, deixando centenas de mortos. A revolta popular se manifestou em protestos que tomaram o país, e isso, somado à pressão norte-americana, acabou obrigando o envolvimento nacional no conflito.

A política de não-posicionamento do governo Vargas era tida como piada pela população, tanto que a famosa frase “É mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra” foi referenciada em diversas capas de jornais da época e virou símbolo do uniforme brasileiro. Inclusive o próprio Walt Disney enviou um desenho de uma cobra fumando ao jornal O Globo em 1945, demonstrando o apoio estadunidense às tropas nacionais.

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Em 1943, as Forças Armadas fundaram a Força Expedicionária Brasileira (FEB) sob o lema irônico “A cobra está fumando!”. Embora a participação dos pracinhas não tenha sido tão relevante no contexto geral da guerra, precisamos reconhecer o mérito de nossa nação neste momento histórico. Marcus Firmino Santiago da Silva, coordenador do curso de Direito da Escola Superior Professor Paulo Martins, do Distrito Federal, e estudioso sobre a Segunda Guerra, exalta a participação nacional no conflito. "O apoio do Brasil foi disputado na Segunda Guerra. De forma um pouco velada por parte dos países do eixo e de maneira clara pelos aliados, especialmente os norte-americanos, além da Inglaterra e da França", aponta.

Ao todo, foram mais de 23 mil soldados e oficiais, além de um grupo com cerca de 400 aviadores de caça. E diferentemente do ideal glorioso representado pelos filmes norte-americanos, a realidade dos pracinhas era outra. Nossos equipamentos eram defasados, os soldados não recebiam treinamento suficiente para participar de um conflito de tamanha magnitude, sendo a maioria, homens de baixa escolaridade e com pouca experiência militar. Diversos sobreviventes relatam que a maioria dos soldados só teve contato com todo o arsenal bélico em solo europeu, sendo forçados a aprenderem a usar os equipamentos ao som dos tiros disparados pelos soldados do eixo. O preparo deles era tão baixo que os próprios norte-americanos tiveram que realizar uma série de treinamentos intensivos para que os brasileiros se adaptassem ao novo cenário, que era bem diferente do que eles estavam acostumados, começando por um fator bem simples: o clima.

A Força Expedicionária Brasileira atuou majoritariamente na Itália, na região equivalente a Cordilheira dos Apeninos, onde o frio é extremo e chega a temperaturas de -20°C. O pior é que além de não estarem treinados para estas condições, os soldados brasileiros utilizavam um uniforme de baixíssima qualidade, feito de tecido de algodão fino, que além de não proteger do frio, também encolhia ao entrar em contato com superfícies hídricas. Dessa forma, os pracinhas andavam com seus uniformes rasgados e apertados. Durante as nevascas (que segundo relatos chegavam à altura dos joelhos) os uniformes encolhiam, fazendo com que suas canelas e cotovelos fossem expostos ao frio extremo. Devido a isso, os uniformes das tropas brasileiras foram apelidados pelos gringos de “Zé Carioca”, personagem brasileiro criado por Walt Disney em 1942 que utilizava um paletó apertado e curto nas mangas.

Além do tecido, o uniforme brasileiro teve outra escolha extremamente infeliz. A cor, que era um tom verde-oliva, similar ao uniforme do exército nazista. A semelhança era tamanha que diversos sobreviventes e testemunhas relatam que quando os soldados da FEB desembarcavam no porto de Nápoles, muitos civis italianos os confundiam com os nazistas, e estes eram vaiados, apedrejados, insultados e chegavam até a receber cuspes da população. Mas apesar das dificuldades, os pracinhas se adaptaram ao novo cenário, fazendo a diferença no conflito.

Os soldados desenvolveram diversas estratégias de patrulha e emboscada, além de acharem um meio simples para esquentar os pés, forrando seu coturno com palha e jornal, técnica que também passou a ser usada pelos norte-americanos. Devido a atos de heroísmo, diversos soldados brasileiros foram premiados pelos aliados por honra e bravura, além de protagonizarem um grande choque cultural na época.

A maioria das tropas eram segregadas racialmente, como a dos Estados Unidos, por exemplo. Já as brasileiras, não, o que causava um enorme espanto internacional. Além disso, a empatia dos pracinhas se destacava enormemente entre os europeus. Muitos dos soldados ofereciam suas marmitas aos moradores locais, que em sua maioria viviam em condições de pobreza e miséria extrema. Devido a isso, diversos monumentos foram erguidos em vilarejos italianos pelos quais os soldados passaram, sendo o maior deles em Monte Castello, local onde ocorreu uma das batalhas mais árduas da FEB. No Brasil, há o Monumento dos Pracinhas, localizado no Rio de Janeiro, que homenageia três soldados que entraram para a história por seus atos de coragem e bravura, sendo inclusive reconhecidos pelos nazistas.

Apesar de existirem muitas controvérsias, os soldados Geraldo Rodriguez Souza, Arlindo Lúcio da Silva e Geraldo Baeta da Cruz entraram para a história como os “Três grandes heróis brasileiros”. Estes três pracinhas, ao se perderem de seu pelotão durante a batalha de Montese, deram de cara com uma tropa alemã que exigiu a rendição imediata dos três. Apesar de estarem em pouco número, eles desobedeceram às ordens dos nazistas e abriram fogo contra todos os soldados do Reich, que acreditavam estar lutando contra toda uma tropa. Em desvantagem, acabaram sendo derrotados.

Após este confronto, os alemães vasculharam a área em busca das outras tropas. Para a surpresa de todos, aqueles brasileiros haviam lutado contra uma tropa inteira sozinhos. Em reconhecimento a honra e bravura dos soldados, os próprios nazistas os levaram à beira de uma estrada e os homenagearam enterrando em covas, sob cruzes que continham os seguintes escritos em alemão: “Drei Brasilianischen Helden”, que significa “Três Heróis Brasileiros”.

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Apesar das cruzes no meio da estrada serem de fato reais, há controvérsias de que estes homens era realmente os supracitados. Outros documentos apontam que suas mortes ocorreram de maneiras diferentes, porém, eles continuam sendo considerados os três heróis brasileiros.

Portanto, apesar de tantas dificuldades, os pracinhas honraram sua nação e fizeram a diferença na luta contra os governos nazifascistas na Europa, provando de uma vez por todas que o nosso “jeitinho”, a nossa empatia e a nossa bravura podem sim fazer a diferença e serem usados para um bem maior.

Com supervisão de Yeda Vasconcelos, jornalista do Meon Jovem.





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Vittor Gabriel de Almeida Oliveira

2º ano do Ensino Médio - Colégio Embraer Juarez Wanderley - São José dos Campos.

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